RITUALIDADE DO PENTECOSTALISMO

A RITUALIDADE DO PENTECOSTALISMO
Em memória ao frei João Benedito Ferreira de Araújo, OFMConv.

       A Páscoa de Cristo e a Páscoa da gente é sempre um evento surpreendente e cheio de mistério. De Páscoa em Páscoa, domingo após domingo, nos preparamos para celebrar a Páscoa definitiva do encontro com o Mistério Pascal de Cristo. Na celebração cotidiana e na santificação dos dias somos conformados a assumir os gestos e ter os mesmos sentimentos de Cristo até assumi-lo definitivamente como o Caminho, a Verdade e a Vida. 
       Na participação ativa na liturgia, na vivência experiencial da fé, nos ritos e nas preces litúrgicas somos preparados para fechar os olhos para este mundo e abri-los para Deus. Na lex orandi da liturgia recebemos a confirmação de que a nossa vida não é tirada quando morremos, mas transformada, pois desfeitos os laços do corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível. Sendo assim, a consciência e a participação ativa no celebrar cristão são os caminhos de preparação para a vivência da Páscoa definitiva. Esse fato é uma descoberta que fazemos de liturgia em liturgia.  
        Faço essa pequena introdução do mistério da nossa Páscoa definitiva para relatar o que segue. Nas primeiras horas da manhã do dia 15 de maio de 2023, fomos todos surpreendidos com a Páscoa definitiva e repentina do Frei João Benedito Ferreira de Araújo (OFMConv.). Ele, consciente de que a participação ativa na liturgia é a fonte e o cume da vida cristã, no domingo, 14 de maio, na última celebração eucarística do dia, no momento sublime da “Fração do Pão”, teve um mal súbito e descompensou ao lado do altar do Cordeiro. Levado ao hospital, na manhã do dia seguinte, teve complicações graves e faleceu.  
       Dentre as diversas atividades exercidas durante a sua vida, que aqui não irei mencioná-las, pois foram muitas e significativas, entre os anos 2010 e 2018, dedicou-se ao estudo da liturgia e recebeu o título de “doutor” pelo Instituto de Liturgia Pastoral S. Justina, em Pádua, na Itália. Em 2020, retornando ao Brasil, aventurou-se com intensidade na vida pastoral e trabalhou para que o nosso santuário franciscano conquistasse o título de “Basílica Menor de São Francisco de Assis”. 
       Na sua dedicação pastoral, frei João pouco deu continuidade à sua vida acadêmica, não tendo tempo, nem sequer de publicar a sua tese doutoral na língua portuguesa em solo brasileiro. Exatamente, neste ano de 2023, perto de concluir o seu mandato de pároco, participou da Jornada Litúrgica da Associação dos Liturgistas do Brasil, conquistando a simpatia de todos os presentes com a sua alegria e convivência, para retomar a reflexão e contribuir com o ensino da teologia litúrgica.  
       Enquanto estudante em Pádua, se propôs a pesquisar sobre a ritualidade do pentecostalismo, suas causas e crescimentos no Brasil e no mundo. Longe de fazer elogios póstumos, aproximando-se à Solenidade de Pentecostes, como seu confrade e grato por tudo o que fez, neste breve artigo, quero honrá-lo ao trazer à luz as suas teses. 
       Tendo em mãos o seu livro, publicado em italiano, percebo que o seu objetivo no trabalho doutoral foi indagar o fenômeno do pentecostalismo, movendo-se em vários campos: descritivo, histórico, teológico, pastoral, litúrgico, sociológico e fenomenológico. Muitas vezes a diversidade de disciplinas resumiu o fenômeno do Pentecostalismo somente a partir de análises sociológicas e antropológicas. Efetivamente, a Igreja o interpretou apenas a partir da pastoral e da dogmática. Por isso, a novidade da pesquisa está no interesse de sublinhar o elemento ritual do fenômeno em questão. 
