SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR: Comentário bíblico-litúrgico

SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR

Comentário bíblico-litúrgico

Daniel Reis*

 

            No Brasil, o 7º Domingo da Páscoa cede lugar à Solenidade da Ascensão do Senhor, que segundo os registros históricos é celebrada na Igreja desde a metade do século IV (MICHELETTI, 2013, p. 72). Com uma liturgia riquíssima, desde um variado e bem proposto elenco de leituras a um belíssimo formulário eucológico, a celebração da Ascensão encontra-se bem situada no Ano Litúrgico, próxima ao fim do Ciclo Pascal, sendo um elo teológico-litúrgico apropriado entre o mistério da Ressurreição, que a tudo ilumina, e o envio do Espírito Santo, em Pentecostes.

            A ascensão do Senhor, intimamente ligada à sua ressureição, principia e nos faz antever a meta para a qual, como seus discípulos e discípulas, estamos destinados: o céu! Cristo, com sua ressurreição e ascensão, nos precedeu na glória celeste, que pela Liturgia já se realiza misteriosamente em nós, como afirmamos na Oração Coleta desta solenidade: “Ó Deus todo-poderoso, a ascensão do vosso Filho já é nossa vitória (...) pois, membros de seu corpo, somos chamados na esperança a participar da sua glória”. Tal oração nos apresenta, assim, a tensão escatológica do “já e ainda não”, pois embora, em mistério, já nos ascendamos com o Senhor aos céus, como seu corpo que somos, ainda não o fazemos em plenitude, quando de lá Ele descer para definitivamente nos elevar (cf. Ef 1,23). 

            Sobre este “já e ainda não”, é certo que podemos, como Paulo em outros textos que não estão contemplados pelo elenco desta celebração, afirmar: “Nós [já] somos cidadãos do céu” (Fl 3,20), e como “ressuscitados com Cristo”, devemos “aspirar” e nos “esforçar para alcançar as coisas do alto, onde Ele está, sentado à direita de Deus” (cf. Cl 3,1-2). É precisamente o que, por sua vez, reza a Oração Depois da Comunhão: “Deus eterno e todo-poderoso, que nos concedeis conviver na terra com as realidades do céu, fazei que nossos corações se voltem para o alto, onde está junto de vós a nossa humanidade. Por Cristo, nosso Senhor”. Tal prece evoca uma sua “oração irmã”, a Oração Depois da Comunhão do 1º Domingo do Advento, que não por mero acaso, mas por um arco teológico-litúrgico, reza: “Aproveite-nos, ó Deus, a participação nos vossos mistérios. Fazei com que eles nos ajudem a amar desde agora o que é do céu e, caminhando entre as coisas que passam, abraçar as que não passam”. De forma sutil, esta relação com o Advento se mostra no último versículo da 1ª Leitura (a mesma para os anos A, B e C): “Esse Jesus que vos foi levado para o céu, virá do mesmo modo como o vistes partir” (At 1, 11b).

            Inspirada biblicamente por esses movimentos anabático e catabático, ascensional e descensional, a Solenidade da Ascensão se apresenta ainda vinculada, necessariamente, ao mistério da Encarnação, no Natal, pois natural e logicamente só pode “subir” aquele que um dia “desceu”. Nós já “vimos a glória” quando “o Verbo se fez carne e habitou entre nós”(cf. Jo 1,14), e pretendemos, por uma vida semelhante à sua, merecer subir com Ele para contemplá-la eternamente. Assim, a Oração Sobre as Oferendas evidencia este Sacrum Commercium: “Concedei, por esta comunhão de dons entre o céu e a terra, que nos elevemos com Ele até a pátria celeste”. Para tanto, só pode ser elevado com Cristo aquele que se rebaixar como Ele. Este é o paradigma para todos nós que esperamos, um dia, subir aos céus com o Senhor. 

