SALMO 68 – O SALMO DE PENTECOSTES
Frei Wanderson Luiz Freitas, O. Carm.
O Graduale Romanum, referência permanente para o canto da celebração eucarística, indica como acompanhamento das antífonas processionais (entrada, ofertório e comunhão) da missa do “grande dia do sagrado Pentecostes” o Salmo 67(68). A antífona de ofertório é, inclusive, composta dos vv. 29-30 do referido salmo. Lido à primeira vista e superficialmente o texto bíblico, não salta aos olhos as conexões entre ele a celebração de Pentecostes; pelo contrário, há inclusive uma aparente discrepância entre a letra do salmo e o espírito dessa celebração. Acham-se nesse salmo cenas de combate, palavras de ordem, gritos de triunfo, tudo isso misturado a um cortejo litúrgico. É justo que nos perguntemos: de que maneira um poema épico tornou-se o cantus firmus da celebração do evento salvífico da efusão do “Consolator optime”?
Antes de mais, uma leitura do salmo. Seguimos a versão da Liturgia das Horas, na sua tradução brasileira (vol. 2, p. 1227):
2 Eis que Deus se põe de pé, e os inimigos se dispersam!
Fogem longe de sua face os que odeiam o Senhor!
3 Como a fumaça se dissipa, assim também os dissipais,
como a cera se derrete, ao contato com o fogo,
assim pereçam os iníquos ante a face do Senhor!
4 Mas os justos se alegram na presença do Senhor
rejubilam satisfeitos e exultam de alegria!
5 Cantai a Deus, a Deus louvai, cantai um salmo a seu nome!
Abri caminho para Aquele que avança no deserto;
o seu nome é Senhor: exultai diante dele!
6 Dos órfãos ele é pai, e das viúvas protetor;
é assim o nosso Deus em sua santa habitação.
7 É o Senhor quem dá abrigo, dá um lar aos deserdados,
quem liberta os prisioneiros e os sacia com fartura,
mas abandona os rebeldes num deserto sempre estéril!
8 Quando saístes com o povo, caminhando à sua frente
e atravessando o deserto, a terra toda estremeceu;
9 orvalhou o próprio céu ante a face do Senhor,
e o Sinai também tremeu perante o Deus de Israel.
10 Derramastes lá do alto uma chuva generosa,
e vossa terra, vossa herança, já cansada, renovastes;
11 e ali vosso rebanho encontrou sua morada;
com carinho preparastes essa terra para o pobre.
12 O Senhor anunciou a boa-nova a seus eleitos,
e uma grande multidão de nossas jovens a proclama:
13 “Muitos reis e seus exércitos fogem um após o outro,
e a mais bela das mulheres distribui os seus despojos.
14 Enquanto descansais entre a cerca dos apriscos,
as asas de uma pomba como prata resplandecem,
e suas penas têm o brilho de um ouro esverdeado.
15 O Senhor onipotente dispersou os poderosos,
dissipou-os como a neve que se espalha no Salmon!”
16 Montanhas de Basã tão escarpadas e altaneiras,
ó montes elevados desta serra de Basã,
17 por que tendes tanta inveja, ó montanhas sobranceiras,
deste Monte que o Senhor escolheu para morar?
Sim, é nele que o Senhor habitará eternamente!
18 Os carros do Senhor contam milhares de milhares;
do Sinai veio o Senhor, para morar no santuário.
19 Vós subistes para o alto e levastes os cativos,
os homens prisioneiros recebestes de presente,
até mesmo os que não querem vão morar em vossa casa.
20 Bendito seja Deus, bendito seja cada dia,
o Deus da nossa salvação, que carrega os nossos fardos!
21 Nosso Deus é um Deus que salva, é um Deus libertador;
o Senhor, só o Senhor, nos poderá livrar da morte!
22 Ele esmaga a cabeça dos que são seus inimigos,
e os crânios contumazes dos que vivem no pecado.
23 Diz o Senhor: “Eu vou trazê-los prisioneiros de Basã,
até do fundo dos abismos vou trazê-los prisioneiros!
24 No sangue do inimigo o teu pé vai mergulhar,
e a língua de teus cães terá também a sua parte”.
25 Contemplamos, ó Senhor, vosso cortejo que desfila,
é a entrada do meu Deus, do meu Rei, no santuário;
26 os cantores vão à frente, vão atrás os tocadores,
e no meio vão as jovens a tocar seus tamborins.
27 “Bendizei o nosso Deus, em festivas assembleias!
Bendizei nosso Senhor, descendentes de Israel!”
