Super populum a oração sobre o povo do I Domingo da Quaresma

Super populum a oração sobre o povo do I Domingo da Quaresma


Dom Jerônimo Pereira,osb

 

Com a quarta-feira de cinzas demos início ao Tempo santo da Quaresma. Nos primeiros séculos, depois de organizar a solenidade anual da Páscoa, com uma reverberação de cinquenta dias, celebrados como um único dia de festa, lentamente, as mais diversas Igrejas, começaram a organizar um tempo de preparação para essa celebração central da existência cristã. Tudo começou já no século II com a sexta e o sábado santos, que juntamente com o domingo formavam o Tríduo Pascal. O processo evolutivo progrediu de tal forma que já no século IV encontramos uma Quaresma muito parecida com a nossa de hoje. Segundo a mentalidade da leitura bíblica no ambiente patrístico, não demorou muito a se chegar ao número 40 para os dias preparativos para a Páscoa, visto que, na Sagrada Escritura, os grandes eventos da História da salvação estão assinalados por esse número. Assim, os quarenta dias do dilúvio, que “germinaram” uma nova criação; os quarenta dias de Moisés no monte, antes de selar o pacto da Aliança; os quarenta anos do povo no deserto, antes de entrar na terra prometida; os quarenta dias da caminhada de Elias para o monte Horeb; os quarenta dias que Jonas deu à cidade de Nínive para a sua conversão; os quarenta dias de Cristo no deserto; os quarenta dias transcorridos entre a ressurreição e a ascensão...

Em Roma, a partir do Papa Hilário (†468), surgiu a missa estacional com o bispo. O termo militar statio (parada) significa “posto de guarda militar, guarnição”. A partir do II século a Igreja começou a utilizá-lo para indicar os dias nos quais os cristãos espiritualmente “montavam guarda” durante as quartas e sextas-feiras da semana, por meio do jejum e da participação ao um ofício litúrgico (Missa ou Liturgia das Horas). Mais tarde acrescentou-se também o sábado como dia de stationem agere. Com o passar do tempo, o termo passou a significar reunião litúrgica. O povo reunia-se numa igreja específica juntamente com todo o clero, onde o bispo fazia a saudação e pronunciava a oração inicial, uma oração de reunião, daí o seu nome “coleta” (ad collectam). Dava-se, então, início à procissão ao canto da ladainha de todos os santos, que se direcionava à igreja onde o bispo, ou um seu delegado, presidiria a eucaristia (igreja estacional). Esta reunião consistia numa assembleia que celebrava um rito simples e grandioso: o povo reunido para a Eucaristia, presidido pelo bispo, rodeado de presbíteros, coadjuvado por diáconos e uma série de outros ministros: subdiácono, leitor, acólito, ostiário, cantor. No fim da Eucaristia o diácono anunciava onde seria a estação sucessiva e o bispo abençoava, com uma oração própria (super populum) o povo que depois era despedido pelo diácono.

A tradição das missas estacionais romanas foi interrompida no início do século XIV, quando a sede papal foi transferida para Avinhão. Houve várias tentativas de restaurar essa tradição, mas com pouco sucesso. Somente no século XX o Papa João XXIII deu um novo impulso ao itinerário das estações quaresmais, participando na liturgia da Quarta-feira de Cinzas na igreja de Santa Sabina no Aventino, no primeiro ano do seu pontificado, o que, desde então, se repete todos os anos. O Cerimonial dos Bispos (1984 – reimpressão emendada 2008) assumiu a missa estacional como a forma modelo da missa episcopal, abandonando, inclusive, a nomenclatura de “missa pontifical”. A terceira edição típica do Missal Romano (MR2002/8), recentemente traduzida para o Brasil (MR2023) recomenda “que se conserve ou incremente, ao menos nas maiores cidades e de modo mais conveniente aos lugares, a tradicional forma de reunião das Igrejas locais, como nas ‘estações’ romanas” (p. 162) e prevê, como dia propício para isso, o domingo ou um dia da semana, especialmente quando o bispo possa presidir[1].

Sendo a missa estacional episcopal o modelo para todas as igrejas paroquiais da diocese, de modo especial para o Tempo da Quaresma, o MR recuperou um dos elementos constitutivos de grande importância: a Oração sobre o povo, obrigatória em todos os domingos e de uso opcional para os dias da semana[2]. Esse nosso estudo se ocupará da Oração sobre o povo do I Domingo da Quaresma, intitulada Super populum, porque essas são as suas primeiras palavras na edição típica latina.

