SOBRE O TEMPO NA LITURGIA E O SENTIDO DA VIDA

SOBRE O TEMPO NA LITURGIA E O SENTIDO DA VIDA

Vinicius Mantovani Rampineli*

 

 

INTRODUÇÃO

A liturgia é o ponto central da vida do cristão. Ela está inteiramente ligada à fé daqueles que creem e é expressa por meio de ritos, palavras, gestos e símbolos. Considerando a ação litúrgica como o momento em que Cristo age por meio daqueles que Ele envia, podemos definir a liturgia como um serviço prestado em favor do povo para sua salvação (SC 7).

Por mais que os mitérios divinos sejam invisíveis, a liturgia manifesta sua realidade visível no mundo, valendo-se de recursos naturais e de elementos cotidianos da vida humana. Ela atualiza o ponto máximo da revelação divina: a morte e a ressureição de Jesus Cristo ocorrida em um determinado contexto geográfico e histórico (SC 2). 

O homem, por sua vez, ao celebrar a liturgia, também está presente em um determinado momento histórico. Ele se orienta no tempo cronológico, a fim de  organizar os horários, dias, meses e anos, conforme os rituais liturgicos. Segundo Santos (2008), é possível fazer uma relação entre o tempo totalmente humano e o tempo divino. 

Ainda nesse sentido, é possível dizer que a ação litúrgica é o momento sublime e expressivo da caminhada dos cristãos, pois envolve o homem totalmente no mistério celebrado. Sem compreensão e sem uma vivência profunda da liturgia, a profissão e o testemunho de fé perdem sua beleza visível.

1.     O TEMPO: CRONOS E KAIRÓS

O tempo humano começou a ser medido a partir da observação dos fenômenos naturais, como a posição do sol e as fases da lua. Essa experiência favoreceu a construção de instrumentos, a saber: a ampulheta, o relógio e o calendário. A partir disso, o homem pôde organizar sua vida na sucessão de dias, meses e anos, definindo o cotidiano através da historia cronometrada. Na antiguidade, os gregos explicavam esse fenômeno na personificação divina do deus Cronos, o que nos permite dizer que o tempo humano é também o tempo cronológico, isto é, um tempo quantitativo.

Entretanto, existe uma noção temporal diferente do tempo cronológico. De acordo com Santo Agostinho (2020), passado, presente e futuro não existem, pois o tempo está na alma do homem. Na medida em que recordamos aquilo que já se passou, podemos dizer que há um passado-presente; na medida em que esperamos aquilo que está por vir, há um futuro-presente; e na medida em que vivemos o agora, há um presente-presente, que não pode ser sempre presente, pois se assim fosse o homem estaria preso na própria eternidade. Esse tempo é conhecido como tempo Kairós ou ainda como o tempo certo, que não pode ser medido e nem cronometrado.

Nesse sentido, o tempo kairós também pode ser associado ao tempo de Deus, onde, no momento oportuno, Ele manisfesta sua graça no meio do povo. Ainda conforme Santo Agostinho, Deus está fora do tempo humano, pois Ele é a eternidade. Assim, podemos dizer como a Sagrada Escritura: "[...] para o Senhor um dia é como mil anos e mil anos como um dia" (2 Pd 3,8).  

2.     O TEMPO LITÚRGICO 

Apesar do que dissemos, a constituição dogmática Dei Verbum (nº. 3) ensina que Deus, mesmo estando na eternidade, cria todas as coisas pela força de sua Palavra. Ainda assim ele sustenta, governa e cuida do mundo, especialmete do ser humano. Ele oferece um testemunho de si e se revela na criação, chamando profetas, enviando reis, escolhendo sacerdotes, libertando os cativos e falando ao seu povo como a amigos a fim de os salvar. É o que nos ensina o sagrado Concílio:

No devido tempo, chamou Abraão, para fazer dele um grande povo (cf. Gn. 12,2-3), ao qual, depois dos patriarcas, ele ensinou, por meio de Moisés e dos profetas, a reconhecer em si o único Deus vivo e verdadeiro, o Pai providente e o justo juiz, e a esperar o Salvador prometido; assim preparou, através dos tempos, o caminho ao Evangelho (DV 3).

Depois de ter falado pelos profetas, Deus falou, ensinou e iluminou todos os homens por meio de seu Filho, o Verbo eterno feito carne, que se humilhou assumindo a condição humana. Jesus Cristo, vindo ao mundo, nasceu de uma mulher; teve fome e sede; se cansou; teve alegrias e tristezas; sentiu dores e sofreu; e ainda, como é próprio do homem mortal, esteve sujeito ao tempo num determinado contexto histórico e no avançar de sua idade (DV 4).

Por amor a humanidade, Deus permitiu que seu Filho morresse na cruz, e que ressucitando consumasse a obra da salvação, libertando o homem das trevas do pecado e da morte e oferecendo a ressureição para a vida eterna. Retonando para o Pai, Jesus nos deixa o memorial de sua paixão: “[...] tomou um pão, deu graças, partiu e deu-o a eles, dizendo: “Isto é o meu corpo que é dado por vós. Fazei isto em minha memória” (Lc 22,19).