28 Eis o jovem Benjamim que vai à frente deles todos;
eis os chefes de Judá com as suas comitivas,
os principais de Zabulon e os principais de Neftali.
29 Suscitai, ó Senhor Deus, suscitai vosso poder,
confirmai este poder que por nós manifestastes,
30 a partir de vosso templo, que está em Jerusalém,
para vós venham os reis e vos ofertem seus presentes!
31 Ameaçai, ó nosso Deus, a fera brava dos caniços,
a manada de novilhos e os touros das nações!
Que vos rendam homenagem e vos tragam ouro e prata!
Dispersai todos os povos que na guerra se comprazem!
32 Venham príncipes do Egito, venham dele os poderosos,
e levante a Etiópia suas mãos para o Senhor!
33 Reinos da terra, celebrai o nosso Deus, cantai-lhe salmos!
34 Ele viaja no seu carro sobre os céus dos céus eternos.
Eis que eleva e faz ouvir a sua voz, voz poderosa.
35 Daí glória a Deus e exaltai o seu poder por sobre as nuvens.
Sobre Israel, eis sua glória e sua grande majestade!
36 Em seu templo ele é admirável e a seu povo dá poder.
Bendito seja o Senhor Deus, agora e sempre. Amém, amém!
Mais que a descrição de uma epopeia ou de uma série de combates, o Sl 68 é o cântico de uma liturgia de ação de graças por uma vitória já obtida, pertencendo ao subgênero hínico epinício (SCHÖKEL; CARNITI, 1996, p. 849). Aproxima-se – no gênero, no estilo, na temática – dos cânticos de Míriam (Ex 15) e de Débora (Jz 5). Não desconsideradas as dificuldades exegéticas deste que é considerado por alguns especialistas como “o mais obscuro e difícil de todos os salmos” (KSELMAN; BARRÉ, 2018, p. 1055). Pode-se perceber no texto a evolução das ideias em três etapas:
1. vv. 2-11: Prepara-se solene cortejo com a Arca da Aliança (a ligação direta do v. 2 com Nm 10,35 o subentende). Diante de IHWH, presente na Arca levada processionalmente, “os inimigos se dispersam(...), mas os justos se alegram na presença do Senhor”. O salmista rememora o período do deserto, no qual Deus se revelou como pai e protetor, libertador e autor de inúmeros prodígios, cujo cume foi a revelação no Sinai; a consequente chegada do povo à terra prometida é bênção semelhante a uma chuva renovadora.
2. vv. 12-24: o orante recorda ainda as lutas que ocorreram durante a ocupação de Canaã e, por fim, a eleição do monte Sião para morada do Altíssimo; ainda rememora as demais guerras nas quais o Senhor salvou seu povo.
3. vv. 25-36: finalmente, é retomada a solene liturgia na qual é transportada a Arca da Aliança; nela tomam parte as tribos de Israel, reclamando das nações pagãs que adorem a IHWH, dirigindo um convite a todos os reinos da terra para que reconheçam o poder do Deus de Israel.
Em suma: Deus se colocou em marcha à frente do seu povo, conduzindo-o pelo deserto até à terra prometida, cujo coração é Jerusalém e seu Templo. Os dois polos da manifestação divina, Sinai e Sião, formam aqui uma unidade, e o povo passa espiritualmente de um a outro como que numa procissão jubilosa. O desfile triunfal leva consigo os cativos dos povos e no Templo o Senhor recebe sua homenagem. É em Sião que se encerra a grande procissão e aí o povo contempla mais uma vez a manifestação do seu Deus.
O Sl 68 – leitura orante do Êxodo, da Aliança e da entrada na Terra Prometida – condensa, portanto, diversos fatos e processos cujo centro é a teofania no Sinai e, por conseguinte, a instituição da Aliança com a entrega da Lei. Essas duas últimas realidades são celebradas pela liturgia judaica na festa de shavu’ot (hebr. “semanas”), a festa das primícias, conhecida também pelo nome grego de Pentecostes. Celebrada sete semanas após a Páscoa, no quinquagésimo dia (daí, pentecostes) e inicialmente votada a render graças a Deus pelos primeiros frutos da terra, a ela acrescentou-se, depois, o caráter de memorial do dom da Torá e renovação anual da Aliança (cf. DI SANTE, 2010, p. 221). O Sl 68, cujo eixo central é o acontecimento do Sinai, logo foi reinterpretado em função desse evento e de sua celebração. Um Targum do Sl 68, datado primeiro século da era cristã (cf. MERINO, 2004, p. 97-110) dá testemunho dessa releitura do salmo a partir do Pentecostes judaico. Os versículos 9-10.19, por exemplo, dizem, na versão do referido Targum:
Quando deste a Torá a teu povo (...) os céus espalharam orvalho diante de Adonai; Quando a casa de Israel ouviu a voz do teu poder, sua alma estremeceu; mas logo fizestes descer sobre eles orvalhos vivificantes, espalhastes chuvas generosas, ó Deus, sobre a tua herança, e a assembleia que estava extenuada, tu a reconfortaste, e com tua vida a restabeleceste. (...) Tu subiste ao firmamento, ó profeta Moisés, e levaste cativo o cativeiro, e ensinaste as palavras da Torá e a deste como dom aos filhos dos homens.