 

Análise textual

 

Super populum aparece no MR2002/8 como parte integrante do formulário da missa e a sua tradução para o MR2023 obedeceu ao princípio da fidelidade ao texto original:

 

Super populum tuum, Domine, quǽsumus, benedictio copiosa descendat,ut spes in tribulatione succrescat, virtus in tentatione firmetur, aterna redemptio tribuatur. Per Christum.[3]

 

Desça, Senhor, (nós vos pedimos) sobre o vosso povo (a vossa) copiosa bênção, para que, na tribulação, cresça a esperança; na tentação, confirme-se a virtude; e lhe seja concedida a eterna redenção.  Por Cristo, nosso Senhor[4].

 

A procedência

 

A terceira edição típica do MR tomou muitas orações sobre o povo dos antigos sacramentários tipicamente romanos[5], fundamentalmente do Veronense (Ve)[6] e do Gelasianum Vetus (GeV)[7], dentre outros[8]. A origem da nossa oração vem fundamentalmente do mundo antigo, do Ve, mas também se encontra GeV com algumas variantes.

O Veronense (n. 1324[9]) é a fonte original da oração Super populum:

 

Super populum tuum, domine, quaesumus, benedictio copiosa descendat, indulgentia veniat, consolatio tribuatur, fides sancta succrescat, redemptio sempiterna firmétur: per.

O contexto em que encontramos esta oração corresponde ao mês de dezembro. O Ve apresenta cinco formulários de missa para os jejuns do decimo mês (dezembro – XLIII. In ieiunio mensis decimi). A nossa oração aparece como parte do quarto formulário. Embora a oração neste sacramentário não seja para a Quaresma, encontra-se sempre dentro de um contexto penitencial, o das Têmporas, de origem muito difícil de identificar. As Têmporas correspondiam ao jejum feito nas quartas, sextas-feiras e sábados, no início de cada uma das estações do ano, então correspondente aos primeiro (março), quarto (junho), sétimo (setembro) e décimo (dezembro) mês do ano, segundo o calendário civil dos romanos[10]. Ademais, na tradição galo-espanhola, herdada do oriente, o Advento (durante o mês de dezembro), tinha características penitenciais em vista da preparação para os batismos a serem celebrados na Epifania, como se fosse uma segunda Quaresma[11]. Contudo, os formulários das Têmporas do décimo mês se apresentam de modo independente do Advento[12].

A oração se encontra sem título, característica do Ve[13], e fazendo parte do formulário completo de uma Missa. Nesse sacramentário o mesmo acontecerá com as orações Sobre o povo, tanto para o Temporal como para as Santoral[14].

Do Ve a prece passou incólume para os Sacramentários Gelasianos do VIII século[15], uma hibridização galicana entre o GeV e um outro Sacramentário de tipo episcopal/papal (Gregoriano) que tinha sido adaptado para uso presbiteral entre os anos 670-680, cujo melhor exemplar se encontra na cidade de Pádua, por isso chamado de Patavino. Por influência direta do GeV (como veremos mais abaixo) a Super populum se encontrará sempre como Oração Sobre o povo do I domingo da Quaresma:

 

Cf. SGall 276: 53. In Quadragesima ad sanctum Iohannem ad Lateranum, super populum[16].

 

Cf. Eng 304: LIII. [In Quadragesima], Statio ad sanctum Iohannem ad Lateranis, Ad populum, que se repete: 452: LXXVI. [In Quadragesima], feria VII. Ebdomada III[17].

 

Cf. Gell 300: LI (55). [In Quadragesima], Dom[inica] I, Stacio ad s[an]c[tu]m Ioh[annem] in Latera[nis?], super populu[m][18].

 

Observemos as primeiras variantes textuais encontradas entre a fonte original e a forma com que aparece na terceira edição típica latina do MR: 

 

 

Ve 1324

 

MR2002/8

Super populum tuum, domine, quaesumus, benedictio copiosa descendat, indulgentia veniatconsolatio tribuatur, fides sancta succrescat, redemptio sempiterna firmétur: per.

 

Super populum tuum, Domine, quǽsumus, benedictio copiosa descendat, ut spes in tribulatione succrescat, virtus in tentatione firmetur, aterna redemptio tribuatur. Per Christum.

