OS QUATRO CAMINHOS PARA A ARTE DA CELEBRAÇÃO

OS QUATRO CAMINHOS PARA A ARTE DA CELEBRAÇÃO 


A verdadeira arte da celebração está a serviço da verdade do mistério pascal e da participação de todos os batizados, cada qual com a especificidade da sua vocação. A vida cristã é um caminho de crescimento em que somos chamados a deixar-nos formar com alegria e na comunhão (cf. DD, 62). Com efeito, o primeiro modo de favorecer a participação do povo de Deus no rito sagrado é a sua condigna celebração. A arte da celebração é a melhor condição para a participação ativa (cf. SaC, 38). Dessa maneira, uma correta arte da celebração está atenta a todas as formas de linguagem previstas pela liturgia: palavra e canto, gestos e silêncios, movimento do corpo, cores litúrgicas dos paramentos. É essa variedade de comunicação que cativa o ser humano na sua totalidade. A simplicidade dos gestos e a sobriedade dos sinais comunicam e cativam mais do que o artificialismo de adições inoportunas (cf. SaC, 40). 

A tão sonhada “arte da celebração” será possível quando, sobretudo, aquele que preside compreender a profundidade da teologia do rito litúrgico. O presidente da celebração necessita assumir para si a nobre simplicidade do MISTAGOGO, a elevada sublimidade do MÍSTICO, a honrosa paixão do POETA e a exímia delicadeza do ARTISTA. Esses quatro caminhos servem como tentativa de sistematizar toda a formação litúrgica, seja ela de dimensão acadêmica ou pastoral. Essa dinâmica tem três objetivos: a beleza, a bondade e a verdade para, através desses postulados, conhecer a totalidade e a potência da celebração sacramental. Por exemplo, em todos os sacramentos, os ritos iniciais exigem a nobre simplicidade do mistagogo e a Liturgia da Palavra precisa da elevada sublimidade do místico. Na celebração da Eucaristia, a estrutura da Oração Eucarística obriga a honrosa paixão do poeta e, por conseguinte, a comunhão e os ritos finais requerem a exímia delicadeza do artista.

A unidade de todos os celebrantes é alcançada pela nobre simplicidade do mistagogo. Ele exerce a potente ação de integrar a polifonia das vozes com a sinfonia dos ministérios. Ele sabe apontar que o espaço litúrgico-sacramental é o espaço vital e o modelo do cristão no mundo. Nesse espaço não existe a diferença de raças, cores ou estados, pois todos foram convocados pelo próprio Deus. Dessa maneira, o nobre mistagogo introduz no rito todos os batizados em nome da Trindade, saúda a todos com a voz da Tradição apostólica, confessa para todos o seu ser pecador e invoca com todos o perdão incondicional, agradece por tudo e por todos, reza com a intenção de toda a Igreja para que possamos abraçar no meio das coisas que passam o Dom que permanece e saber unir a liturgia com a vida.

O entendimento da Palavra é consequência da elevada sublimidade do místico que sabe tirar da profundeza das coisas velhas a novidade para o agora da fé. Ao saber unir no silêncio da sua vida e no silêncio do rito o “naquele tempo” com “o que o Senhor nos diz hoje”, o bom pregador é aquele que fechou os olhos para Deus na oração e abriu os olhos para o seu povo necessitado de vida e de consolo. Abrindo os múltiplos tesouros da Palavra de Deus, ele não aponta para si e nem para os outros, mas para a sublimidade do mistério. A Páscoa de Cristo e as muitas páscoas dos cristãos são a fonte da sua pregação. Ensinar o povo a transformar as inevitáveis passagens da vida em Páscoa é o caminho da sua reflexão. A potência da sua homilia tem por objetivo o fortalecimento e a iluminação do povo fiel nas agruras da existência.

A oração eucarística e o sentido do memorial da salvação são vivenciados pela honrosa paixão do poeta. O poeta é aquele que sabe fazer do passado um presente, traz o futuro para o hoje e oferece o presente de uma Presença com suas mãos elevadas, estendidas e abertas. O poeta tem a certeza de que seu coração está no alto, que sua razão é elevada e que as suas emoções não são mundanas. Ao recordar as coisas elevadas, ele torna presentes os sentimentos do seu coração e as emoções da sua razão. A oração eucarística é uma verdadeira poesia declamada diante do Pai, reprodução estética da realidade percebida pelos sentidos. Sendo assim, aquele que a reza não lê um texto, mas recita uma poesia agradável aos ouvidos do Pai e apresenta uma ação afável aos olhos de Deus. O ministro-poeta na liturgia atinge a todos mais pelos gestos do que pelas palavras. Na sua poesia declamada diante do Pai, as palavras não têm a necessidade de serem compreensíveis por todos, mas audíveis. Tudo isso é o mistério da fé! Na verdade, nesse digno momento, os gestos são mais importantes do que as palavras. O ministro-poeta ostenta o amor nos gestos e torna-se uma vitrine de ação de graças sempre e em todo o lugar. Portanto, nada pode impedir que o povo celebrante veja os gestos do poeta e escute a sua voz.

A comunhão é uma arte plena de delicadezas. Fazer que os comungantes do Corpo de Cristo tornem-se o corpo eclesial é uma exigência singular para os dias atuais. É preciso uma ousada arte para que todos possam chamar a Deus de Pai e de nosso e, consequentemente, uma arte audaciosa para elevar a Ele as mãos em preces e render-se à Sua vontade. Além do mais, necessita-se da arte da reconciliação de todos e com todos, da libertação de todos os pecados e do mal e da acolhida do dom da paz. Enfim, uma arte que na fração de um único Pão não tenha o objetivo de dividir ou separar, mas de unificar e fazer de todos um só corpo. Ajudar para que, pelos sacramentos, os fiéis resgatem a semelhança do Cristo, conformem-se aos Seus sentimentos e assumam a Sua forma é a maior arte do celebrante. O mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente. 

Ao contemplar no homem criado a imagem do Filho primogênito, o Pai viu que tudo era muito bom (cf. Gn 1,31). Dessa maneira, os sacramentos nos conformando a Cristo devolvem para nós o “muito bom” do Pai. Pelos sacramentos, o Pai não vê o homem nascido da terra, mas o homem crescido para o céu. Ele não vê o indivíduo pecador e egoísta, mas a comunidade nascida no alto da cruz do coração do Seu Amado Filho e pronta para doar-se a serviço do Reino. Portanto, a verdadeira arte da celebração vai muito além da observância ritualista, pois tem por objetivo principal moldar no rosto dos cristãos a face misericordiosa de Cristo. Quanto maior consciência tiver o presidente da celebração do “dom” que possui, tanto mais se sentirá impelido a olhar para todos os celebrantes e para a criação inteira com olhos capazes de contemplar e agradecer, elevando a Deus o seu hino de louvor. Só assim é que ele pode compreender-se profundamente a si mesmo e a sua vocação e missão.

Frei Luis Felipe Marques, OFMConv. 

04 de outubro de 2024

Solenidade de São Francisco

 

 
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