UM CAMINHO QUARESMAL “POR MEIO DAS PRECES”
A ORAÇÃO COLETA DO I DOMINGO DA QUARESMA
Dom Jerônimo Pereira, OSB.
Na Regra Beneditina lê-se que a Quaresma é o tempo propício para “apagarem-se, nesses dias santos, todas as negligências dos outros tempos” (RB 49, 3). De fato, o santo tempo litúrgico da Quaresma é uma oportunidade de graça, gratuitamente oferecida aos crentes, para retomar sua vida espiritual.
Uma atenção particular deve ser dispensada à prece da Igreja, qual Esposa, conduzida ao deserto para entrar em intimidade com o seu Esposo e ouvir a sua voz ressoando em seu coração (cf. Os 2,14).
Assim uma atenção à oração Coleta (Oração do dia) da Missa do I Domingo:
Missal Romano Editio Typica (2008)
Concede nobis, omnipotens Deus, ut, per annua quadragesimalis exercitia sacramenti, et ad intelligendum Christi proficiamus arcanum,
et effectus eius digna conservatione sectemur.
Missal Romano em português:
Concedei-nos, ó Deus onipotente, que,
ao longo desta Quaresma [sacramenti],
possamos progredir no conhecimento de [Jesus] Cristo
e corresponder a seu amor por uma vida santa.
Sugestão de tradução:
Concedei-nos, Deus onipotente,
por meio dos exercícios anuais do sacramento da Quaresma,
progredir no conhecimento do mistério de Cristo
e corresponder-lhe por uma vida santa.
SOBRE A SUA PROCEDÊNCIA
Esta Coleta vem do Sacramentário Gelasianum Vetus (GeV – 628-715), utilizada para o I Domingo da Quaresma (n. 104: Orationes et praeces dominica in Quadragesima incoantis inicium). Compilado para ser usado, provavelmente, na Igreja romana de São Pedro “in Vincoli”, o Sacramentário GeV, de tipo presbiteral, entrou na Gália antes do papado de Gregório II (715-731), onde sofreu enxertos de tipo galicano. Os livros locais que tentaram misturar os ritos romanos com os que restavam dos antigos ritos galicanos, geraram livros franco-romanos, como o Missale Goticum (VIII século) que acolheu a Coleta romana utilizando-a como oração para a paz (Collectio ad pacem – MG 173), pois alguns domingos conheciam a sua própria e não apenas a fixa como temos. O texto foi acolhido sem variações sofrendo apenas um pequeno acréscimo na parte final: “Concede nobis, omnipotens Deus (...) digna conservatione sectemur, ut sinceram nobis pacem tribuas”, pedindo que o conhecimento do mistério de Cristo e o modo de vida digno conquistariam a paz sincera do povo cristão.
Também os chamados “Gelasianos do VIII século”, uma combinação do GeV com o Sacramentário Gregoriano patavino (um Sacramentário de tipo episcopal que, em Roma, entre 670/680 foi elaborado para uso também das igrejas presbiterais; entre 682 e 688 emigrou para a Gália), com os usos galicanos e monástico, acolheram a Coleta sem alterações de texto e colocação. Assim o Gellonense 295: “LI. Or[ationes] et p[era]c[es] dom[inica] I. Stacio ad S[an]c[tu]m Ioh[annem] in Laetera[num]”.
Na reestruturação do Missal Romano, obra do Concílio Vaticano II, os padres foram buscar nessa antiga tradição romana a oração que substituiu a então em uso, vinda da tradição gregoriana:
Deus qui ecclesiam tuam annua
quadragesimali observatione purificas,
praesta familiae tuae, ut quod a te
obtinere abstinendo nititur, hoc bonis
moribus exsequatur. Per. (GrH 166 – MR 1570 [619] – 1962[561])
Ó Deus, que purificais a vossa Igreja
com a observância anual da quaresma,
concedei à vossa família que
o que ela deseja alcançar pela abstinência
o pratique com suas boas obras.