Nessa toada, leia-se a exortação de Paulo aos Filipenses, à qual a Liturgia toma emprestado para aclamar o Evangelho da Paixão, proclamado no Domingo de Ramos e na Sexta-feira Santa:

 

“Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus: Ele, sendo na forma de Deus, não usou de seu direito de ser tratado como um deus, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo, fazendo-se semelhante aos homens. Reconhecido em seu aspecto como um homem, abaixou-se/humilhou-se, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso, Deus o elevou acima de tudo (...)” (Fl 2, 5-9a)

            

Perceba-se que o texto paulino é claro e preciso ao afirmar que é “por isso”, por não querer usar de seu privilégio divino, por esvaziar-se de sua glória, por assumir uma condição servil, por abaixar-se/humilhar-se, em síntese, por ser obediente, é “por isso” que Ele foi elevado “acima de tudo”. Esta lógica é recorrente nos evangelhos, como quando Jesus alerta para a hipocrisia e vaidade dos escribas e fariseus, afirmando: “o maior dentre vós deve ser aquele que vos serve. Quem se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado” (Mt 23, 11-12); também quando conta a parábola do fariseu que, em pé, na sinagoga se exaltava enquanto o cobrador de impostos, de joelhos, pedia perdão, diz: “Este último voltou para casa justificado, mas o outro não. Pois quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado” (Lc 18,14).       

            A ascensão de Cristo não está fundada numa demonstração vaidosa de glória e poder mundanos, mas na solidariedade que pregou e viveu. “Ele, nossa cabeça e princípio, subiu aos céus, não para afastar-se de nossa humildade, mas para dar-nos a certeza de que nos conduzirá à glória da imortalidade”, reza o Prefácio da Ascensão I. Elevou-se não para si mesmo, mas para elevar a dignidade de todo ser humano, “a fim de nos tornar participantes da sua divindade” (Prefácio da Ascensão II). Retomando a relação teológico-litúrgica com o mistério da Encarnação, note-se a semelhança do Prefácio do Natal III: “No momento em que vosso Filho assume nossa fraqueza, a natureza humana recebe uma incomparável dignidade: ao tornar-se Ele um de nós, nós nos tornamos eternos”. Aperfeiçoando a análise temática no bojo da Oração Eucarística, soma-se o Comunicante Próprio do Cânon Romano: “Em comunhão com toda a Igreja celebramos o dia santo em que o vosso Filho único elevou à glória da vossa direita a fragilidade de nossa carne”.

            “Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20b), é a proposta da Antífona da Comunhão, retirada do último versículo do evangelho do Ano A.  Não podemos nos esquecer: Aquele que subiu aos céus é o Emanuel (Mt 1,23), o Deus Conosco! Ele está à direita do Pai na glória, como professamos no Símbolo da Fé, mas não nos desampara, conforme a promessa constante da 1ª Leitura: “recebereis o poder do Espírito Santo que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas (...) até os confins da terra” (At 1,8). Seu plano redentor não foi e não pode ser paralisado em razão de sua ascensão, já que Ele fez de nós, que somos o seu corpo, herdeiros de sua missão: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei” (Mt 28, 19-20a – Evangelho do Ano A). A Igreja, Corpo de Cristo, comunidade de batizados e batizadas, guiada pelo Espírito prometido e derramado, continua na terra para cumprir essa promessa, como sinal constante de sua presença, como “sacramento universal da salvação” (Lumen Gentium, n. 48). Assim, não fiquemos “parados, olhando para o céu” (At 1,11), mas nos empenhemos em elevar nossos irmãos e irmãs caídos à beira do caminho, para que neles o Senhor nos faça experimentar a “alegria de tê-lo conosco até o fim dos tempos”, conforme sua promessa.

 

 

 

*Leigo, bacharel em Direito e graduando em Teologia pela PUC Minas. Cursou Especialização em Liturgia pelo Centro de Liturgia Dom Clemente Isnard e Universidade Salesiana de São Paulo (UNISAL). Assessor da Comissão de Liturgia da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Membro do Secretariado Arquidiocesano de Liturgia (SAL), do Regional Leste II para a Liturgia da CNBB e da Associação dos Liturgistas do Brasil (ASLI).

 

 

 

 

Referências:

CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. Missal Romano. 4. ed. São Paulo: Paulus, 1992.

CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA LUMEN GENTIUM. Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II. Paulus: São Paulo, 1997.

MICHELETTI, G. Páscoa e Pentecostes. São Paulo: Ave Maria, 2013.

 

 

 
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