Tuére, Dómine: a oração Sobre o povo do IV Domingo da Quaresma
Dom Jerônimo Pereira, osb
O IV domingo da Quaresma, é também conhecido como o domingo Laetare, diferenciando-se dos demais por causa do seu tom característico de festividade. O seu epíteto – Laetare – deriva da primeira palavra da Antífona da entrada (Is 66,10: Laetamini cum Ierusalem et exultate in ea omnes qui diligitis eam; gaudete cum ea gaudio universi qui lugitis super eam - Alegra-te, Jerusalém! Reuni-vos, vós todos que a amais! Cheios de júbilo, exultai de alegria, vós que estais tristes, e sereis saciados nas fontes da vossa consolação).
Na celebração desse domingo tem-se a possibilidade de usar o rosa como cor litúrgica dos paramentos, permitem-se o toque dos instrumentos musicais e o uso de flores para adornar o altar. A cor rosa é a cor púrpura, usada como prelúdio da alegria das festas pascais, tanto para os catecúmenos quanto para os fieis[1]. Ela significa um “amortecimento” da penitência simbolizada pelo roxo. Tem como fim dar uma nota de esperança às proximidades com a Páscoa do Senhor. A liturgia quer recordar-nos que o período que nos separa da celebração da Ressurreição do Senhor se abrevia, o período de penitência está prestes a terminar e isso é motivo de alegria e exultação. A escolha do rosa para esse domingo, em correspondência com o terceiro do Advento, chamado Gaudete, é para não se afastar muito do roxo, que continua a ser a cor de referência da Quaresma. O roxo iluminado com a luz da esperança se torna rosa. Deve-se sublinhar que no estudo do simbolismo das cores, in genere, o rosa/rosado é uma cor que estimula a positividade e dá serenidade. É precisamente este o papel que as vestes cor-de-rosa têm nesse domingo especial, isto é, lembrar aos fiéis que mesmo nos momentos de tristeza, de espera e de penitência pode haver alegria, aquela alegria que vem do Evangelho e da certeza de que depois do deserto, chega-se à terra prometida; depois das trevas, vem a luz; depois da ausência, vem a presença do Esposo; depois da Quaresma o Senhor ressuscita para nós.
E ainda mais, “Neste domingo celebra-se o segundo escrutínio em preparação ao batismo dos catecúmenos que na Vigília Pascal serão admitidos aos sacramentos de iniciação cristã. Rezam-se as orações e intercessões próprias”, adverte a rubrica que abre o formulário.
Dentro desse grande contexto está inserida a Oração Sobre o povo que conclui a celebração da Eucaristia, denominada Tuére, Dómine, que se encontra traduzida para o nosso Missal da seguinte forma:
Tuére, Dómine, súpplices tuos, susténta frágiles, et inter ténebras mortálium ambulantes tua semper luce vivífica, atque a malis ómnibus cleménter eréptos, ad summa bona perveníre concéde[2].
| Protegei, Senhor, os que vos suplicam: sustentai os fracos, iluminai sempre com a vossa luz os que andam nas trevas da morte, e concedei que, por vossa misericórdia, libertados de todos os males, cheguemos aos bens supremos[3].
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Discurso sobre as fontes
Os compiladores/revisores da terceira edição do MR de 2002/8 foram buscar essa belíssima oração diretamente do Sacramentário Veronense (Ve)[4]. Trata-se da Oratio Super populum do formulário VIII (mense aprile), sem título, XV, item alia, número 46.
Ve
| MR2002/8 |
Tuére, Dómine, súpplices tuos, susténta frágiles, purga terrenos; et inter mortalium ténebras mortáles ambulantes tua semper luce vivífica, atque a malis ómnibus cleménter eréptos, ad summa bona perveníre concede. | Tuére, Dómine, súpplices tuos, susténta frágiles, et inter ténebras mortálium ambulantes tua semper luce vivífica, atque a malis ómnibus cleménter eréptos, ad summa bona perveníre concéde |
O trabalho fundamental dos compiladores/revisores foi apenas de pequenas alterações, visando a simplificação. A prece, dirigida a Deus, o Pai, pela mediação de Jesus Cristo, impetra proteção para os suplicantes, sustento para os frágeis, luz para os que andam nas trevas da morte e possibilidade de chegar à sumidade dos bens, à vida eterna.
Fontes Bíblicas e litúrgicas
São muitos os significados do verbo tueor com o qual começa a Tuére, Dómine, (ver, olhar, observar, contemplar, examinar, verificar, inspecionar, supervisionar, vigiar, cuidar, proteger, defender, salvaguardar), mas o seu significado fundamental de defender/proteger, quer dizer, sobretudo, salvar, no sentido de manter intacta a condição primária. Corresponde ao grego ρύομαι (rhyomai) que na Bíblia se refere, em primeiríssimo lugar, a Deus. Por exemplo, São Paulo confessa que foi salvo da perseguição (1Tm 3,11): “...nas minhas perseguições, nas provações que me sobrevieram em Antioquia, em Icônio, em Listra. Que perseguições tive que sofrer! E de todas me protegeu o Senhor”.