DISCURSO SOBRE AS FONTES
A Coleta do I Domingo da Quaresma trata-se de um venerável texto eucológico por sua antiguidade e autenticidade romana, mas também pela sua densidade de doutrina espiritual, como trataremos de apresentar em seguida. Antes de tudo, deve-se observar o vacábulo militar (exercitia - exercícios) que a vincula, portanto, a Coleta da Quarta-Feira de Cinzas e ao tema do combate espiritual:
Concéde nobis, Domine,
præsidia militiæ
christianæ sanctis
inchoare ieiuniis, ut,
contra spiritales nequitia
pugnaturi, continentiæ
muniamur auxiliis.
Concedei a nós, Senhor,
guarnição do exército cristão,
iniciar (começar) os santos jejuns,
para que munidos
com os auxílios da continência (moderação/temperança)
lutemos contra a força do mal espiritual.
Concedei-nos, Ó Deus todo-poderoso,
iniciar com esse dia de jejum
o tempo da Quaresma,
para que a penitência nos fortaleça
no combate contra o espírito do mal.
A Coleta que hoje usamos para a Quarta-feira de Cinzas, provém do Sacramentário Veronese 207 (composto entre 561 e 574), atribuído por engano ao Papa Leão Magno, a quem, no entanto, são devidos alguns formulários de missa. Era originalmente a oração de abertura do jejum programado para o mês de junho, em preparação para o Pentecostes. Foi o Sacramentário Gregoriano Adrianeu (composto entre 625 e 638) que o atribuiu à Quarta-feira de Cinzas.
O tema da Coleta da Quarta-Feira de Cinzas, como a do I Domingo da Quaresma, é evidentemente o combate espiritual, conforme abordado nos Tratados 71 e 78 de Leão Magno. A oração da Quarta-Feira de Cinzas, dado o seu conteúdo, poderia ser um desses textos saídos da mão do Papa Leão e conservados no Sacramentário Veronese. Certamente pertence a sua escola. Por trás de ambos os textos eucológicos, podemos ver a referência a Ef 6, 10-12:
Fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder.
Revesti-vos da armadura de Deus para poder resistir às ciladas do diabo.
De fato, nossa batalha não é contra carne e sangue,
mas contra principados e potestades,
contra os governantes deste mundo tenebroso,
contra os espíritos do mal,
que vivem nas regiões celestiais.
Nossa fórmula eucológica, então, se alimenta da teologia de Leão Magno. Teria sido o critério da continuidade temática das celebrações de abertura do Tempo a determinar a escolha da nossa Coleta, em detrimento da gregoriana, presente no Missal de 1570?
Ao lado do vocabulário militar existe o mistérico (ad intelligendum Christi arcanum), típico do ambiente mistagógico do mais refinado gosto clássico. Somos, portanto, levados à escola de Milão e do grande mistagogo Santo Ambrósio. De modo tal que somos seguros que a “nossa Coleta”, é fortemente inspirada nas melhores escolas espirituais e teológicas conhecidas na época em que foi composta.
ALIMENTO PARA UM CAMINHO QUARESMAL
Concedei-nos, Deus onipotente, por meio dos exercícios anuais do sacramento da Quaresma (quadragesimalis sacramenti) ...
1) A Quaresma é um “sacramento”. A atual tradução omite esse sintagma temático de fundamental importância para uma boa compreensão da Quaresma e da sua espiritualidade. O tempo quaresmal é definido pela Coleta como um sinal sacramental de nossa conversão (quadragesimalis sacramenti), mostrando assim que é como um paradigma da vida cristã. O que significa que as atitudes espirituais e as dimensões teológicas deste tempo, não se limitam ao calendário das celebrações litúrgicas (lex orandi), mas envolvem toda a vida cristã, espiritual, familiar, social, comunitária, política, moral, afetiva etc (lex vivendi). A dimensão penitencial, a essencialidade, a oração, as obras de caridade, a referência constante ao primado de Deus, o espaço sempre aberto da misericórdia divina e da reconciliação humana, a escuta da Palavra: tudo isto é um patrimônio que a Quaresma nos faz redescobrir num processo constante de reapropriação (lex credendi).