 

Comparando a oração do Ve com a do MR2002/8, encontramos nesse último o cancelamento da expressão indulgentia veniat (venha [a nós a vossa] benevolência/condescendência) além da ausência/substituição dos elementos constitutivos da epiclese: “consolatio (consolação)” e “fides sancta (santa fé)”.

Outro lugar onde encontramos a nossa oração é Ve 1257 onde aparece apenas a sua parte inicial:

 

Benedictio tua, domine, super populum supplicantem copiosa descendat: ut qui te factore conditus, te est reparatus auctore, te iugiter operante saluetur. Per

 

Esta oração é sempre encontrada no mês de dezembro com as mesmas características já descritas para as orações Sobre o povo no Ve. Ela se encontra na sessão XL do Ve como parte do quinto formulário de missa, dos nove destinados à celebração do Natal do Senhor e dos santos mártires Basílio, Joviano, Vitorino, Eugênia, Felicidade e Anastácia. Observa-se que a populum (povo) é acrescentado o adjetivo suplicantem (em súplica), que atesta a disposição interior ligada à atitude externa do povo no período penitencial.

 

MR2002/8

Ve 1324

Ve 1257

Super populum tuum, Domine, quǽsumus, benedictio copiosa descendat, ut spes in tribulatione succrescat, virtus in tentatione firmetur, aterna redemptio tribuatur.Per Christum.

Super populum tuum, domine, quaesumus, benedictio copiosa descendat, indulgentia veniat, consolatio tribuatur

fides sancta succrescatredemptio sempiterna firmétur: per.

Benedictio tua, domine, super populum supplicantem copiosa descendatut qui te factore conditus, te est reparatus auctore, te iugiter operante saluetur. Per

 

 

No Gelasianum Vetus

 

Do Ve a Super populum passou ao Sacramentário de uso presbiteral, o Gelasianum Vetus. No sacramentário GeV encontramos a nossa oração ao n. 108. Embora no GeV também se encontrem orações Sobre o povo para o Tempo do Natal e da Epifania[19], a nossa prex se encontra entre as orações e preces do Primeiro Domingo da Quaresma (Orationes et Praeces Dominica In Quadragesima Incoantis Initium); o mesmo contexto e posição de hoje do MR. Como é típico do GeV, a denominação desse gênero de oração é ad populum. No sacramentário Gregoriano será nomeada super populum, como hoje é conhecida[20]. Aqui, entre as expressões de oração, não aparece mais a indulgentia veniat, que existia em Ve, mas continua o pedido de “consolação” e “santa fé”. O que nos diz que, embora a nossa oração venha do Ve, ela foi acolhida no MR, ao menos em parte, segundo a recensão do GeV. 

 

 

Ve 1324

 

Gev 108

Super populum tuum, domine, quaesumus, benedictio copiosa descendat, indulgentia veniat, consolatio tribuatur,fides sancta succrescat, redemptio sempiterna firmétur: per.

 

Super populum tuum, domine, quaesumus, 

benedictio cupiosa discendat, consolatiotribuatur, fides sancta succrescat, redemptio sempiterna firmetur: per dominum nostrum. 

 

 

Outro lugar onde se encontra nossa oração é em GeV 219.  Encontra-se sempre no contexto da Quaresma, mas agora indicada para a sexta-feira da terceira semana. A peculiaridade seria que esta aparece exatamente como no Ve, ou seja, com a expressão indulgentia veniat.

Não tendo sido acolhida pelo Sacramentário Gregoriano, a nossa Super populum não fez o percurso habitual desse Sacramentário, por isso, desconhecida das fontes da liturgia carolíngia franco romana, consequentemente do MR1474 e do MR tridentino, de 1570 até a sua última edição de 1962. Todavia, a estrutura fundamental que dá nome à nossa eucologia foi usada pelo compilador do Sacramentário de Pádua para a composição da Super oblata (Sobre as oferendas) da missa dos “Quatro santos coroados”, celebrados em Roma no dia 8 de novembro (Pad 734: CLXXXI. Natale sanctorum IIII Coronatorum, Super oblatam):

 

Benedictio tua, domine, larga descendat, quae et munera nostra deprecantibus Sanctis tuis tibi reddat accepta, et nobis sacramentum redemptionis efficiat. Per dominum

 

Do testemunho do Sacramentário patavino essa estrutura passou ao Gregoriano Adrianeu (GrH) do VIII século, que, migrado para além dos Alpes, se funde com a tradição galicana e passa aos Sacramentários Gelasianos do VIII século. Dado a sua presença no GrH, chegou ao MR do Concílio de Trento, chegando até à sua ultima edição de 1962, desaparecendo em vista da reforma do calendário: 

 

Cf. GrH 740: 174. Natale sanctorum Quattuor Coronatorum, Super oblata[21].