Em Cl 1,13 encontramos um arcabouço do tema da salvação ligado ao tema da luz que pode ter servido à lectio divina do redator da nossa prece: “Ele nos libertou do poder das trevas e nos introduziu no Reino de seu Filho muito amado”. O agente é sempre o Pai. A invocação do salmista “A nossa proteção está no nome do Senhor que fez o céu e a terra” (Sl 120,2), que se tornou prece constante da Igreja, ligada às bênçãos pontificais, é o constante gemido seguro da Igreja que conhece o seu protetor. Nesse mesmo sentido se encaixa a segunda petição; a sustentação do fraco, segundo a mentalidade bíblica, corresponde à operosa salvação: “Mas ele me disse: ‘Basta-te minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força’. Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo. Eis por que sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo. Porque, quando me sinto fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,9-10).
A nossa oração tem uma irmã gêmea no sábado da IV semana, onde tueor é traduzido por defender:
Tuére, Dómine, plebem tuam, ad sacra ventúra properántem et cæléstis grátiæ largitáte proséquere, ut visibílibus adiúta soláciis ad invisibília bona prómptius incitétur.
| Defendei, Senhor, o vosso povo que se prepara para as solenidades pascais. Ajudai-o com a abundância da graça celeste, para que, reconfortado com o auxílio dos bens visíveis, procure mais diligentemente os bens invisíveis. |
No terceiro pedido encontramos, especialmente, uma claríssima referência a Mt 4,16: “O povo, que jazia nas trevas, viu resplandecer uma grande luz; e surgiu uma aurora para os que jaziam na região sombria da morte”, que é um eco de Is 9,1: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; sobre aqueles que habitavam uma região tenebrosa resplandeceu uma luz”. No cântico de Zacarias (Lc 1,79) Jesus Cristo já é apresentado como a fonte dessa luminosidade: “Que há de iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte estão sentados, a fim de dirigir os nossos passos no caminho da paz”. Dentro da dinâmica catecumenal, próprio desse tempo, encontra-se a recordação de que os que já foram batizados foram transformados em luz no Senhor e aquele que se preparam para o batismo participarão da mesma luz, como atesta São Pedro (1Pd 2,9): “Vós, porém, sois uma raça escolhida, um sacerdócio régio, uma nação santa, um povo adquirido para Deus, a fim de que publiqueis as virtudes daquele que das trevas vos chamou à sua luz maravilhosa”.
A expressão “libertados de todos os males” (a malis ómnibus eréptos) é um ressoar do último pedido feito na Oração do Senhor “libera nos a malo” (Mt 6,13). De fato, o vero erepo, assim como o verbo tueor tem uma gama de significados ativos (arrastar para fora, sair silenciosamente, liberar, escalar), o que poderia ser lido segundo a lei da comutação complementar: o Senhor ao protege/salva os seus, libertando-os de todos os males.
A possibilidade de chegar à sumidade dos bens, à vida eterna, é o conteúdo do último pedido. O termo “summa bona” é tradicionalmente identificado com o próprio Deus, como atesta São Tomás de Aquino “Deus é a felicidade de toda pessoa abençoada. Pois Deus é o bem maior (summum bonum). Ora, é impossível que exista mais de um bem supremo (summa bona). Visto, portanto, que a razão da felicidade é que ela é o bem maior (summum bonum), parece que a felicidade nada mais é do que Deus” (Summa Theologiae, Quaestio 26, Articulus 3). O que está a indicar Deus como o nosso fim, o resumo de todos os tesouros e bens que esperamos na vida futura.
Conclusão
Nesse IV domingo da Quaresma a prece Tuére, Dómine, liga o tema central da alegria ao da iluminação. Esse domingo, no qual no caminho batismal se faz no Evangelho a memória do cego de nascença e cujo tema é a luz, é antecipação gozosa da grande noite pascal na qual serão descerrados os olhos daqueles que se preparam para o batismo. Os temas encontrados na Tuére, Dómine, ressoaram anteriormente no prefácio: “Pelo mistério da encarnação, Jesus conduziu à luz da fé a humanidade que caminhava nas trevas, e elevou à dignidade de filhos e filhas os nascidos na escravidão do pecado, fazendo-os renascer das águas do Batismo”. O pedido feito na Coleta - Concedei ao povo cristão correr ao encontro das festas que se aproximam, cheio de fervor e exultando de fé – se transforma em súplica e bênção, para que, ao cruzar o limiar do espaço ritual, os que já foram iluminados pela luz da vida, Jesus Cristo, transformem em frutos de alegria e o deserto em verdes prados.
[1] Cf. S. P. Paci, Storia delle vesti liturgiche, Ancora, Milano 2008, 236-239 (Tr. Port. História das vestes litúrgicas: forma, imagem e função, Loyola, São Paulo 2021).
[2] Missale Romanum ex decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum auctoritate Pauli PP. VI promulgatum Ioannis Pauli PP. II cura recogitum, editio typica tertia emendata. Città del Vaticano: Typis Polyglottis Vaticanis 2008, 242.
[3] Missal Romano reformado por decreto do Concílio Ecumênico Vaticano II e promulgado por autoridade de S. S. o Papa Paulo VI e revisto por S. S. o Papa João Paulo II. Tradução portuguesa da terceira edição típica realizada e publicada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica. Brasília: CNBB 2023, 197.
[4] Sacramentarium Veronense, ed. C. Mohlberg, Herder, Roma 1956.