- SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE
- Pe. Antonio Elcio de Souza*
- “O que sem dúvida está no centro da fé e da vida da Igreja deveria estar também no centro da consciência cristã.” (L. F. Ladaria)
- Celebrar a solenidade da Santíssima Trindade depois de terminado o Tempo Pascal, é uma forma de expressar um grande obrigado a Deus, pelo dom da salvação. Agradecemos a obra do cumprimento do mistério salvação realizado pelo Pai, através do Filho, no Espírito Santo. O mistério da Trindade, lembra-nos o Papa Francisco, nos revela o mistério de amor perfeito e da vida de comunhão, origem e meta de todo o universo e de toda criatura, Deus. A Santíssima Trindade é o mistério de fé que distingue os cristãos de qualquer outra religião do mundo. (Homilia, 15/06/2014)
- A Solenidade da Santíssima Trindade é um convite a contemplarmos o Mistério de Deus sem a pretensão de querer decifrar o mistério de Deus Uno e Trino. Pois, nenhum discurso humano é capaz de entender, de traduzir em linguagem humana o mistério de Deus. Antes, somos convidados a contemplar os grandes dons que Deus faz para com a humanidade desde o Antigo Testamento até a sua revelação máxima em Jesus Cristo, Filho de Deus; e pela força do Espírito Santo nos conduz à plena verdade.
- Segundo Augusto Bergamini, foi durante à época carolíngia que a devoção à Trindade se desenvolveu de forma privada e mesmo encontrando resistência, ganhou expressão litúrgica a partir do século X. Sendo, Roma a última a adotar essa celebração, e a partir de 1331, foi estendida a toda Igreja latina pelo papa João XXII, no domingo após Pentecostes. (cf. 1994, p. 427)
- As leituras bíblicas, fazem memoria à nossa fé, da realidade do Deus vivo em sua autocomunicação com os homens. Neste Ano C, o mistério trinitário é apresentado na sua revelação para que os homens conheçam a verdade.
- A leitura do livro dos Provérbios nos fala da “sabedoria de Deus” que os Padres da Igreja atribuem a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade baseados na apresentação que o Novo Testamento faz de Jesus. Quando nos apresenta a sabedoria como uma pessoa distinta, não como uma criatura, pois existe desde sempre, antes da criação e intervém na criação com a função de também conduz os homens a Deus.
- O salmo 8 canta a grandeza do Deus Criador do Universo, no qual o homem, entre as criaturas, é objeto do amor privilegiado de Deus – “que é o homem para dele lembrardes e o tratardes com tanto carinho?”(v. 5).
- São Paulo na Carta aos Romanos também nos ajuda a compreender o mistério da Trindade, nos ensinando que Deus manifestou seu amor infinito e destinou-nos a tomar parte nessa comunhão de amor. Pela fé no Ressuscitado participamos da vida nova no Espírito. E, o amor e a graça de Deus, revelados em Cristo pelo Espírito, nos conduzem a viver na paz e na esperança. A esperança nos dá força para enfrentar as dificuldades de cada dia, pois ela “não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito” (Rm 5,5).
- O Evangelho afirma que o Espírito nos recordará toda a verdade anunciada por Jesus. Pois, a fonte da revelação está no Pai, realiza-se no Filho e se completa através da ação do Espírito, naqueles que creem no projeto de verdade e vida plena anunciado por Jesus, que diz: “quem acredita em mim fará as obras que faço, e fará ainda maiores que estas”(Jo 14,12). Jesus assegura aos discípulos no discurso de despedida que eles não ficarão abandonados, pois, o Espírito tem a missão de introduzir os crentes na plena verdade (Jo 16,13), no mistério do Filho e na sua missão.
