QUARESMA: TEMPO NECESSÁRIO E ATUAL

QUARESMA: TEMPO NECESSÁRIO E ATUAL

Frei Luis Felipe C. Marques, OFMConv. 

 

Fomos habituados de que a Quaresma é um tempo para rever a nossa vida e confrontar-se com uma necessidade de conversão pessoal de maneira individual. No entanto, nos primeiros séculos, os 40 dias de preparação para a Páscoa eram vividos de maneira comunitária. No início o percurso era previsto para os catecúmenos e penitentes, ou seja, para aqueles que deveriam ser batizados na Páscoa e para os pecadores públicos que deveriam fazer penitência, porém, com o passar do tempo, o percurso foi estendido para todos os cristãos: todos deveriam escutar o mesmo trecho evangélico dos catecúmenos e jejuar como os penitentes. 

A intuição era valiosa porque convidava todos os cristãos a reavaliarem o próprio caminho e a vida eclesial. Este é o sentido fundamental da quaresma: todos precisamos repartir do essencial e reiniciar a caminhada. Não se trata de ser um pouco mais cristão nos atos, no rezar um pouco mais ou fazer caridade com mais frequência, mas de algo profundamente radical: trata-se da conversão. 

A fraternidade é o melhor horizonte e o mais seguro para compreendermos a nós mesmos e a nossa vocação de fiéis e de cidadãos. Onde estamos na jornada quando há tantos irmãos e irmãs, em casa e ao redor do mundo, clamando e nos pedindo para caminhar com eles? Como nos posicionamos com tanta falta de relação saudável e com tanto egoísmo? A Quaresma, portanto, também pode ser uma “conversão social” se, vendo a realidade tal como ela é, pudermos agir parando e mudando o pouco que pudermos, recuperando o fôlego e a esperança.

O pedido à conversão quaresmal tem como último fim: a amizade com Deus, o entendimento da autoridade da sua Palavra, o resgate da relação filial, a reconstrução da história salvífica e a fraternidade universal. Essa conversão deve nos curar de uma angústia que nos torna mais rígidos, legalistas e tristes e que deixa em nós marcas de mediocridade e hipocrisia. Na relação com Deus, não podemos fingir ou sermos falsos. A verdade consigo e a clareza na relação com Deus nos livra dos infernos noturnos e futuros e nos garante vida luminosa, liberdade plena e renúncia a toda a forma de hipocrisia.

O fazer penitência não é uma mortificação, mas uma vivificação do Espírito e do seu santo modo de operar. A quaresma é um movimento do Espírito. É Ele quem revitaliza nossa existência. O deserto não é uma opção ou uma iniciativa pessoal, mas é desejo do Espírito que faz Jesus acolher esse movimento interior empurrando-O a silenciar, a encontrar Deus e a refazer o plano de salvação. 

A história do Livro do Êxodo, recordada na mensagem quaresmal para o ano de 2024 do Papa Francisco, é emblemática: o povo de Israel foi libertado da escravidão do Faraó, mas carrega consigo a escravidão no coração. Ele é externamente livre e internamente um escravo. Paradoxalmente, ele não deseja a liberdade, a Terra Prometida, mas sim lamenta a escravidão, o Egito. Esta é uma fotografia do nosso coração, que carrega dentro de si a escravidão: o desejo de poder, de nos afirmarmos, de sermos aprovados e reconhecidos nos escraviza; estamos enjaulados porque estamos apegados a certos projetos individuais, a ideais maquiavélicos, a compreensões medíocres e a posicionamentos estruturais e pervertidos. 

A mensagem do Papa Francisco lembra-nos que o domínio do Faraó não é apenas externo, mas também interno. Nossos pensamentos e corações ainda podem facilmente cair sob seu poder: “é um domínio que nos deixa exaustos e insensíveis”. Por isso, a Quaresma nos oferece uma palavra potente e cheia do Espírito da liberdade: a Palavra de Deus. É a Palavra que nos conscientiza da nossa falta de liberdade, porque nos mostra uma forma de viver mais verdadeira, mais livre, mais amorosa e assim acende o real desejo do nosso coração. De certa forma, ouvindo a Palavra, vemos a nossa vida com os olhos de Deus, que são olhos livres, que nos veem já santos, livres e amorosos. Como na história do Êxodo: Deus vê um povo escravo e sonha com um povo livre. O caminho do Êxodo é, de fato, necessariamente longo, não só para chegar à Terra Prometida, mas sobretudo para escolher a liberdade autêntica.

