REMEDII SEMPITERNI & DEUS, QUI ILLUMINAS AS ORAÇÕES SOBRE AS OFERENDAS E DEPOIS DA COMUNHÃO IV DOMINGO DA QUARESMA   II PARTE

Remedii sempiterni & Deus, qui illuminas

As orações Sobre as oferendas e Depois da comunhão

IV Domingo da Quaresma

 

II Parte

 

Deus, qui illuminas

 

Passemos à oração Depois da comunhão; vejamos a sua forma típica latina, a sua tradução oficial e apresentamos uma tradução para estudo:

 

2008

Deus, qui illuminas omnem hominem venientem in hunc mundum, illumina, quaesumus, corda nostra gratiae tuae splendore, ut digna ac placita maiestati tuae cogitare semper, et te sincere diligere valeamus.

 

2023

Ó Deus, luz de todo ser humano que vem a este mundo, iluminai nossos corações com o esplendor da vossa graça, para pensarmos sempre o que vos agrada e amar-vos de todo o coração.

 

Tradução para estudo

Ó Deus, que iluminas todo homem que vem a este mundo, ilumina, te suplicamos, nossos corações com o esplendor da tua graça, para que sempre possamos pensar o que é digno e agradável à tua majestade, e amar-te sinceramente.

 

Discurso sobre as fontes

 

Utilizando os instrumentos, identificamos a nossa Oração 

 

Br

BRUYLANTS, 358.

CO

Corpus Orationum, 1721.

 

A oração Deus, qui illuminas funda as suas raízes na tradição papal/episcopal gregoriana. A encontramos, em primeiro lugar como uma prece ad libitum destinada ao uso da visita aos enfermos (Gr 4007: Orationes de visitatione infirmorum):

 

Deus, qui illuminas omnem hominem venientem in mundum, illumina, quaesumus, cor famuli tui illi spiritum gratiae tuae splendore, ut digna maiestati tuae cogitare et diligere valeat. 

 

Também a encontramos como uma Oração sobre o povo no formulário de Missa para pedira a graça do Espírito Santo (Gr 2334: Missa ad postulandam gratiam Spiritus Sancti, Super populum), estilisticamente adaptada:

 

Deus, qui illuminas omnem hominem venientem in hunc mundum, illumina, quaesumus, cor nostrum gratiae tuae splendore, ut digne maiestati tuae cogitare et diligere valeamus. 

 

Da tradição gregoriana a Oração passou para o Missal impresso de 1474, mudando a sua função ritual para oração Depois da comunhão e migrando para o formulário de Missa destinado distanciar os maus pensamentos (1474MR 3046: Missa ad repellendum malas cogitationes, [Post communio]). 

 

Deus, qui illuminas omnem hominem venientem in hunc mundum, illumina, quaesumus, corda nostra gratiae tuae splendore, ut digne maiestati tuae ministrare, teque aeterna caritate diligere valeamus. 

 

Do 1474MR foi introduzida no Missal da Reforma tridentina (1570MR 4166: Orationes dicendae in Missa ad libitum Sacerdotis, Ad repellendas malas cogitationes, Postcommunio) até a sua última edição (1962MR 5054: Orationes diversae, n. 25, Ad repellendas malas cogitationes, Postcommunio), sendo ligeiramente retocada e adaptada: 

 

...ut digna ac placita maiestati tuae cogitare semper et te sincere diligere veleamus.

 

            Finalmente, sem nenhum retoque, a Deus, qui illuminas, passou para o Missal Romano reorganizado segundo os ditames dos Padres do Concílio Vaticano II:

 

= 1970MR p. 209: Dominica IV in Quadragesima, Post communionem.

= 1975MR p. 209: Dominica IV in Quadragesima, Post communionem.

= 2000/8MR p. 242: Dominica IV in Quadragesima, Post communionem.

= 2023MRB p. 197: 40 Domingo da Quaresma

 

Perspectivas teológicas

 

Deus, qui illuminas começa com uma expressão muito fascinante, partindo da alusão inicial ao prólogo do Evangelho segundo João (Jo 1,9): “[O Verbo] era a luz verdadeira que, vindo ao mundo, ilumina todo homem”. A Igreja transforma em prece a Palavra de Deus. Interessante observar que a humanidade toda (omnem hominem) é destinatária da luz divina e da sua vinda, é o “objeto direto” da ação daquele que foi invocado (Deus).

O tema da luz, em todas as suas nuances, perpassa toda a revelação bíblica[1]; desde as primeiras páginas do Gênesis, onde Deus aparece como o criador da luz (cf. Gn 1, 3-4), até às mais sublimes páginas do Novo Testamento onde o próprio Deus é definido como luz (cf. 1Jo 1, 5) e se manifesta plenamente em Jesus Cristo, “luz do mundo” (cf. Jo 8, 12) e “esplendor da glória do Pai” (cf. 2Cor 4, 4.6; Hb 1, 3), ele que no fim de tudo aniquilará, com a sua luz, qualquer resquício de escuridão (cf. Ap 22, 5); consequentemente, a comunidade dos crentes é uma comunidade-luz e de iluminados (cf. Mt 5, 14.16; 1Pd 2, 9; 1Ts 5,5). 

