Rege, Domine: a oração Sobre o povo do III Domingo da Quaresma

Rege, Domine: a oração Sobre o povo do III Domingo da Quaresma

 

Dom Jerônimo Pereira, OSB

 

O terceiro com o III Domingo do Tempo da Quaresma a Igreja começa um percurso que pode ser trilhado por duas estradas: a via ordinária guiada pelo Lecionário de cada ano (A, B ou C) e a via “extraordinária” guiada pelo Lecionário próprio para a celebração do I escrutínio naquelas Igrejas onde esses são celebrados em vista do batismo dos catecúmenos na Vigília pascal, que consiste nas leituras do ano A. Uma atenção particular dispensamos à oração Sobre o povo desse domingo. 

 

Sobre a procedência

 

A Oração sobre o povo do III Domingo da Quaresma é de nova composição. De fato, trata-se de um texto composto por dois outros textos, ambos procedentes do Sacramentário Veronense. Observemos de perto, antes de tudo, o texto como se apresenta no MR2002/8[1] e como está traduzida para o Brasil (MR2023)[2]:

 

Rege, Domine, quaesumus, tuorum corda fidelim, et servis tuis hanc gratiam largire propitius, ut in tui et proximi dilexionem manentes, plenitudinem mandatorum tuorum adimpleant.

 

Dirigi, Senhor, nós vos pedimos, os corações dos vossos fiéis, e concedei benigno a vossos servos a graça de, permanecendo no amor a vós e ao próximo, cumprir plenamente os vossos mandamentos. 

 

            A primeira parte da Rege, Domine, vem da oração Sobre o povo do formulário XVIII (Incipiunt orationes et praeces diurna: mense iulio) XXXII (Item ad uesperum), número 597: 

 

Rege, domine, quaesumus, tuorum corda fideliumet ut bona tua te largiente percipiant ipsorum primitus bonas esse effice uoluntates.

 

A segunda vem da Oração Coleta do mesmo formulário (Incipiunt orationes et praeces diurnae: mense iulio) XXXIII, número 599:

 

Deus qui plenitudinem mandatorum in tua et proximi dilectione posuisti hanc nobis gratiam largire propitius ut quia in multis offendimus tua caritas abundet in nobis per quam peccata mundantur.

 

A tradução é muito fiel ao texto latino

 

Estrutura 

 

Como se trata de uma oração Sobre o povo, uma oração de intercessão, a invocação é muito sóbria, nesse caso concreto, não apresenta uma parte anamnética, e a parte epiclética se apresenta amplamente expandida. Tudo se desenvolve em torno do campo semântico dos verbos rege (imperativo do verbo transitivo regere: dirigir, guiar) largire(verbo transitivo: oferecer, dar, conceder), acompanhado pelo adjetivo propitius (propício, favorável, benévolo, bem-disposto, clemente, indulgente). O que se pede é que o Senhor dirija os corações e que conceda a graça da permanência no amor, a Deus e ao próximo, indicando a razão do pedido: o cumprimento em plenitude dos mandamentos.

 

Fontes e apreciação

 

A fonte primaria dessa oração é a Sagrada Escritura, sobretudo, neotestamentária. Precisamente se trata da releitura crística do mandamento do amor a Deus e ao próximo, parte imprescindível da Aliança:

 

Eis as ordenações, as leis e os preceitos que o Senhor, vosso Deus, me or­denou ensinar-vos [...] para que prolongueis vossos dias na terra [...] para que sejas feliz e te multipliques copiosamente [...]. Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças (Dt 6, 1-5).

Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor (Lv 19,18).