O apóstolo Paulo cita o Sl 68,19 em Ef 4,8ss: “Tendo subido às alturas, levou cativo o cativeiro, concedeu dons aos homens”; mas não o faz segundo versão hebraica e muito menos a tradução da Septuaginta, e sim na releitura do Targum. “Em sua teologia de Pentecostes, São Paulo estabelece, portanto, uma relação entre o Matan Torah e o dom do Espírito Santo, a partir da tradição rabínica” (EPHRAÏM, 1998, p. 367). Paulo aplica o versículo a Cristo elevado ao céu, levando em seu cortejo as potências vencidas; Cristo constituído Senhor do universo, distribuindo os dons de seu Espírito à sua Igreja.
Ascensão e Pentecostes são, portanto, inseparáveis e essa ligação já estava profetizada no Sl 68. Seguindo Paulo, os Padres da Igreja ampliam a interpretação e aplicam o Sl 68 a diversos mistérios da vida de Cristo e da Igreja, desde o anúncio de João Batista até aos inícios da evangelização (cf. SCHÖKEL; CARNITI, 1998, p. 866-867). Esse procedimento hermenêutico (praticado, aliás, pelo próprio Cristo – cf. Lc 24,44-45) é que abre aos salmos – o Sl 68 incluso – as portas da liturgia cristã:
Toda tradição antiga do uso litúrgico dos salmos repousa sobre sua significação messiânica. De um lado, é esse sentido que dá todo o valor para a comunidade primitiva. Ela os adotou, já afirmamos, não por causa do seu valor religioso, nem por causa de sua característica inspirada, mas unicamente porque acreditou que eles diziam respeito a Jesus Cristo. Portanto, todo o seu emprego na Igreja repousa sobre seu sentido messiânico (DANIÉLOU, 2013, p. 323).
Por conseguinte, não seria mais de estranhar que o Sl 68 fosse relacionado ao Pentecostes cristão, plenitude e cumprimento do Pentecostes hebreu – o primeiro ocorrendo justamente numa celebração do segundo, conforme nos relatam os Atos dos Apóstolos – e achasse entrada na liturgia que celebra esse mistério. Nele renovam-se os prodígios do Sinai, nasce a Igreja, o novo Povo de Deus, que recebe os primeiros frutos do Espírito.
O envio do Espírito Santo é a promulgação da nova Lei. Ele é o dedo de Deus que a inscreve nos corações humanos; à Aliança estabelecida no Sinai, sobrepõe-se uma Nova Aliança, que se baseia na presença e na ação do Espírito de Cristo Ressuscitado em nós; não na mera adesão a um código de conduta exterior, mas numa disposição interior, de mente e coração, numa transformação desde dentro. Por isso Pentecostes pode-se considerar a festa da Nova Lei e da Nova Aliança promulgada no Espírito Santo. E o Sl 68 pode ser, com muita justeza e propriedade, o seu cântico maior.
É importante notar que o Graduale (GR) não utiliza o salmo integral e indiscriminadamente, mas o distribui por toda a celebração, selecionando alguns versículos que acompanham as antífonas processionais. Para alternar com a antífona de entrada, texto de Sb 1,7, não se indicam os versículos específicos, mas pode-se cantar o salmo na sequência, tantos versículos quantos sejam necessários, a partir do v. 2. Segue o texto do GR (1979, p. 252) com a tradução do Missal Romano da edição em uso na Igreja no Brasil:
Spiritus Domini
replevit orbem terrarum, aleluia:
et hoc quod cóntinet ómnia,
sciéntiam habet vocis,
alleluia, alleluia, alleluia.
Ps. Exsúrgat Deus, et dissipéntur inimíci eius : et fúgiant, qui odérunt eum, a faciem eius.
O Espírito do Senhor
encheu o universo;
ele mantém unidas todas as coisas
e conhece todas as línguas, aleluia!
Sl. Eis que Deus se põe de pé e os inimigos se dispersam; Fogem longe de sua face os que odeiam o Senhor.