            O trabalho foi dividido em três partes: análise do pentecostalismo no mundo moderno, análise do rito pentecostal do ponto de vista antropológico com o auxílio de alguns estudiosos dos fenômenos rituais e considerações litúrgicas-pastorais. Em cada uma dessas partes são encontrados três capítulos.        
    Na primeira parte: a origem do pentecostalismo, em particular no Brasil (cap. 1); a revolução derivado do pentecostalismo dentro do mundo cristão (cap. 2); análise do ritual pentecostal (cap. 3). O escopo dessa primeira parte foi fornecer um panorama geral do fenômeno do pentecostalismo. A exponencial difusão foi analisada em chave histórica e, dentro dos capítulos, a partir das categorias do rito. A abordagem fenomenológica foi fundamental para entender as causas que deram origem à difusão pentecostal.  
         O primeiro capítulo abordou que o nascimento e o desenvolvimento do pentecostalismo deixou aberta numerosas vias de reflexão acerca da relação que o homem moderno instaura com a divindade. O pentecostalismo de origem Protestante e, sucessivamente, dentro do ambiente católico, revela a constante procura do homem por uma espiritualidade. De fato, a natural procura do homem pelo divino é o ponto de partida para uma reflexão sobre as religiões no mundo de hoje. O segundo capítulo analisou os elementos principais de sustentação do mundo pentecostal: a influência política dos movimentos pentecostais, os líderes carismáticos e midiáticos, o fundamentalismo da Palavra, o escarço corpo doutrinal, a teologia da prosperidade, a mudança do conceito de espaço sagrado, a procura pela milagroso e a rejeição às outras religiões. O terceiro capítulo descreveu o sentido do movimento. O frei procurou mostrar com delicada descrição o fenômeno do pentecostalismo: oração de cura, saudações, ensinamentos, exorcismos, o falar em línguas, a profecia, o batismo no Espírito e a imposição das mãos. A efusão do Espírito é considerada como o “mito” fundamental do rito pentecostal. A força de atração e de construção da comunidade nasce da confiança na efusão do Espírito, que transforma a assembleia em comunidade orante, na qual a força do Sacro se manifesta nos dons carismáticos. Nesse capítulo, encontramos o centro de toda a pesquisa: demostrar que a “ritualidade” cria uma comunidade, converge, envolve, transforma do ponto de vista emotivo até criar um sentir religioso que ultrapassa a doutrina e toca a sensibilidade através dos gestos, do corpo e das formas comunicativas.    
             Na segunda parte, o estudioso analisou o pensamento de três antropólogos da ritualidade: Emile Durkhein e a força associativa do rito (cap. 4); Roy A. Rappaport e o rito como fundamento da própria humanidade (cap. 5); Thomas J. Csordas, corpo, mente e espírito a serviço da ritualidade pentecostal (cap. 6). Foi a disciplina de antropologia, em particular, com Durkhein, Rappaport e Csordas, a guiar a intuição sobre a centralidade que gira em torno do rito na dinâmica de êxodo dos fiéis católicos ao pentecostal. 
             Baseando-se em Durkhein, o frade explicou que a dinâmica do fenômeno pentecostal é a força associativa do ritual que constitui a sociedade ideal. A ritualidade é a exaltação do social, enquanto o rito forma a comunidade e garante a unidade. O culto coletivo, formando e fazendo crescer a comunidade, torna-se uma chave de leitura do fenômeno pentecostal. No americano Rappaport, João encontrou a síntese de que o rito é necessário para a dimensão humana, sendo um ato social fundamental. A raiz da constituição do rito, na visão do antropólogo, deve ser procurada nos aspectos genéticos do próprio homem que, no seu ciclo evolutivo, necessita da ritualidade para conferir significado e sentido à realidade externa. Aprofundando a compreensão de Csordas que atribuía uma prioridade fundamental ao corpo, em particular, na sua função de mediação imediata com a realidade, o liturgista trouxe o elemento corpóreo dos movimentos pentecostais. A mente e o corpo tem dimensão relacional e servem como parte constitutiva da identidade do ser humano. Em um mundo cartesiano, que separa a mente do corpo, uma importância conferida a corporeidade é revolucionária. Se o corpo é a chave para interpretar a transmissão do saber, ele é a razão para a compreensão dos movimentos carismáticos. A comunicação entre os fiéis que envolve a dimensão corporal é o segredo do sucesso dos ritos religiosos desses movimentos. O efeito produzido pelos fenômenos rituais é a efetivação da cura dos fiéis. A cura não é tanto definida como saúde, mas como re-significação da situação que tem como causa o mal interior. Graças a sensação corporal a cura é entendida como intervenção divina.  