 

Nesse caso, o próximo, é o judeu, o compatrício. Jesus, todavia, ousando vincular estreitamente as duas leis do amor, leva-as à perfeição, conforme a parábola do “bom samaritano” (Lc 10). Para Jesus, o amor é o “seu mandamento”, o seu testamento e o distintivo dos seus seguidores: “Dou-vos um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisso todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns outros (Jo 13,34-35). O amor como uma condição da alma e não apenas uma emoção característica. É a atitude do dar-se espiritual (a Deus) e do interesse pelo próximo. A primeira forma de amor a Deus é servindo aos irmãos (cf. Mt 25). Nesse domingo do I escrutínio para os catecúmenos e para a Igreja que está refazendo o seu caminho catecumenal, os pastores imploram a fidelidade a esse mandamento/dom, que João afirma ser a essência do próprio Deus, forma da presença de Deus em meio a seu povo, libertação do temor:

 

Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor está aperfeiçoado em nós. Assim conhecemos o amor que Deus tem por nós e confiamos nesse amor. Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele. Dessa forma o amor está aperfeiçoado entre nós, para que no dia do juízo tenhamos confiança, porque neste mundo somos como ele. No amor não há medo; pelo contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor. Nós amamos porque ele nos amou primeiro. Se alguém afirmar: “Eu amo a Deus”, mas odiar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. Ele nos deu este mandamento: Quem ama a Deus, ame também seu irmão (1Jo 4,12-21). 

 

Ágape é o termo grego empregado nos Evangelhos para esse tipo de amor. Um tipo de amor de “boa vontade”, de benevolência ilimitada e agressiva em favor do próximo: “Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5,44). Ele tem um parâmetro, inspira-se na própria fonte do amor, que é Deus, que, mediante a atuação do Espírito Santo nos foi revelado na face de Cristo: “Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho” (Jo 3,16). 

 

Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo o que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Nisto manifestou-se o amor de Deus para conosco: em nos ter enviado ao mundo o seu Filho único, para que vivamos por ele. Nisto consiste o amor: não em termos nós amado a Deus, mas em ter-nos ele amado, e enviado o seu Filho para expiar os nossos pecados. Caríssimos, se Deus nos amou assim, também nos devemos nos amar uns aos outros (1Jo 4,7-11)

 

É o amor deve governar toda a conduta do crente dentro (celebração) e fora (cotidiano) da Igreja. O próprio Jesus demonstrou a dimensão sacramental do amor “Como o Pai me ama, assim também eu vos amo. Perseverai no meu amor” (Jo 15,9). Assim ele se torna o maior mandamento: 

 

Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” Respondeu Jesus: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito”. Esse é o maior e o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás teu próximo como a ti mesmo. Nesses dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas (Mt 22, 36-40).

 

É preciso, então, guardar o mandamento do Mestre: “Se guardardes os meus mandamentos, sereis constantes no meu amor, como também eu guardei os mandamentos do meu Pai e persisto no seu amor” (Jo 15,10). A guarda dos mandamentos, ou do mandamento fundamental do amor é dom: “Eis o amor de Deus: que guardemos seus mandamentos. E seus mandamentos não são pesados” (1Jo 5,3). A observância desse mandamento se torna elemento fundamental de discernimento do conhecimento de Jesus Cristo: E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu conheço-o, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade” (1 Jo 2,3-4). Esse é o valor máximo entre os cristãos, o seu maior tesouro, sua maior riqueza, porque nele está o cumprimento e a superação de toda a lei: “A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, a não ser o amor recíproco; porque aquele que amo o seu próximo cumpriu toda a lei” (Rm 13,8). O amor salva de qualquer espécie de ofensa a Deus: “Quem ama seu irmão permanece na luz e não se expõe a tropeçar” (1Jo 2,10) e garante a vida: “O que guarda o seu mandamento guarda a sua alma, mas o que o despreza morrerá” (Pr 19,16).

A expressão largire propitius é um é um hápax, isto é, a encontramos somente uma vez no Missal Romano. Usando o sistema de comutação, por sua vez, podemos encontrar não menos de 58 vezes a expressão concede propitius. Essa forma de suplica apelativa é muito comum nas orações depois da comunhão, especialmente nas festas dos santos. No próprio aparece 11 vezes: 1 vez no T. Advento; 2 vezes no T. Natal, 2 vezes no T. Quaresma; 3 vezes no T. Pascal e 3 vezes no T. Comum.