Como informado inicialmente, para a antífona de ofertório foram escolhidos pela tradição os v. 29-30 do salmo. Em sequência, texto do GR (1979, p. 255), adaptado com certa liberdade pelo compositor da melodia gregoriana a partir da tradução da Vulgata; ao lado, tradução portuguesa a partir da segunda antífona da salmodia das II Vésperas de Pentecostes, da versão brasileira da Liturgia das Horas (vol. 2, pág. 937):
Confirma hoc Deus,
quod operátus es in nobis:
a templo tuo, quod est in Ierusalem
tibi offerent reges munera, alleluia.
Confirmai aqui, ó Deus,
o que em nós realizastes
a partir de vosso templo
que está em Jerusalém;
a vós os reis ofertam seus presentes, aleluia.
O GR não aponta versículos para serem alternados com a antífona. No entanto, o Offertoriale (1985, p. 79) o faz e para isso indica os v. 5.27.33.34. A antífona de comunhão é um texto de At 2,2.4, em estreita conexão com a liturgia da palavra. Aqui temos o texto do GR (1979, p. 256) traduzido tendo por base o responsório da 2ª leitura do Ofício de Leituras da solenidade de Pentecostes constante da Liturgia das Horas (vol. 2, p. 927):
Factus est repente de caelo sonus
advenientis spiritus vehementis,
ubi erant sedentes, alleluia:
et repleti sunt omnes Spiritu Sancto,
loquentes magnalia Dei, alleluia, alleluia.
Um ruído veio do céu de repente
como se fosse um vento impetuoso
onde eles estavam reunidos, aleluia;
e todos ficaram cheios do Espírito Santo
proclamando as maravilhas de Deus, aleluia, aleluia.
Para alternar com a antífona, o GR normalmente seleciona versículos que melhor dialogam com o texto antifonal. Para este caso, são propostos os seguintes versículos do Sl 68: 2.4.5abc.5d-6.8.9.20.21.29.36. No repertório litúrgico brasileiro, desde há muitos anos temos felizes versões desses textos, inclusive do Sl 68, recolhidas no Hinário Litúrgico da CNBB, podendo contar, igualmente, com composições mais recentes (cf. no canal do YouTube “Oficina da Música Litúrgica). Cantar os textos próprios é mergulhar profundamente no mistério celebrado, com a força da própria Palavra de Deus, e garantir a qualidade na vivência da celebração litúrgica, em conexão com a grande Tradição que conservou o uso desses textos.
REFERÊNCIAS
BÍBLIA. A Bíblia de Jerusalém. Nova edição revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.
DANIÉLOU, Jean. Bíblia e Liturgia: a teologia bíblica dos sacramentos e das festas nos Padres da Igreja. São Paulo: Paulinas, 2013.
DI SANTE, Carmine. Liturgia judaica: fontes, orações e festas. São Paulo: Paulus, 2010.
EPRAÏM. Jesus, judeu praticante. São Paulo: Paulinas, 1998.
GRADUALE TRIPLEX. Abbaye Saint-Pierre de Solesmes & Desclée. Paris-Tournai: 1979.
KSELMAN, John S.; BARRÉ, Michael L. Salmos. In: BROWN, R. E.; FITZMYER, J. A.; MURPHY, R. E. (orgs.) Novo comentário bíblico São Jerônimo: Antigo Testamento. São Paulo: Paulus, 2018.
LITURGIA DAS HORAS. Vol. 2: Tempo da Quaresma, Tríduo Pascal, Tempo da Páscoa. Tradução para o Brasil da 2ª edição típica. Petrópolis / São Paulo: Vozes, Paulinas, Paulus, Ave Maria, 2000.
MERINO, Luis Díez. Exégesis targúmica del Salmo 68. In: Miscelánea de estudios Árabes y Hebraicos, Sección Hebreo 53, p. 97-122, Granada, 2004.
MISSAL ROMANO. Tradução portuguesa da 2ª edição típica para o Brasil. São Paulo: Paulus, 1992.
OFFERTORIALE TRIPLEX. Abbaye Saint-Pierre de Solesmes & Desclée. Paris-Tournai: 1985.
SCHÖKEL, Luis Alonso; CARNITI, Cecilia. Salmos I (Salmos 1 – 72); tradução, introdução e comentário. São Paulo: Paulus, 1998. (Grande Comentário Bíblico)
* Religioso carmelita da Província Carmelitana Pernambucana. Bacharel em Teologia pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Compositor litúrgico. Assessor para a música litúrgica do Regional Nordeste 2 da CNBB.