- Leonardo Boff inicia sua obra sobre a Trindade afirmando que “Deus não é solidão, mas comunhão das três pessoas divinas”. Assim, “quando falamos em Trindade não devemos pensar em número, porque se pensar em número Deus é um só. Mas, quando falamos em Trindade queremos expressar a natureza essencial de Deus como comunhão, vida e amor.” (2009, p. 13)
- As três Pessoas Divinas emergem desde sempre juntas. Nunca existiram separadas nem antes uma da outra. E, de uma forma mais livre do rigor dogmático pode-se dizer:
- “... o Deus que está acima de nós, sempre nos gerando, chama-se Pai. O Deus que está ao nosso lado, caminhando conosco, chama-se Filho, e o Deus que está dentro de nós, nos iluminando, chama-se Espírito Santo. Todos nós fomos criados à imagem e semelhança da Trindade. Por isso, somos também seres de relação, de comunhão e de amor. Sempre que vivemos estas realidades tornamos visível em nós através de nós o Deus Trindade”. (BOFF, 2009, p. 14)
- Dois textos mais, que podem nos ajudar a rezar e preparar as nossas celebrações. O primeiro de São Columbano ao tratar da insondável profundidade de Deus:
- “Quem, pois, é Deus? Pai, Filho e Espírito Santo, um só Deus. Não perguntes mais sobre Deus; porque os que querem conhecer a imensa profundidade, têm antes de considerar a natureza. Com razão compara-se o conhecimento da Trindade à profundeza do mar, conforme diz o Sábio: E a imensa profundidade, quem a alcançará? Do modo como a profundeza do mar é invisível ao olhar humano, assim a divindade da Trindade é percebida como incompreensível pelo entendimento humano. Por conseguinte, se alguém quiser conhecer aquele em quem deverá crer, não julgue compreender melhor falando do que crendo; ao ser investigada, a sabedoria da divindade foge para mais longe do que estava. Procura, portanto, a máxima ciência não por argumentos e discursos, mas por uma vida perfeita; não pela língua, mas pela fé que brota da simplicidade do coração, não adquirida por doutas conjeturas da impiedade. Se, por doutas investigações procurares o inefável, irá para mais longe de ti do que estava; se, pela fé, a sabedoria estará à porta, onde se encontra; e onde mora poderá ser vista ao menos em parte. Mas em verdade até certo ponto também será atingida, quando se crer no invisível, mesmo sem compreendê-lo; deve-se crer em Deus por ser invisível, embora em parte o coração puro o veja.” (Ofício das Leituras, Quinta-feira da 7ª Semana Tempo Comum)
- O segundo, uma oração proposta pelos bispos de Navarra e do País Basco, na Páscoa de 1986:
- “Quando nós, cristãos, confessamos a Trindade de Deus, queremos afirmar que Deus não é alguém solitário, fechado em si mesmo, mas um ser solidário. Deus é comunidade, vida compartilhada, dedicação, doação recíproca, feliz comunhão de vida. Deus é, ao mesmo tempo, o amante, o amado e o amor[...] Confessar a Trindade não quer dizer, apenas, reconhecê-la como princípio, mas também aceitá-la como modelo último da nossa vida. Quando afirmamos e respeitamos as diversidades e o pluralismo entre os seres humanos, na prática confessamos a distinção trinitária de pessoas. Quando eliminamos as distâncias e trabalhamos para realizar a efetiva igualdade entre homem e mulher, entre afortunados e despossuídos, entre próximos e distantes, afirmamos na prática a igualdade das pessoas da Trindade. Quando nos esforçamos por ter “um só coração e uma só alma” e aprendemos a colocar tudo em comum, para que ninguém tenha de passar pela indigência, estamos confessando o único confessando o único Deus e acolhendo em nós a sua vida trinitária.”
- Na celebração do Mistério da Santíssima Trindade fica mais evidente, pelas orações e liturgia da Palavra, que a espiritualidade litúrgica é profundamente trinitária. Assim, convida-nos a buscar e viver esse mistério da unidade na pluralidade e em tudo darmos graças ao Pai, por Cristo, no Espírito Santo, em toda a nossa vida, ser e agir, essa inteira que a liturgia nos leva.
- Referências:
- BERGAMINI, A. Cristo, festa da Igreja: o ano litúrgico. São Paulo: Paulinas, 1994.
- BOFF, L. A Santíssima Trindade: é a melhor comunidade. Petrópolis: Vozes, 2009.
- LADARIA, Luis F. O Deus vivo e verdadeiro: o mistério da Trindade. São Paulo: Loyola, 2005.
- * Presbítero, Licenciado em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano de Batatais, Bacharel em Filosofia e Teologia pelo Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto (CEARP) e pela Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção de São Paulo, Pós-graduado pela Faculdade de Teologia Dehonianos de Taubaté. Leciona no CEARP, nas faculdades de Filosofia e Teologia e no curso de Teologia para Leigos; No Colégio Nossa Senhora Auxiliadora de Ribeirão Preto. Reitor do Seminário Maria Imaculada da Arquidiocese de Ribeirão Preto. Membro da Comissão Arquidiocesana de Liturgia e da Associação dos Liturgistas do Brasil (ASLI).
- SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE
- Pe. Antonio Elcio de Souza*
- “O que sem dúvida está no centro da fé e da vida da Igreja deveria estar também no centro da consciência cristã.” (L. F. Ladaria)
- Celebrar a solenidade da Santíssima Trindade depois de terminado o Tempo Pascal, é uma forma de expressar um grande obrigado a Deus, pelo dom da salvação. Agradecemos a obra do cumprimento do mistério salvação realizado pelo Pai, através do Filho, no Espírito Santo. O mistério da Trindade, lembra-nos o Papa Francisco, nos revela o mistério de amor perfeito e da vida de comunhão, origem e meta de todo o universo e de toda criatura, Deus. A Santíssima Trindade é o mistério de fé que distingue os cristãos de qualquer outra religião do mundo. (Homilia, 15/06/2014)
- A Solenidade da Santíssima Trindade é um convite a contemplarmos o Mistério de Deus sem a pretensão de querer decifrar o mistério de Deus Uno e Trino. Pois, nenhum discurso humano é capaz de entender, de traduzir em linguagem humana o mistério de Deus. Antes, somos convidados a contemplar os grandes dons que Deus faz para com a humanidade desde o Antigo Testamento até a sua revelação máxima em Jesus Cristo, Filho de Deus; e pela força do Espírito Santo nos conduz à plena verdade.
- Segundo Augusto Bergamini, foi durante à época carolíngia que a devoção à Trindade se desenvolveu de forma privada e mesmo encontrando resistência, ganhou expressão litúrgica a partir do século X. Sendo, Roma a última a adotar essa celebração, e a partir de 1331, foi estendida a toda Igreja latina pelo papa João XXII, no domingo após Pentecostes. (cf. 1994, p. 427)
- As leituras bíblicas, fazem memoria à nossa fé, da realidade do Deus vivo em sua autocomunicação com os homens. Neste Ano C, o mistério trinitário é apresentado na sua revelação para que os homens conheçam a verdade.
- A leitura do livro dos Provérbios nos fala da “sabedoria de Deus” que os Padres da Igreja atribuem a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade baseados na apresentação que o Novo Testamento faz de Jesus. Quando nos apresenta a sabedoria como uma pessoa distinta, não como uma criatura, pois existe desde sempre, antes da criação e intervém na criação com a função de também conduz os homens a Deus.
- O salmo 8 canta a grandeza do Deus Criador do Universo, no qual o homem, entre as criaturas, é objeto do amor privilegiado de Deus – “que é o homem para dele lembrardes e o tratardes com tanto carinho?”(v. 5).
- São Paulo na Carta aos Romanos também nos ajuda a compreender o mistério da Trindade, nos ensinando que Deus manifestou seu amor infinito e destinou-nos a tomar parte nessa comunhão de amor. Pela fé no Ressuscitado participamos da vida nova no Espírito. E, o amor e a graça de Deus, revelados em Cristo pelo Espírito, nos conduzem a viver na paz e na esperança. A esperança nos dá força para enfrentar as dificuldades de cada dia, pois ela “não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito” (Rm 5,5).
- O Evangelho afirma que o Espírito nos recordará toda a verdade anunciada por Jesus. Pois, a fonte da revelação está no Pai, realiza-se no Filho e se completa através da ação do Espírito, naqueles que creem no projeto de verdade e vida plena anunciado por Jesus, que diz: “quem acredita em mim fará as obras que faço, e fará ainda maiores que estas”(Jo 14,12). Jesus assegura aos discípulos no discurso de despedida que eles não ficarão abandonados, pois, o Espírito tem a missão de introduzir os crentes na plena verdade (Jo 16,13), no mistério do Filho e na sua missão.