 

A eclesiologia

 

            A imagem de Igreja presente na oração é de comunidade serva do Senhor (servis tuis), traduzida como “vossos fiéis”. Também essa é uma expressão bíblica. A estrutura da frase parece estar calcada no versículo 7 do salmo 94: “Ele é o nosso Deus, nosso pastor, e nos somos o seu povo e o seu rebanho, as ovelhas que conduz com sua mão”. Muitas vezes encontramos essa estrutura na oração bíblica. A imagem da Igreja é a da Ecclesia orans que funda as suas raízes nas mais belas expressões de oração da Sagrada Escritura, tanto do Novo, quanto do Antigo Testamento:

 

1Re 8,23: “Senhor, Deus de Israel, não há Deus semelhante a vós [...]; vós sois fiel à vossa misericordiosa aliança com os vossos servos (servis tuis), que caminham diante de vós de todo o seu coração”.

2Cr 6,14: “Senhor, Deus de Israel, não há nem no céu nem na terra um deus que se compare a ti, que seja fiel à sua alianças seus servos (servis tuis) e cheio de misericórdia paro com os que te servem”

 

Ne 1,5-6: “Ah, Senhor, Deus do céu [...], que vossos ouvidos estejam atentos e vossos olhos se abram para ouvirdes a prece que eu, vosso servo, estou fazendo na vossa presença, de noite e de dia, pelos filhos de Israel, vossos servos (servis tuis), confessando os pecados que nós, os israelitas, cometemos contra vós”. 

 

Sl 89, 16: “Manifestai vossa obra aos vossos servidores (servis tuis), e a vossa glória aos seus filhos”.

 

Sl 101,15: “Porque vossos servos (servis tuis) têm amor aso seus escombros e se condoem de suas ruínas” 

 

Dn 3,26.33.44: “Sede bendito e louvado, Senhor, Deus de nossos pais! [...] Agora não ousamos nem mesmo abrir a boca: vergonha e ignomínia para vossos servos (servis tuis) e a nós que vos adoramos. Que sejam confundidos aqueles que maltratam vossos servos (servis tuis).

 

Dn 9,4-6: “Ah! Senhor, Deus grande e temível [...] Nós pecamos [...] Não escutamos vossos servos (servis tuis), os profetas, que falaram em vosso nome [...]”.

 

At 4,29: “Agora, pois, Senhor, olhai para as suas ameaças e conce­dei aos vossos servos (servis tuis) que com todo o desassombro anunciem a vossa palavra”.

 

Ap 11,16-18: “Os vinte e quatro Anciãos [...] prostraram-se de rosto em terra e adoraram a Deus, dizendo: [...] Irritaram-se os pagãos, mas eis que sobreveio a tua ira e o tempo de julgar os mortos, de dar a recompensa aos teus servos (servis tuis), aos profetas, aos santos, aos que temem o teu nome, pequenos e grandes, e de exterminar os que corromperam a terra”.

 

A relação com o contexto próximo

 

            A prece encontra dois elementos de eco no contexto do formulário e do Lecionário. Na oração Sobre as oferendas, o tema do amor se manifesta no pedido que, pelo sacrifício que se oferece para implorar o perdão dos pecados, se chegue a aprender a perdoar os nossos irmãos. A I leitura (Êx 20,1-17) se insere dentro do contexto da Aliança. Deus é apresentado como o guia do povo de Israel; Deus dirige o seu povo por meio do dom da lei. O versículo 6 ecoa as palavras de Jesus acerca da observância dos seus mandamentos: uso da misericórdia por mil gerações com aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos”.

 

Um texto fonte

 

Certamente o texto da nossa prece tornou-se fonte para uma expressão lírica da liturgia de Pentecostes (Ant. Mag. I Vésperas): “Veni, Sancte Spiritus, reple tuorum corda fidelium, et tui “amoris” in eis ignem acende...”.

 

 





[1] Missale Romanum ex decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum auctoritate Pauli PP. VI promulgatum Ioannis Pauli PP. II cura recogitum, editio typica tertia emendata. Città del Vaticano: Typis Polyglottis Vaticanis 2008, 229.

[2] Missal Romano reformado por decreto do Concílio Ecumênico Vaticano II e promulgado por autoridade de S. S. o Papa Paulo VI e revisto por S. S. o Papa João Paulo II. Tradução portuguesa da terceira edição típica realizada e publicada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica, CNBB, Brasília 2023, 188.

 
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