Cf. Gell 1538: CCLV (254). Na[ta]l[e] s[na]c[t]i Mauricii confes[so]ri[s], S[e]cr[eta].

Cf. SGall 1256: 234. Natale sancti Mauricii episcopi, Super oblata.

Cf. MR1474 2464: Quattuor Coronatorum, Se[creta][22].

Cf. MR1570 3402: Missa […] sanctorum martyrum Quattuor Coronatorum, Secreta[23].

Cf. MR1962 4051: Ss. Quattuor Coronatorum, martyrum, Secreta[24].

 

Fazendo uma sinopse podemos ver como no MR 2002/8 foram mantidos todos os verbos que os antigos sacramentais usavam na oração. Em particular, observamos o uso dos três verbos que expressam o efeito da oração, embora em ordem alterada em relação ao uso atual: tribuatur (conceder), succrescat (crescer) e firmetur (confirmar) e bem traduzidos para o Brasil.

 

Ve 1324

GeV [108] 219

MR2002/8

MR2023

Super populum tuum, domine, quaesumus, benedictio copiosa descendat, indulgentia veniat, consolatio tribuatur

fides sancta succrescat, redemptio sempiterna firmétur: per.

Super populum tuum, domine, quaesumus, 

benedictio copiosa discendat, [indulgentia ueniat], consolatio tribuatur

fides sancta succrescat

redemptio sempiterna firmetur: per.  

 

Super populum tuum, Domine, quǽsumus,

benedictio copiosa descendat, ut spes in tribulatione succrescat,

virtus in tentatione firmetur,

aterna redemptio tribuatur.

Per Christum.

 

Desça, Senhor, (nós vos pedimos) sobre o vosso povo (a vossa) copiosa bênção, para que, na tribulação, cresça a esperança; na tentação, confirme-se a virtude; e lhe seja concedida a eterna redenção.  Por Cristo, nosso Senhor

 

A partir da apresentação das fontes e do percurso feito pela Super populum, da sua origem até o seu uso hodierno, podemos observar como os rascunhos sucessivos de uma única oração apresentam múltiplas variações, com frases parecendo passar de um texto básico para outro. Isto acontece já na antiguidade, às vezes pela inserção espontânea de uma frase favorita de um “compositor/compilador” ou fusão acidental por parte de um escriba; o que demonstra que os operadores da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II ao retocarem orações, extrapolando textos ou usando o método de bricolagem, não entraram numa onda de invencionices: Historia mater et magistra est

A. Ward recorda que é possível nessas passagens observar como já o Ve inclui múltiplos desenvolvimentos híbridos do mesmo material básico, que depois vem recebido pelo GeV e os livros dos francos. Finalmente deve-se observar que talvez a formulação da frase moderna “spes in tribulatione succrescat”, praticamente em substituição daquela das fontes (fides sancta succrescat), tenha sido tomada da prece para a consagração das virgens, num processo de fecundação cruzada dos textos. Na verdade, não é raro que isso aconteça nas composições modernas[25].

 

Na fonte atual

 

A fonte atual é a já citada MR de 2002/8. Encontramos a oração objeto do nosso estudo no contexto do período quaresmal, pertencente precisamente à fórmula do primeiro domingo da Quaresma[26]. A oração encontra-se no final do formulário, pois faz parte dos ritos conclusivos da Missa[27]. Uma das características das orações super populum será encontrá-las neste contexto quaresmal, ou como já vimos em fontes antigas, num contexto penitencial[28]. Procuremos observar se a oração está claramente em consonância com todo o formulário e o lecionário, vendo a relação e as referências que todas as orações e leituras têm entre si.

 

super populum e o formulário

 

A antífona da entrada

 

A antífona da entrada vem do Sal 90,15-16: 

 

Invocabit me, et ego exaudiam eum;

eripiam eum, et glorificabo eum,

longitudine dierum adimplebo eum.[29]

Ele me invocará e eu o ouvirei; 

 
Indique a um amigo