SALMO 68 – O SALMO DE PENTECOSTES
Frei Wanderson Luiz Freitas, O. Carm.
O Graduale Romanum, referência permanente para o canto da celebração eucarística, indica como acompanhamento das antífonas processionais (entrada, ofertório e comunhão) da missa do “grande dia do sagrado Pentecostes” o Salmo 67(68). A antífona de ofertório é, inclusive, composta dos vv. 29-30 do referido salmo. Lido à primeira vista e superficialmente o texto bíblico, não salta aos olhos as conexões entre ele a celebração de Pentecostes; pelo contrário, há inclusive uma aparente discrepância entre a letra do salmo e o espírito dessa celebração. Acham-se nesse salmo cenas de combate, palavras de ordem, gritos de triunfo, tudo isso misturado a um cortejo litúrgico. É justo que nos perguntemos: de que maneira um poema épico tornou-se o cantus firmus da celebração do evento salvífico da efusão do “Consolator optime”?
Antes de mais, uma leitura do salmo. Seguimos a versão da Liturgia das Horas, na sua tradução brasileira (vol. 2, p. 1227):
2 Eis que Deus se põe de pé, e os inimigos se dispersam!
Fogem longe de sua face os que odeiam o Senhor!
3 Como a fumaça se dissipa, assim também os dissipais,
como a cera se derrete, ao contato com o fogo,
assim pereçam os iníquos ante a face do Senhor!
4 Mas os justos se alegram na presença do Senhor
rejubilam satisfeitos e exultam de alegria!
5 Cantai a Deus, a Deus louvai, cantai um salmo a seu nome!
Abri caminho para Aquele que avança no deserto;
o seu nome é Senhor: exultai diante dele!
6 Dos órfãos ele é pai, e das viúvas protetor;
é assim o nosso Deus em sua santa habitação.
7 É o Senhor quem dá abrigo, dá um lar aos deserdados,
quem liberta os prisioneiros e os sacia com fartura,
mas abandona os rebeldes num deserto sempre estéril!
8 Quando saístes com o povo, caminhando à sua frente
e atravessando o deserto, a terra toda estremeceu;
9 orvalhou o próprio céu ante a face do Senhor,
e o Sinai também tremeu perante o Deus de Israel.
10 Derramastes lá do alto uma chuva generosa,
e vossa terra, vossa herança, já cansada, renovastes;
11 e ali vosso rebanho encontrou sua morada;
com carinho preparastes essa terra para o pobre.
12 O Senhor anunciou a boa-nova a seus eleitos,
e uma grande multidão de nossas jovens a proclama:
13 “Muitos reis e seus exércitos fogem um após o outro,
e a mais bela das mulheres distribui os seus despojos.
14 Enquanto descansais entre a cerca dos apriscos,
as asas de uma pomba como prata resplandecem,
e suas penas têm o brilho de um ouro esverdeado.
15 O Senhor onipotente dispersou os poderosos,
dissipou-os como a neve que se espalha no Salmon!”
16 Montanhas de Basã tão escarpadas e altaneiras,
ó montes elevados desta serra de Basã,
17 por que tendes tanta inveja, ó montanhas sobranceiras,
deste Monte que o Senhor escolheu para morar?
Sim, é nele que o Senhor habitará eternamente!
18 Os carros do Senhor contam milhares de milhares;
do Sinai veio o Senhor, para morar no santuário.
19 Vós subistes para o alto e levastes os cativos,
os homens prisioneiros recebestes de presente,
até mesmo os que não querem vão morar em vossa casa.
20 Bendito seja Deus, bendito seja cada dia,
o Deus da nossa salvação, que carrega os nossos fardos!
21 Nosso Deus é um Deus que salva, é um Deus libertador;
o Senhor, só o Senhor, nos poderá livrar da morte!
22 Ele esmaga a cabeça dos que são seus inimigos,
e os crânios contumazes dos que vivem no pecado.
23 Diz o Senhor: “Eu vou trazê-los prisioneiros de Basã,
até do fundo dos abismos vou trazê-los prisioneiros!
24 No sangue do inimigo o teu pé vai mergulhar,
e a língua de teus cães terá também a sua parte”.
25 Contemplamos, ó Senhor, vosso cortejo que desfila,
é a entrada do meu Deus, do meu Rei, no santuário;
26 os cantores vão à frente, vão atrás os tocadores,
e no meio vão as jovens a tocar seus tamborins.
27 “Bendizei o nosso Deus, em festivas assembleias!
Bendizei nosso Senhor, descendentes de Israel!”
