Senhor, escutai nossa prece!
Dom Jerônimo Pereira,osb
A oração de súplica e intercessão que a assembleia dirige a Deus, o Pai, durante as mais variadas formas de celebrações litúrgicas e de exercício de piedade popular, com o objetivo de interceder pelas necessidades da Igreja e de todo o mundo, chama-se Oração universal ou Oração dos féis. Concluindo a liturgia da Palavra, especialmente na celebração eucarística (cf. Instrução Geral do Missal Romano [IGMR], 55; Introdução ao Lecionário [ILM], 11), “a assembleia dos fiéis”, no pleno exercício do seu sacerdócio batismal, [por isso dela não participam os catecúmenos (cf. RICA, 36)], em comunhão com todos os santos, “iluminada pela Palavra de Deus, à qual de certo modo responde, pede normalmente pelas necessidades da Igreja universal e da comunidade local, pela salvação do mundo, pelos que se encontram em qualquer necessidade e por grupos determinados de pessoas” (ILM 30; cf. IGMR, 69).
Um pouco de história
a) das origens ao Concílio Vaticano II
A oração de intercessão é uma constante nas Sagradas Escrituras[1]. Podemos contemplá-la desde a imagem de Abraão que intercede por Ló (cf. Gn 18,1-5.16-33) até a da Bem Aventurada Virgem Maria nas bodas de Caná (Jo 2,1-12), a do centurião pelo seu servo (Mt 8,5-13) etc. Essas imagens “pré-pascais” foram incentivadas pelo próprio Senhor quando ensinou a sua Igreja a dirigir-se ao Pai, sempre em seu nome (Jo 16,15-33); e ainda mais quando o fez, rogando pelos seus e por todos os iriam crer no seu nome, na sua grande oração sacerdotal (Jo 17,20-26):
Eu não rogo somente por estes, mas também por aqueles que, pela sua palavra, hão de crer em mim; para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu, em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um. Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade, e para que o mundo conheça que tu me enviaste a mim e que tens amado a eles como me tens amado a mim. Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me hás amado antes da criação do mundo. Pai justo, o mundo não te conheceu; mas eu te conheci, e estes conheceram que tu me enviaste a mim. E eu lhes fiz conhecer o teu nome e lho farei conhecer mais, para que o amor com que me tens amado esteja neles, e eu neles esteja.
A Igreja seguindo o conselho de Cristo alargou a sua visão intercessora levando a prece a tocar a todas as realidades constitutivas da vida intra e extre eclesial, segundo o ditame do Apóstolo (1Tm 2,1-8), dando assim a estrutura sintática e sintética do que viria a ser a Oração universal, além de apontar o seu fundamento e finalidade:
Acima de tudo, recomendo que se façam preces, orações, súplicas, ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade, para que possamos viver uma vida calma e tranquila, com toda a piedade e honestidade. Isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. Porque há um só Deus e há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem que se entregou como resgate por todos. Tal é o fato, atestado em seu tempo; [...] Quero, pois, que os homens orem em todo lugar, levantando as mãos puras, superando todo ódio e ressentimento.
O mais antigo testemunho da Oração universal nos é dado por S. Justino, mártir († 165), indicando o seu “espaço ritual” e a sua forma e conteúdo:[2]
No dia chamado “do Sol”, reúnem-se num mesmo lugar os habitantes, quer das cidades, quer dos campos. Leem-se, na medida em que o tempo o permite, ora os comentários dos Apóstolos, ora os escritos dos Profetas. Depois, quando o leitor termina, o que preside toma a palavra para aconselhar e exortar à imitação de tão sublimes ensinamentos. A seguir, pomo-nos todos de pé e elevamos nossas preces por nós mesmos (...) e por todos os outros, onde quer que estejam, a fim de sermos de fato justos por nossa vida e por nossas ações, e fiéis aos mandamentos, para assim obtermos a salvação eterna. Quando as orações terminaram, saudamo-nos uns aos outros com um ósculo. Em seguida, leva-se àquele que preside aos irmãos pão e um cálice de água e de vinho misturados.