     Da contemplação do mistério da luz, brota nos lábios da igreja o pedido de ter olhos iluminados com o esplendor da graça (gratiae splendore). Certamente, o autor tinha em mente o quanto afirma o Salmo 36,10: “Na tua luz veremos a luz”. Na literatura veterotestamentária, Deus é o Deus da luz. Quando ele aparece, o seu esplendor é deslumbrante como a luz do dia, raios luminosos saem das suas mãos (cf. Hab 3, 4). A luz é o seu manto (cf. Sl 103, 2).  A abóbada celeste onde apoia o seu trono é resplandecente como o cristal (cf. Ex 24, 10; Ez 1, 22), envolvida de fogo (cf. Gn 15, 17; Ex 19, 18; 24, 17; Sl 17, 9; 47, 3) e lança raios como um relâmpago (cf. Ez 1, 13; Sl 17, 15). A sua sabedoria é uma luz resplandecente (cf. Sb 7, 26.29), ele mesmo é a luz para os justos (cf. Sl 111, 4), uma luz que guia no caminho da virtude o que nele espera (cf. Jó 29, 3), por isso a felicidade do fiel encontra nela a sua fonte (cf. Sl 34, 10; Is 60, 19). Para o salmista a Palavra de Deus é uma lâmpada para os pés, uma luz para o caminho (cf. Sl 118, 105). Essa Palavra assume a carne humana, Jesus Cristo, por isso a Igreja pede, nessa prece dirigida ao Pai, para ser iluminada pela luz que procede dele, o seu Filho unigênito.

 

“…visitar-nos-á o Sol do alto79para iluminar os que estão sentados nas trevas e na sombra da morte e dirigir os nossos passos no caminho da paz (Lc 1,78-79).

 

“Dispensa agora o teu servo, Senhor, [...]. 30Porque os meus olhos viram a tua salvação 31que preparaste diante de todos os povos, 32luz para iluminar as nações, e glória de teu povo Israel” (Lc 2,29-32).

 

“Falou-lhes outra vez Jesus: “Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12).

 

“Por isso, enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo” (Jo 9,5).

 

A nossa prece tem, em certo sentido, um tom “natalino”, nos remete à Missa do dia de Natal que proclama solenemente o prólogo do Evangelho de São João, mas também está perfeitamente em correspondência com o Evangelho do IV domingo da Quaresma do Ano A: a cura do cego de nascença, texto próprio para quando se celebra o segundo escrutínio, independentemente do ano. É exatamente no contexto da cura do cego de nascença que Jesus se revela como a luz (cf. Jo 9, 5). Embora o mundo dê preferência às trevas, odiando à luz, porque ela revela as suas obras malvadas (cf. Jo 3, 19-20), quem o segue terá a luz da vida (cf. Jo 8, 12), quem nele crê não caminha nas trevas (cf. Jo 12, 46) e quem opera a verdade é por ele iluminado (cf. Jo 3, 21).

Finalmente, a Oração expõe dois motivos pelos quais a Igreja expressa o seu desejo de ser iluminada: ter a mentalidade renovada, pensando no que é digno e agradável a Deus, ou seja, ter “o pensamento de Cristo” (2Cor 2,16), e amá-lo sinceramente. Aqui encontramos uma espécie de axioma joanino: “aquele que afirma permanece [amar o] no Senhor deve também viver [pensar] como ele viveu [pensou] (1 Jo 2,6).

            Um paralelo estrutural encontramos na Oração depois da comunhão da Missa do dia da Solenidade da Epifania (2023MRB, p. 144):

 

Ó Senhor, guiai-nos sempre e por toda parte com a vossa luz celeste, para que possamos contemplar com olhar puro e viver com amor sincero o mistério de que nos destes participar.

 

Essa oração é profundamente enraizada na teologia joanina e patrística. Ela reflete a vida cristã como um caminho de iluminação, no qual somos chamados a pensar segundo Deus e amá-lo com toda a sinceridade do nosso ser.  

 

Respondeu Jesus: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu o coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito (Dt 6,5). Esse é o maior e o primeiro mandamento (Mt 22,37-38).

 



[1] Cf. «Luce», in Le immagini bibliche, 798-804; H. Chr. Hahn, «Luce», in DCBNT, 944-954; Id., «φῶς», in DCBNT, 949-957; P. Evidokimov, «Le mystère de la lumière dans la bible», BVieChr 4 (1953) 40-52.

 
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