28 Eis o jovem Benjamim que vai à frente deles todos;
eis os chefes de Judá com as suas comitivas,
os principais de Zabulon e os principais de Neftali.
29 Suscitai, ó Senhor Deus, suscitai vosso poder,
confirmai este poder que por nós manifestastes,
30 a partir de vosso templo, que está em Jerusalém,
para vós venham os reis e vos ofertem seus presentes!
31 Ameaçai, ó nosso Deus, a fera brava dos caniços,
a manada de novilhos e os touros das nações!
Que vos rendam homenagem e vos tragam ouro e prata!
Dispersai todos os povos que na guerra se comprazem!
32 Venham príncipes do Egito, venham dele os poderosos,
e levante a Etiópia suas mãos para o Senhor!
33 Reinos da terra, celebrai o nosso Deus, cantai-lhe salmos!
34 Ele viaja no seu carro sobre os céus dos céus eternos.
Eis que eleva e faz ouvir a sua voz, voz poderosa.
35 Daí glória a Deus e exaltai o seu poder por sobre as nuvens.
Sobre Israel, eis sua glória e sua grande majestade!
36 Em seu templo ele é admirável e a seu povo dá poder.
Bendito seja o Senhor Deus, agora e sempre. Amém, amém!
Mais que a descrição de uma epopeia ou de uma série de combates, o Sl 68 é o cântico de uma liturgia de ação de graças por uma vitória já obtida, pertencendo ao subgênero hínico epinício (SCHÖKEL; CARNITI, 1996, p. 849). Aproxima-se – no gênero, no estilo, na temática – dos cânticos de Míriam (Ex 15) e de Débora (Jz 5). Não desconsideradas as dificuldades exegéticas deste que é considerado por alguns especialistas como “o mais obscuro e difícil de todos os salmos” (KSELMAN; BARRÉ, 2018, p. 1055). Pode-se perceber no texto a evolução das ideias em três etapas:
1. vv. 2-11: Prepara-se solene cortejo com a Arca da Aliança (a ligação direta do v. 2 com Nm 10,35 o subentende). Diante de IHWH, presente na Arca levada processionalmente, “os inimigos se dispersam(...), mas os justos se alegram na presença do Senhor”. O salmista rememora o período do deserto, no qual Deus se revelou como pai e protetor, libertador e autor de inúmeros prodígios, cujo cume foi a revelação no Sinai; a consequente chegada do povo à terra prometida é bênção semelhante a uma chuva renovadora.
2. vv. 12-24: o orante recorda ainda as lutas que ocorreram durante a ocupação de Canaã e, por fim, a eleição do monte Sião para morada do Altíssimo; ainda rememora as demais guerras nas quais o Senhor salvou seu povo.
3. vv. 25-36: finalmente, é retomada a solene liturgia na qual é transportada a Arca da Aliança; nela tomam parte as tribos de Israel, reclamando das nações pagãs que adorem a IHWH, dirigindo um convite a todos os reinos da terra para que reconheçam o poder do Deus de Israel.
Em suma: Deus se colocou em marcha à frente do seu povo, conduzindo-o pelo deserto até à terra prometida, cujo coração é Jerusalém e seu Templo. Os dois polos da manifestação divina, Sinai e Sião, formam aqui uma unidade, e o povo passa espiritualmente de um a outro como que numa procissão jubilosa. O desfile triunfal leva consigo os cativos dos povos e no Templo o Senhor recebe sua homenagem. É em Sião que se encerra a grande procissão e aí o povo contempla mais uma vez a manifestação do seu Deus.
O Sl 68 – leitura orante do Êxodo, da Aliança e da entrada na Terra Prometida – condensa, portanto, diversos fatos e processos cujo centro é a teofania no Sinai e, por conseguinte, a instituição da Aliança com a entrega da Lei. Essas duas últimas realidades são celebradas pela liturgia judaica na festa de shavu’ot (hebr. “semanas”), a festa das primícias, conhecida também pelo nome grego de Pentecostes. Celebrada sete semanas após a Páscoa, no quinquagésimo dia (daí, pentecostes) e inicialmente votada a render graças a Deus pelos primeiros frutos da terra, a ela acrescentou-se, depois, o caráter de memorial do dom da Torá e renovação anual da Aliança (cf. DI SANTE, 2010, p. 221). O Sl 68, cujo eixo central é o acontecimento do Sinai, logo foi reinterpretado em função desse evento e de sua celebração. Um Targum do Sl 68, datado primeiro século da era cristã (cf. MERINO, 2004, p. 97-110) dá testemunho dessa releitura do salmo a partir do Pentecostes judaico. Os versículos 9-10.19, por exemplo, dizem, na versão do referido Targum:
Quando deste a Torá a teu povo (...) os céus espalharam orvalho diante de Adonai; Quando a casa de Israel ouviu a voz do teu poder, sua alma estremeceu; mas logo fizestes descer sobre eles orvalhos vivificantes, espalhastes chuvas generosas, ó Deus, sobre a tua herança, e a assembleia que estava extenuada, tu a reconfortaste, e com tua vida a restabeleceste. (...) Tu subiste ao firmamento, ó profeta Moisés, e levaste cativo o cativeiro, e ensinaste as palavras da Torá e a deste como dom aos filhos dos homens.