A Quaresma é um tempo necessário e não apenas uma fase da liturgia da Igreja. É um tempo essencial e atual. É sinal sacramental da nossa conversão. Neste tempo a Igreja nos educa para abandonar a escravidão e passar da morte à vida. Isso não é um caminho abstrato, mas concreto, pleno, corporal, ritual e orante. Temos necessidade de dar lugar ao Espírito, de sonhar como Deus e de sermos libertos do poder da morte. Na Quaresma, precisamos encontrar novos critérios de juízo, novos métodos na relação com Deus e uma comunidade com a qual avançar por um caminho sempre novo e nunca percorrido. O espírito quaresmal e a sensibilidade ritual nos dão um novo alento e abre-nos a uma nova esperança. 

Desse modo, a Quaresma é o tempo para que a Igreja reveja a sua qualidade de povo de Deus e, através da memória batismal, redescubra a força da Palavra e coloque-se à disposição da vigilância na oração (cf. SC 109) para preparar-se com mais entusiasmo para a Páscoa do Senhor: “Vós concedeis aos cristãos esperar com alegria, cada ano, a festa da Páscoa. De coração purificado, entregues à oração e à prática do amor fraterno, preparamo-nos para celebrar os mistérios pascais, que nos deram vida nova e nos tornaram filhas e filhos vossos” (Prefácio da Quaresma, I).

Assim, a Quaresma é uma palavra cheia de tempo: tempo de tentação, tempo de prova, mas também tempo de desafio, tempo de coragem e de ousadia, tempo de palavras novas e de sentimentos nobres, assim como tempo de paciência e de mansidão. É o tempo do protagonismo da Igreja: “Vós reabris para a Igreja, durante esta Quaresma, a estrada do Êxodo, para que ela, aos pés da montanha sagrada, humildemente tome consciência de sua vocação de povo da aliança” (Prefácio da Quaresma, V). 

Esquecendo o sentido pleno e profundo do tempo quaresmal, a linguagem comum usa o termo “Quaresma” em sentido decisivamente negativo, como sinônimo de “falta de alegria”, de “tédio”, de “depressão” e de “tristeza”. O fato de termos perdido algumas evidências fundamentais desse tempo eclesial, transformando a força simbólica da grande “Tradição” numa pequena “tradição” recente, aburguesada e enrijecida, reduziu a Quaresma às práticas devotas de indivíduos piedosos. Um pietismo doentio no tempo da Quaresma expressa um terrível narcisismo religioso marcado não pelo amor reverente ao Senhor e sim pelo temor. A Quaresma não deve possuir o resíduo arqueológico de práticas ascéticas de outros tempos e, para isso, ela deve ser marcada por uma experiência de iniciação mais viva ao mistério pascal de Cristo: “participamos dos seus sofrimentos para participarmos também da sua glória” (Rm 8,17).

A motivação quaresmal é motivação pascal na qual recordamos que Cristo venceu a morte, destruiu o pecado e deu-nos vida com sua própria vida. A melhor maneira de entender o percurso quaresmal é à luz da Páscoa. Reduzir a experiência quaresmal a uma mera prática ascética vivenciada apenas em certas épocas do ano é fazer dessa experiência tradição, hábito e convenção religiosa-social. Esses quarenta dias devem servir para treinarmos nosso “Espírito” a ser mais silencioso, a levar mais a sério a oração, a dominar apetites desmedidos-compulsivos e a enxergar a “fome” do irmão que vive ao nosso lado. Esse treinamento deve estar destinado ao encontro com Jesus morto, sepultado e ressuscitado nos ensinando a viver com e como o Ressuscitado.

Jesus não nos convida para um altruísmo sem noção, sem sentido e sem limites. Ele não nos convida apenas para um serviço em nome de Deus. Ele nos convida para amar a partir do amor de Deus e a partir do nosso próprio amor. “O amor de Deus e o do próximo formam um único amor”. Somente através desse movimento dialético conseguimos ofertar nosso amor ao próximo. É preciso comunicar com a vida o amor de Deus. Esse é o segredo de toda a Revelação Divina e pode ser o segredo redescoberto durante o tempo quaresmal. Nosso compromisso incondicional com amor deve ser nosso modo quotidiano de estar diante de Deus compreendendo que todos somos irmãos.

 

 
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