       Após uma abordagem do rito pentecostal em chave fenomenológica e da introdução de três categorias a partir de três importantes antropólogos, frei João recorreu a integração do fenômeno com a antropologia para considerar a hermenêutica do movimento. Para repensar a pastoral a partir do rito, na terceira parte, ele abordou: o rito pentecostal, uma religião feita com o corpo (cap. 7); uma hipótese sobre a crise do catolicismo, uma pastoral sem liturgia (cap. 8); provocações do pentecostalismo (cap. 9). 
       Assim, nos últimos capítulos, ele recolheu uma série de propostas litúrgicas-pastorais que tiveram a intenção de oferecer indicações para ajudar o Brasil, e outras áreas, a enfrentar o problema do crescimento pentecostal. É preciso ler este tempo de crise como tempo de graça: ocasião de recolher elementos da tradição ritual da Igreja, que são profundamente necessários para dialogar com a cultura brasileira, e que foram esquecidos da prática ritual católica brasileira. Em uma noção reconhecida como povo da festa, da dança, da alegria, do toque e da religiosidade popular a proposta do frei João consiste em apresentar a liturgia como fons et culmen, na tentativa de sublinhar uma prática sempre antiga e sempre nova que possa contribuir com a Igreja no Brasil. 
       O sucesso do pentecostalismo pode ser explicado não a partir da compreensão dogmática, doutrinal ou pastoral, mas dos efeitos que a ritualística do movimento produz nos fiéis. Uma leitura antropológica dos ritos pentecostais coloca-o dentro da categoria líquida com as suas formas autorreferencias de espontaneidade e do entendimento de que o homem moderno é líquido. Consequentemente, temos uma ritualidade líquida para um homem líquido. A centralidade conferida a realidade litúrgica é o segredo do pentecostalismo e essa centralidade pode ser a resposta para a atual crise que vive o catolicismo. 
       O raciocínio sociológico, cultural, político, demográfico e empresarial não é capaz de fornecer uma motivação suficiente para explicar o fenômeno religioso. Dessa maneira, existe um pressuposto implícito, muito mais profundo, que está além dessas abordagens disciplinares, isto é, a liturgia. A centralidade do rito litúrgico é capaz de explicar o fenômeno religioso do pentecostalismo e apresentar uma resposta para a evangelização católica. Ainda hoje, a pastoral brasileira não se estrutura a partir da liturgia e da ritualidade, sendo assim, uma pastoral sem liturgia. Com efeito, propõe apenas uma leitura doutrinal do fenômeno religioso, subestimando o aspecto litúrgico, apresentando na Igreja latina uma doutrina sem liturgia. Então, as formas rituais do pentecostalismo é a fonte da pastoral, sendo mais atrativa e criativa. 
       Sendo assim, a Igreja no Brasil deve percorrer o caminho de autorreferencialidade do rito, sem transcurar as características canônicas da ritualidade. Para chegar nessa dimensão importante do rito, a pastoral litúrgica católica não pode abandonar a profundidade da religiosidade brasileira: a devoção popular, a potencialidade da cura física, psicológica e espiritual do rito. Sem dúvidas, a liturgia não pode esquecer o sofrimento concreto do sujeito celebrante. É fundamental, sobretudo, que se compreenda e se aceite que a liturgia tem a função primordial de construir comunidade, porque essa nasce do encontro com o Cristo Ressuscitado. 