A Oração universal também é testemunhada pela Tradição Apostólica (c. 215-217), Egéria e as Constituições Apostólicas (século IV). No período dos escritores patrísticos, o Ambrosiastro (século IV), Tertuliano († depois de 220), Cipriano de Cartago († 258), o Papa Siríaco (†399), Santo Agostinho (†430) e Prospero de Aquitânia († entre 463-465) apresentam a estrutura da celebração, a lista das intenções (conteúdo) e a articulação ministerial. Testemunham ainda o Papa Félix II (†365), o Concílio de Vaison (529), São Bento (†560) e São Gregório Magno (†604)[3]. Os livros litúrgicos da alta Idade Média (Sacramentários e Ordines) a ignoram completamente; da mesma forma os missais plenários e o Ordo Missae da Cúria do século XIII, que depois desembocará no Missal Romano, na sua edição princeps de 1570. Será missão do Concilio Vaticano II reportar à luz no seu pleno esplendor essa perola da liturgia romana que tinha se perdido.
b) o processo de restauração[4]
Na fase antepreparatória do Concílio (1959-1960) o tema da Oração universal apareceu tanto nos desiderata do episcopado universal, quanto nos vota da Cúria romana, do mundo acadêmico e dos ambientes romanos, ocupando espaço também nas Sessões Plenárias da fase preparatória (1960-1962). O tema foi discutido durante o Concílio nas Congregações Gerais de 30 (X) e 31 (XI e XII) de outubro e 6 de novembro de 1962 (XIII); e de 8 de outubro (XLIII) e 20 de novembro (LXXI) de 1963, dentro do percurso redacional do artigo 53 de Sacrosanctum Concilium:
Restaure-se, especialmente nos domingos e festas de preceito, a “oração comum” ou “oração dos fiéis”, recitada após o Evangelho e a homilia, para que, com a participação do povo, se façam preces de súplica pela santa Igreja, pelos governantes, pelos oprimidos por qualquer necessidade, por todos os homens e pela salvação do mundo inteiro.
Seguindo os princípios fundamentais da reforma indicados pela Sacrosanctum Concilium, o Coetus XII, levou a termo a restauração da Oração dos fiéis. No primeiro semestre de 1964, foi realizada um cuidadoso estudo sobre a natureza, a finalidade e o lugar da oração dos fiéis na Missa e sobre os critérios gerais para a sua recuperação. No dia 13 de janeiro de 1965 publicou-se o primeiro texto, que foi posteriormente corrigido e enriquecido. O Papa deu a sua aprovação à iniciativa em 1 de fevereiro de 1966, de tal modo que, no dia 17 de abril de 1966, se deu a sua publicação definitiva. Os modelos foram colocados no Apêndice do Missal Romano (cf. MR, p. 1232-1244).
Recordada pelo Papa Paulo VI na Constituição Apostólica Missale Romanum (03.04.1969) – Quanto ao Ordinário da Missa [...] foram restaurados, segundo a primitiva norma dos Santos Padres, alguns ritos que tinham caído em desuso,tais como a homilia, a oração universal... (8) – os 11 modelos presentes no MR, destinados a serem a forma canônica para a formulação pastoral, são: Formulários Gerais (2), para o Tempo do Advento (1), para o Tempo do Natal (1), para o Tempo da Quaresma (2), para os dias de semana da Semana Santa (1), para o Tempo Pascal (1), para o Tempo Comum (2) e para os fiéis defuntos (1).
Forma ritual
A Oração universal constitui um rito, uma sequência ritual composta de quatro elementos: Introdução presidencial ou admoestação inicial; Propostas das intenções; Oração dos fiéis, propriamente dita e Conclusão presidencial ou Oração conclusiva.
1. Introdução presidencial
É função presidencial convidar os fiéis à oração de intercessão (cf. IGMR, 264). De grande importância pastoral, essa introdução deve ser breve e dirigida sempre ao povo e não a Deus. Essa introdução/convite deve necessariamente levar em consideração o tempo litúrgico e o mistério celebrado, inclusive na vida dos santos. “O presidente, dirigindo a oração universal e, se for possível, relacionando as leituras daquela celebração e a homilia com a oração, por meio da admoestação inicial e da oração conclusiva, conduz os fiéis à liturgia eucarística” (ILM, 43; cf. IGMR, 55.71). Alguns exemplos se encontram no Apêndice do Missal (p. 1232-1244).
2. Propostas das intenções
A característica principal das propostas das intenções é o fato delas não constituírem a oração, mas, como o próprio nome indica, limitarem-se a propor as intenções; portanto, são dirigidas à assembleia e não a Deus. Devem ser “sóbrias, compostas com sábia liberdade e breves palavras” e expressarem a oração de toda a comunidade (IGMR, 71; ILM 30).
As intenções devem compreender os seguintes temas, seguindo a seguinte ordem (cf. IGMR, 70; ILM, 30):
a) pelas necessidades da Igreja universal e local (papa, bispos, presbíteros, diáconos, religiosos, ministros, atividades missionárias da Igreja, necessidades dos irmãos da Igreja local etc.)
b) pelos poderes (e assuntos) públicos e pela salvação de todo o mundo: pelos governantes, eleições, pela paz, problemas sociais, econômicos, ecológicos etc).
c) pelos que sofrem qualquer dificuldade (os perseguidos, os pobres, órfãos, viúvas, desempregados, encarcerados, enfermos etc.)
d) pela comunidade local e determinados grupos de pessoas (catecúmenos, catequistas, crismandos, os que se preparam para o matrimônio etc.).