Dessa forma, o evento salvífico da morte-ressureição de Jesus se repete dentro da história e relaciona o tempo cronológico ao tempo de sua graça. Em cada liturgia celebrada, num detrminado dia e horário, o homem, por meio do agora, eleva seu coração à contemplação dos mistérios divinos e à sua atualização:

Os prefácios utilizados na celebração eucarística evidenciam esta realidade, quando, por meio do hoje litúrgico atualizam determinado mistério de Cristo e assim permitem celebrar ao longo do Ano Litúrgico a totalidade de seu mistério pascal (SANTOS, 2008, p. 9).

Essa realidade que une Deus e o homem, eternidade e história, permite ao ser humano organizar e participar do mistério divino da fé no dia a dia de sua vida. O homem santifica o tempo na sucessão das horas (liturgia das horas); dias (liturgia da palavra e da eucaristia); meses e anos (ano liturgico). Dessa forma, é a passagem do tempo sacramental, isto é, do tempo litúrgico que favorece o amadureciemento da fé e da vida cristã rumo a salvação e a eternidade oferecida por Cristo (SANTOS, 2008).

3.     TEMPO DO MERCADO

Após o primeiro milênio, com a evolução do processo industrial, com o avanço das tecnologias e o crescente acesso a informações, o  homem se tornou refém  de seu próprio tempo. Somado a isso, a modernidade apresentou uma nova compreensão da realidade: o homem tem em si mesmo a sua dignidade e pode, através de seu protagonismo, criar seus próprios sistemas. É um tempo de individualidade e subjetividade, desejo por lucros e valorização do prazer.

Com esse novo modo de enxegar o mundo, o homem atrai para si uma nova preocupação. Inverte-se a relação lógica natural entre Deus e ser humano. O mundo passa a ser governado pelas determinações e leis científicas. O mistério e a contemplação cedem lugar ao instrumental e ao prático.  

Nesse contexto, o trabalho se torna o centro da atividade humana, e é no trabalho que o homem tenta dar sentido à sua vida. Entretanto, nem o trabalho, nem o lucro, nem o prazer são capazes de significar plenamente a sua existência.

O homem pode  até buscar alternativas para dar sentido à sua vida, ocupando o tempo livre com redes sociais, viagens, álcool, drogas, sexo, consumismo. Porém, em nada disso o homem encontra sua felicidade e nada disso é capaz de realizá-lo plenamente (SANTOS, 2008).

A partir disso, entendemos que aqueles que buscam a felicidade no imediatismo dos acontecimentos exteriores, que colocam sua paz nas coisas de fora, ainda que consigam tudo, nunca terão verdadeira paz. Nada nesse mundo é feito para durar. Vivemos numa época efêmera, de relações líquidas, de mercadorias da moda. Parece-nos que o homem está sempre com pressa, e não há mais lugar para a contemplação das coisas eternas e imutáveis.

É possível relacionar esse novo modo de vida com aquelas pessoas que participam da liturgia, seja da missa ou de outras celebrações, sem a devida compreensão da realidade experimentada. Para elas, os ritos demoram muito, como se não fossem capazes de desligarem-se da rotina e de seu próprio tempo, mesmo que momentaneamente, para uma concentração mais profunda e uma contemplação mais elevada dos mistérios divinos. Quem se comparta assim não se abre ao tempo de Deus.

4.     CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir dos estudos realizados sobre liturgia, foi possível relacionar o tempo propriamente humano com o tempo da graça de Deus, e assim, compreender a importância do tempo litúrgico na vida do crente. Entretanto, o mundo moderno parece não acompanhar a beleza da liturgia. As horas passam e os dias também, mas os olhos e os pensamentos dos homens estão voltados para as coisas deste mundo. Santa Teresa D`Avila já dizia que a glória deste mundo é vã, tudo passa, apenas Deus não muda, somente Ele basta. É nessa ideia que entendemos que o homem deve estar sempre em consonância com o tempo litúrgico, pois Cristo, tesouro eterno e imutável do Pai, revela nele seus mistérios duradouros, fonte de sentido, vida e salvação para a humanidade. Bom seria se os projetos de vida do homem fossem construídos a partir da liturgia celebrada, especialmente como aparece nas orações pós-comunhão, cujo objetivo é direcionar o homem para a vivência dos mistérios celebrados.

Referências 

AGOSTINHO. Confissões. Vol. 2. Rio de Janeiro: Petra, 2020. Livro XI, n. 17 – 26. 

BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002

CONCÍLIO VATICANO II. Constituição dogmática Dei Verbum. In: Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II. São Paulo: Paulus, 1997, p. 347-367.

CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Sacrosanctum Concilum. 11 ed. São Paulo: Paulinas, 1998. 

SANTOS, Vitor. Ano Litúrgico e Liturgia das Horas. São Paulo: Batatais, 2008.

 

* Vinicius Mantovani Rampineli, seminarista da Diocese de Colatina – ES, graduando em Filosofia no Centro Universitário Salesiano (Vitória – ES). E-mail:  mantovanivinicius@hotmail.com

 

 

 

 
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