O apóstolo Paulo cita o Sl 68,19 em Ef 4,8ss: “Tendo subido às alturas, levou cativo o cativeiro, concedeu dons aos homens”; mas não o faz segundo versão hebraica e muito menos a tradução da Septuaginta, e sim na releitura do Targum. “Em sua teologia de Pentecostes, São Paulo estabelece, portanto, uma relação entre o Matan Torah e o dom do Espírito Santo, a partir da tradição rabínica” (EPHRAÏM, 1998, p. 367). Paulo aplica o versículo a Cristo elevado ao céu, levando em seu cortejo as potências vencidas; Cristo constituído Senhor do universo, distribuindo os dons de seu Espírito à sua Igreja.
Ascensão e Pentecostes são, portanto, inseparáveis e essa ligação já estava profetizada no Sl 68. Seguindo Paulo, os Padres da Igreja ampliam a interpretação e aplicam o Sl 68 a diversos mistérios da vida de Cristo e da Igreja, desde o anúncio de João Batista até aos inícios da evangelização (cf. SCHÖKEL; CARNITI, 1998, p. 866-867). Esse procedimento hermenêutico (praticado, aliás, pelo próprio Cristo – cf. Lc 24,44-45) é que abre aos salmos – o Sl 68 incluso – as portas da liturgia cristã:
Toda tradição antiga do uso litúrgico dos salmos repousa sobre sua significação messiânica. De um lado, é esse sentido que dá todo o valor para a comunidade primitiva. Ela os adotou, já afirmamos, não por causa do seu valor religioso, nem por causa de sua característica inspirada, mas unicamente porque acreditou que eles diziam respeito a Jesus Cristo. Portanto, todo o seu emprego na Igreja repousa sobre seu sentido messiânico (DANIÉLOU, 2013, p. 323).
Por conseguinte, não seria mais de estranhar que o Sl 68 fosse relacionado ao Pentecostes cristão, plenitude e cumprimento do Pentecostes hebreu – o primeiro ocorrendo justamente numa celebração do segundo, conforme nos relatam os Atos dos Apóstolos – e achasse entrada na liturgia que celebra esse mistério. Nele renovam-se os prodígios do Sinai, nasce a Igreja, o novo Povo de Deus, que recebe os primeiros frutos do Espírito.
O envio do Espírito Santo é a promulgação da nova Lei. Ele é o dedo de Deus que a inscreve nos corações humanos; à Aliança estabelecida no Sinai, sobrepõe-se uma Nova Aliança, que se baseia na presença e na ação do Espírito de Cristo Ressuscitado em nós; não na mera adesão a um código de conduta exterior, mas numa disposição interior, de mente e coração, numa transformação desde dentro. Por isso Pentecostes pode-se considerar a festa da Nova Lei e da Nova Aliança promulgada no Espírito Santo. E o Sl 68 pode ser, com muita justeza e propriedade, o seu cântico maior.
É importante notar que o Graduale (GR) não utiliza o salmo integral e indiscriminadamente, mas o distribui por toda a celebração, selecionando alguns versículos que acompanham as antífonas processionais. Para alternar com a antífona de entrada, texto de Sb 1,7, não se indicam os versículos específicos, mas pode-se cantar o salmo na sequência, tantos versículos quantos sejam necessários, a partir do v. 2. Segue o texto do GR (1979, p. 252) com a tradução do Missal Romano da edição em uso na Igreja no Brasil:
Spiritus Domini
replevit orbem terrarum, aleluia:
et hoc quod cóntinet ómnia,
sciéntiam habet vocis,
alleluia, alleluia, alleluia.
Ps. Exsúrgat Deus, et dissipéntur inimíci eius : et fúgiant, qui odérunt eum, a faciem eius.
O Espírito do Senhor
encheu o universo;
ele mantém unidas todas as coisas
e conhece todas as línguas, aleluia!
Sl. Eis que Deus se põe de pé e os inimigos se dispersam; Fogem longe de sua face os que odeiam o Senhor.