Na celebração dos sacramentos da Confirmação e do Matrimônio, como também na celebração das exéquias (cf. IGMR, 385), as intenções “podem referir-se mais estreitamente a tais circunstâncias” (IGMR, 70).
Estrutura
As propostas são formuladas do seguinte modo:
a) “(Oremos) Para que...”, quando se anuncia sem uma referência direta a pessoas concretas:
Para que dirija, a serviço do bem comum,
os corações daqueles que nos governam,
invoquemos o Senhor
(No tempo do Advento, MR, p. 1235).
b) “(Oremos) Por... ou Pelo(s)...”, quando refere-se exclusivamente àqueles por quem se pede:
Por nossos irmãos e irmãs
que não puderam comparecer a esta santa assembleia,
invoquemos aquele que conhece os corações de todos
(Fórmula Geral II, MR, p. 1233).
Pelos governantes e seus auxiliares,
que cuidam do bem comum,
rezemos ao Senhor
(No Tempo Comum I, MR, p. 1241).
c) “(Oremos) Por.... ou Pelo(s).... para que....”, quando se mencionam primeiro as pessoas ou instituições e depois o objeto ou a intenção do pedido:
Pelos idosos que sofrem na solidão ou na doença,
para que sejam reconfortados por nossa caridade fraterna,
roguemos ao Senhor.
(No Tempo Comum II, MR, p. 1242).
Por todo o povo cristão,
para que neste tempo sagrado
se alimente com maior abundância
de toda palavra que sai da boca de Deus,
rezemos ao Senhor
(No Tempo da Quaresma I, MR, p. 1237).
Para promover a participação ativa e consciente dos fiéis (cf. IGMR, 36), é de fundamental importância que as intenções de um mesmo formulário mantenham uniforme a estrutura, não transformando-as em mini homilias, evitando de se procurar inculcar ideologias ou doutrinas. As frases precisam ser, estilisticamente, claras, concisas e sem muitas subordinadas, de tal modo que se tornem compreensível ao serem escutadas.
3) Resposta do povo ou Oração dos fiéis propriamente dita
A IGMR (n. 71) aponta três modalidades de “súplicas”: invocação comum, oração ou silêncio.
a) A “invocação comum” corresponde a uma breve aclamação, cantada ou recitada, sempre idêntica. Essa é a forma mais fácil, a mais comum e a mais aconselhada. Propostas de melodias são oferecidas no Apêndice do Missal (p. 1212)[5]. Exclua-se completamente a possibilidade de ser cantada unicamente pelo coro ou pelos cantores. Os modelos apresentados pelo MR são: “Senhor, atendei-nos”; “Senhor, tende piedade de nós” (o Kyrie eléison é a fórmula mais original) e “Senhor, escutai a nossa prece”.
b) A recitação de uma fórmula deprecativa mais bem articulada (oração), requer uma variedade na formulação e a possibilidade de que toda a comunidade tenha o texto em mãos. Funciona melhor com um pequeno grupo.
c) Uma breve pausa de silêncio em forma de oração silenciosa, confere uma força de austera solenidade à súplica.
d) A combinação dessas fórmulas pode resultar em grande solenidade: depois da breve pausa de silêncio, quem propôs a intenção, convida a oração e o povo responde com a invocação comum, melhor ainda se for cantada.
4. Conclusão presidencial ou Oração conclusiva
Trata-se de uma breve intervenção onde se pede a Deus que escute, benignamente, o quanto foi expresso. Não se deve usar a Oração Coleta para esse fim. Se improvisada deve-se observar a estrutura básica da oração romana: invocação, anamnese, epiclese e conclusão doxológica, na qual se evidencia a mediação crística. Apresentamos aqui dois modelos dos propostos pelo Missal:
Deus, nosso refúgio e força, (Fórmula geral I, MR, p. 1232). | Atendei, ó Deus, às súplicas de vosso povo, (Nos dias de semana da Semana Santa, MR, p. 1239) |
O Destinatário
A regra geral da tradição antiga é que a oração litúrgica seja dirigida ao Pai, através de Jesus Cristo, na comunhão do Espírito Santo. Essa regra era tão forte na antiguidade que o Concílio de Hipona de 393, ao qual Santo Agostinho participou como presbítero, apesar do perigo do arianismo, formulou-a de modo universal e absoluta da seguinte maneira: “Cum altari assistitur, sempre ad Patrem dirigatur oratio” (Quando se estar diante do altar, a oração deve ser sempre dirigida ao Pai) [6]. Vemos aqui a fidelidade à mensagem do Novo Testamento (cf. Col 3,16s; Ef 5,18s) e como a Igreja sempre interveio para salvaguardar a ortodoxia, a Lex credendi, expressa na Lex orandi. Por isso, é desaconselhável invocar intercessão de santos ou substituir a Oração por ladainhas.