- Leonardo Boff inicia sua obra sobre a Trindade afirmando que “Deus não é solidão, mas comunhão das três pessoas divinas”. Assim, “quando falamos em Trindade não devemos pensar em número, porque se pensar em número Deus é um só. Mas, quando falamos em Trindade queremos expressar a natureza essencial de Deus como comunhão, vida e amor.” (2009, p. 13)
- As três Pessoas Divinas emergem desde sempre juntas. Nunca existiram separadas nem antes uma da outra. E, de uma forma mais livre do rigor dogmático pode-se dizer:
- “... o Deus que está acima de nós, sempre nos gerando, chama-se Pai. O Deus que está ao nosso lado, caminhando conosco, chama-se Filho, e o Deus que está dentro de nós, nos iluminando, chama-se Espírito Santo. Todos nós fomos criados à imagem e semelhança da Trindade. Por isso, somos também seres de relação, de comunhão e de amor. Sempre que vivemos estas realidades tornamos visível em nós através de nós o Deus Trindade”. (BOFF, 2009, p. 14)
- Dois textos mais, que podem nos ajudar a rezar e preparar as nossas celebrações. O primeiro de São Columbano ao tratar da insondável profundidade de Deus:
- “Quem, pois, é Deus? Pai, Filho e Espírito Santo, um só Deus. Não perguntes mais sobre Deus; porque os que querem conhecer a imensa profundidade, têm antes de considerar a natureza. Com razão compara-se o conhecimento da Trindade à profundeza do mar, conforme diz o Sábio: E a imensa profundidade, quem a alcançará? Do modo como a profundeza do mar é invisível ao olhar humano, assim a divindade da Trindade é percebida como incompreensível pelo entendimento humano. Por conseguinte, se alguém quiser conhecer aquele em quem deverá crer, não julgue compreender melhor falando do que crendo; ao ser investigada, a sabedoria da divindade foge para mais longe do que estava. Procura, portanto, a máxima ciência não por argumentos e discursos, mas por uma vida perfeita; não pela língua, mas pela fé que brota da simplicidade do coração, não adquirida por doutas conjeturas da impiedade. Se, por doutas investigações procurares o inefável, irá para mais longe de ti do que estava; se, pela fé, a sabedoria estará à porta, onde se encontra; e onde mora poderá ser vista ao menos em parte. Mas em verdade até certo ponto também será atingida, quando se crer no invisível, mesmo sem compreendê-lo; deve-se crer em Deus por ser invisível, embora em parte o coração puro o veja.” (Ofício das Leituras, Quinta-feira da 7ª Semana Tempo Comum)
- O segundo, uma oração proposta pelos bispos de Navarra e do País Basco, na Páscoa de 1986:
- “Quando nós, cristãos, confessamos a Trindade de Deus, queremos afirmar que Deus não é alguém solitário, fechado em si mesmo, mas um ser solidário. Deus é comunidade, vida compartilhada, dedicação, doação recíproca, feliz comunhão de vida. Deus é, ao mesmo tempo, o amante, o amado e o amor[...] Confessar a Trindade não quer dizer, apenas, reconhecê-la como princípio, mas também aceitá-la como modelo último da nossa vida. Quando afirmamos e respeitamos as diversidades e o pluralismo entre os seres humanos, na prática confessamos a distinção trinitária de pessoas. Quando eliminamos as distâncias e trabalhamos para realizar a efetiva igualdade entre homem e mulher, entre afortunados e despossuídos, entre próximos e distantes, afirmamos na prática a igualdade das pessoas da Trindade. Quando nos esforçamos por ter “um só coração e uma só alma” e aprendemos a colocar tudo em comum, para que ninguém tenha de passar pela indigência, estamos confessando o único confessando o único Deus e acolhendo em nós a sua vida trinitária.”
- Na celebração do Mistério da Santíssima Trindade fica mais evidente, pelas orações e liturgia da Palavra, que a espiritualidade litúrgica é profundamente trinitária. Assim, convida-nos a buscar e viver esse mistério da unidade na pluralidade e em tudo darmos graças ao Pai, por Cristo, no Espírito Santo, em toda a nossa vida, ser e agir, essa inteira que a liturgia nos leva.
- Referências:
- BERGAMINI, A. Cristo, festa da Igreja: o ano litúrgico. São Paulo: Paulinas, 1994.
- BOFF, L. A Santíssima Trindade: é a melhor comunidade. Petrópolis: Vozes, 2009.
- LADARIA, Luis F. O Deus vivo e verdadeiro: o mistério da Trindade. São Paulo: Loyola, 2005.
- * Presbítero, Licenciado em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano de Batatais, Bacharel em Filosofia e Teologia pelo Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto (CEARP) e pela Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção de São Paulo, Pós-graduado pela Faculdade de Teologia Dehonianos de Taubaté. Leciona no CEARP, nas faculdades de Filosofia e Teologia e no curso de Teologia para Leigos; No Colégio Nossa Senhora Auxiliadora de Ribeirão Preto. Reitor do Seminário Maria Imaculada da Arquidiocese de Ribeirão Preto. Membro da Comissão Arquidiocesana de Liturgia e da Associação dos Liturgistas do Brasil (ASLI).