Como informado inicialmente, para a antífona de ofertório foram escolhidos pela tradição os v. 29-30 do salmo. Em sequência, texto do GR (1979, p. 255), adaptado com certa liberdade pelo compositor da melodia gregoriana a partir da tradução da Vulgata; ao lado, tradução portuguesa a partir da segunda antífona da salmodia das II Vésperas de Pentecostes, da versão brasileira da Liturgia das Horas (vol. 2, pág. 937):
Confirma hoc Deus,
quod operátus es in nobis:
a templo tuo, quod est in Ierusalem
tibi offerent reges munera, alleluia.
Confirmai aqui, ó Deus,
o que em nós realizastes
a partir de vosso templo
que está em Jerusalém;
a vós os reis ofertam seus presentes, aleluia.
O GR não aponta versículos para serem alternados com a antífona. No entanto, o Offertoriale (1985, p. 79) o faz e para isso indica os v. 5.27.33.34. A antífona de comunhão é um texto de At 2,2.4, em estreita conexão com a liturgia da palavra. Aqui temos o texto do GR (1979, p. 256) traduzido tendo por base o responsório da 2ª leitura do Ofício de Leituras da solenidade de Pentecostes constante da Liturgia das Horas (vol. 2, p. 927):
Factus est repente de caelo sonus
advenientis spiritus vehementis,
ubi erant sedentes, alleluia:
et repleti sunt omnes Spiritu Sancto,
loquentes magnalia Dei, alleluia, alleluia.
Um ruído veio do céu de repente
como se fosse um vento impetuoso
onde eles estavam reunidos, aleluia;
e todos ficaram cheios do Espírito Santo
proclamando as maravilhas de Deus, aleluia, aleluia.
Para alternar com a antífona, o GR normalmente seleciona versículos que melhor dialogam com o texto antifonal. Para este caso, são propostos os seguintes versículos do Sl 68: 2.4.5abc.5d-6.8.9.20.21.29.36. No repertório litúrgico brasileiro, desde há muitos anos temos felizes versões desses textos, inclusive do Sl 68, recolhidas no Hinário Litúrgico da CNBB, podendo contar, igualmente, com composições mais recentes (cf. no canal do YouTube “Oficina da Música Litúrgica). Cantar os textos próprios é mergulhar profundamente no mistério celebrado, com a força da própria Palavra de Deus, e garantir a qualidade na vivência da celebração litúrgica, em conexão com a grande Tradição que conservou o uso desses textos.
REFERÊNCIAS
BÍBLIA. A Bíblia de Jerusalém. Nova edição revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.
DANIÉLOU, Jean. Bíblia e Liturgia: a teologia bíblica dos sacramentos e das festas nos Padres da Igreja. São Paulo: Paulinas, 2013.
DI SANTE, Carmine. Liturgia judaica: fontes, orações e festas. São Paulo: Paulus, 2010.
EPRAÏM. Jesus, judeu praticante. São Paulo: Paulinas, 1998.
GRADUALE TRIPLEX. Abbaye Saint-Pierre de Solesmes & Desclée. Paris-Tournai: 1979.
KSELMAN, John S.; BARRÉ, Michael L. Salmos. In: BROWN, R. E.; FITZMYER, J. A.; MURPHY, R. E. (orgs.) Novo comentário bíblico São Jerônimo: Antigo Testamento. São Paulo: Paulus, 2018.
LITURGIA DAS HORAS. Vol. 2: Tempo da Quaresma, Tríduo Pascal, Tempo da Páscoa. Tradução para o Brasil da 2ª edição típica. Petrópolis / São Paulo: Vozes, Paulinas, Paulus, Ave Maria, 2000.
MERINO, Luis Díez. Exégesis targúmica del Salmo 68. In: Miscelánea de estudios Árabes y Hebraicos, Sección Hebreo 53, p. 97-122, Granada, 2004.
MISSAL ROMANO. Tradução portuguesa da 2ª edição típica para o Brasil. São Paulo: Paulus, 1992.
OFFERTORIALE TRIPLEX. Abbaye Saint-Pierre de Solesmes & Desclée. Paris-Tournai: 1985.
SCHÖKEL, Luis Alonso; CARNITI, Cecilia. Salmos I (Salmos 1 – 72); tradução, introdução e comentário. São Paulo: Paulus, 1998. (Grande Comentário Bíblico)
* Religioso carmelita da Província Carmelitana Pernambucana. Bacharel em Teologia pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Compositor litúrgico. Assessor para a música litúrgica do Regional Nordeste 2 da CNBB.