Ministros
São basicamente três os ministros envolvidos nessa sequência ritual: o povo, como sujeito principal (IGMR, 36.69), o presidente da celebração, que tem a função de introduzir e concluir (IGMR, 71.138.264) e o diácono, que propõe as intenções (IGMR, 171d.177.197), voltado para o povo (IGRM, 138.309); na sua ausência, as intenções são propostas pelo cantor (IGMR, 138), pelo leitor (IGMR, 99.197) ou por um fiel leigo (cf. IGMR, 71) ou vários fiéis (ILM, 30. Cf. IGMR, 264).
O códice não verbal
Os códices não verbais implicados são praticamente dois: o gestual e o canoro. A assembleia está de pé e assim o permanece todo o tempo (cf. IGMR,43.71). O presidente também de pé, de mãos unidas convida os fiéis à oração universal e, de braços abertos, conclui a prece (IGMR, 138). Finalmente, como já sublinhamos acima, tanto as propostas das intenções quanto a própria oração podem ser cantadas. Por “canto”, intende-se, preferivelmente, a forma de cantilação.
Quanto à forma da proclamação de todos os ministros, deve-se levar em consideração o quanto prescrito na IGMR, n. 38:
Nos textos que o sacerdote, o diácono, o leitor ou toda a assembleia devem proferir em voz alta e distinta, a voz corresponda ao gênero do próprio texto, conforme se trate de leitura, oração, exortação, aclamação ou canto; essa correspondência deve ocorrer também quanto à forma de celebração e à solenidade da assembleia.
Polos litúrgicos
Três são os polos litúrgicos levados em consideração nessa sequência ritual: a nave, a sede (cadeira ou cátedra) e o ambão.
a) Na nave encontra-se a assembleia “convocada e reunida”, símbolo real e primeira forma da presença de Cristo no mundo (cf. IGMR, 27);
b) A sede configura-se como polo de orientação no inicio e no final da sequência ritual, pois e de lá que o presidente a introduz e conclui (cf. IGMR, 71).
c) Finalmente, mas não de menos importância, o ambão. Esse funciona como polo orientativo por excelência de toda a Liturgia da Palavra. De lá (ou de outro lugar apropriado) são proferidas, normalmente, as intenções (cf. IGMR, 71).
Uma palavra conclusiva
Depois de ter escutado a Palavra de Deus, os batizados todos são convidados ao exercício do seu ser sacerdotal, unindo-se a Jesus Cristo que vive para interceder junto do Pai (cf. Rm 8,34) pela Igreja e por toda a humanidade. A Oração da assembleia, ou a dos fiéis, ou simplesmente a Oração da comunidade ou “preces”, é a forma litúrgico-ritual desse exercício, por isso a liturgia, atuação da presença de Cristo, dá a máxima importância a esse rito, especialmente nos domingos, dia eucarístico por excelência.
[1] D. Scaiola, «Ascoltaci, ricordati, esaudiscici. Prospettive bibliche dell’intercessione», RL 111 (2024), 15-27.
[2] São Justino, Apol. 1,65.67, ed. C. Munier (SCh 507), Cerf, Paris 2006
[3] Para a coleção desses textos: P. De Clerck, La “prière universelle” dans le liturgies latines anciennes. Témoignages patristiques et textes liturgiques, Aschendorffsche Verlagsbuchhandlung, Müster 1977.
[4] F. Martignano, «“Uma perduta e ora ritrovata in tutto il suo splendore” “La Preghiera universale dei fedeli, la Riforma liturgica e il ricupero conciliare all’interno della celebrazione eucaristica», RL 111 (2024), 49-70.
[5] Infelizmente, usa-se o termo “corpo da oração” para as “Propostas” e não para a Oração, propriamente dita.
[6] Uma só dos formulários do MR aparece dirigida ao Filho (Fórmula Geral II), no entanto, a conclusão é dirigida ao Pai, para significar o destinatário “final”: “Ouvi, ó Pai, as nossas preces e atendei com bondade as nossas súplicas. Por Cristo, nosso Senhor” (cf. MR, p. 1234).