       Após o aprofundamento dessas várias questões que envolvem a ritualidade do pentecostalismo e a questão da pastoral litúrgica, na conclusão geral, o liturgista frei João Benedito, sintetiza doze teses: 
1. O erro principal da pesquisa efetuada por diversas disciplinas sobre o pentecostalismo foi aquele de abordar a questão apenas sobre o plano sociológico e econômico. 
2. Os dois principais erros da Igreja Católica foram: ignorar e subestimar o fenômeno pentecostal e fornecer uma explicação apenas do ponto de vista pastoral e dogmático. 
3. O pentecostalismo, propondo uma ritualidade líquida, configura-se como a religião líquida do homem pós-moderno. 
4. O pentecostalismo pode conduzir o povo brasileiro ao fenômeno da secularização. 
5. A explicação do sucesso do pentecostalismo deve ser analisada a partir da sua ritualística. 
6. A primeira causa da difusão do pentecostalismo está na capacidade de que seus ritos formam um grupo.
7. A segunda causa do sucesso do pentecostalismo está na sua capacidade de ter um rito autorreferencial. 
8. A terceira causa da transmissão do pentecostalismo está na sua capacidade de envolver o corpo. 
9. A resposta ao desafio da Igreja Católica brasileira é chamada a confrontar-se está expressa na Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium: o processo de inculturação e adaptação ritual.
10. O primeiro aspecto que o rito católico no Brasil é chamado a assumir é a dimensão comunitária. 
11. O segundo aspecto que o rito católico brasileiro é chamado a aderir é a importância à dimensão corpórea. 
12. O terceiro aspecto que o rito católico na Igreja no Brasil é chamado a assumir, para está em linha com a tradição da Igreja, é a dimensão da festa.

       A liturgia cristã no mundo ocidental não deixa espaço suficiente ao mundo das emoções e ao mundo das experiências. O Ocidente mostra-se durante a celebração ser mais sério, construindo a experiência da fé sobre valores e costumes rubricistas, abandonado facilmente diante de carências de energia e vida. Dessa maneira, o Ocidente deve deixar-se provocar pelo mundo pentecostal. A liturgia é custódia da fé e da religião, mas a liturgia deve ter vida, deve animar os símbolos religiosos e deve desenvolver uma potencialidade afetiva e emotiva que não conhecemos ainda.    
       Enfim, é muito interessante deter-se na pesquisa do frei João Benedito. À primeira vista, devido o tema e a pesquisa ser de um liturgista, parece que ele irá criticar o pentecostalismo ao ponto de dizer que a Igreja deve intervir para acabar com o fenômeno (Pode x não pode). Talvez, alguns até queriam ler uma crítica mais ácida e acirrada por parte de um estudioso em liturgia. Afinal, o tempo que vivemos é de pura “apologética” sem sentido, sem razão e sem coração, ou melhor, sem fé. No entanto, por surpresa, a proposta apresentada é bem diferente. Nesse sentido, entendemos que o seu estudo não é proveniente de um simples homem inteligente que com a sua capacidade podia criticar a tudo e a todos, mas sim de um homem afetuoso, amante da sagrada liturgia e da realidade viva da Igreja no Brasil. 
       Sendo assim, a chave de leitura abordada é toda nova para explicar o pentecostalismo no mundo, em particular, no solo brasileiro. A sua análise não é baseada sobre a pastoral, a dogmática ou a doutrina, mas sobre a ritualidade litúrgica, fonte e cume da vida da Igreja (SC 10). Então, analisando que o pentecostalismo, através da sua inerente ritualidade, é capaz de mediar o Sacro aos seus adeptos mais fervorosos, devemos encontrar nele a inteligência de que é pela liturgia, enquanto ação teândrica, que podemos repartir para oferecer uma compreensão adequada do mistério da fé celebrada. Portanto, a pesquisa litúrgica do frei João Benedito há de permanecer viva ao ser continuada por novos estudiosos. 

 Frei Luis Felipe C. Marques, OFMConv. 
Com gratidão! 

 
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