Durante o tempo da Quaresma, as propostas que vêm da liturgia (orações, leituras, cânticos, salmos etc.) ajudam os cristãos a tomar consciência da fragilidade da experiência humana, dos limites que lhes são conaturais, das responsabilidades morais, das experiências de pecado, mas também da possibilidade real de redenção que a misericórdia de Deus Pai oferece com a oferta gratuita e amorosa do sacrifício de Cristo na Cruz, da possibilidade real de que um mergulhado no vício mude de vida e que de um pecador inveterado se torne santo.
... progredir (proficiamus) no conhecimento do mistério de Cristo (arcanum Christi)...
2) A Quaresma é um tempo místico. O verbo proficio (progredir) traz consigo a referência a um crescimento gradativo, processual, uma ideia de um caminho que lentamente se percorre, porém com progressões asseguradas. A Quaresma coincide com as etapas decisivas e finais do catecumenato, enquanto o tempo pascal coincide com o tempo da mistagogia e com a semana “dos arcanos”, ou seja, a oitava pascal, durante a qual, na Antiguidade, o Bispo explicava aos neófitos (chamados infantes) o significado bíblico-teológico dos sinais litúrgicos da iniciação e suas consequências espirituais e existenciais. Dentre esses bispos se destacam figuras como Santo Ambrósio, Santo Agostinho, Teodoro de Mopsuéstia, os Santos Cirilo e João de Jerusalém etc.
A tríade sacramental da Iniciação Cristã – batismo-confirmação-eucaristia – infunde na vida do crente a semente de Cristo que deve depois crescer gradativamente. Este verbo latino, também na sua tradução para o português, tem vários significados e todos eles se enquadram muito bem no contexto dessa nossa Oração: 1) avançar, caminha pra frente, passar de uma camada de fundo a um nível de evidência, para que a imagem de Cristo possa emergir gradualmente na vida do crente; 2) expandir, alargar, ampliar visto que esta presença germinal cresce e se difunde, na medida em que lhe damos lugar (cf. Jo 3,30); 3) beneficiar, ser eficaz, porque a plenitude da vida do batizado é a sua cristificação/deificação. O crente que não permite que Cristo viva nele se frustra. A Quaresma é, portanto, o tempo da progressiva assimilação da vida do crente à vida de Cristo.
... e corresponder-lhe por uma vida santa (et effectus eius digna conservatione sectemur)...
3) Uma sequela identitária: Trata-se da frase de maior dificuldade de tradução. A nossa tradução atual parece implicar que da meditação sobre a sua vida (conceito intelectual) se possa passar imediatamente à sua imitação, sem a mediação da graça do sacramento, que nos conforma à sua imagem. Embora eu possa saber tudo sobre Cristo, não poderei, todavia, viver como ele se o sacramento não me permitir levar a sua imagem dentro de mim e não impelir continuamente, a partir do interior, a minha vida a conformar-se com ele, isto é, a assumir a sua própria forma em mim, processualmente. De fato, o verbo secto, indica, antes de tudo, seguir, acompanhar, escoltar, correr atrás, em sentido figurado, buscar, desejar, o que remete imediatamente à ideia inicial de caminho, como processo iniciático e não automático.
Viver como ele leva à plenitude a imagem dele que está em mim: há uma circularidade entre conhecimento-celebração-vida. Com efeito, o sentido, talvez intraduzível, da nossa Coleta seja esse: “para que, pela familiaridade com Cristo, dada pelo sacramento e derivada de uma vida digna d’Ele, sejamos conduzidos à sua perfeição, isto é, à plenitude de sua imagem em nós. Não é por acaso que toda a teologia batismal-pascal é construída sobre os textos paulinos que falam dos crentes como “co-sepultados” e “co-ressuscitados” [com] Cristo. O fim da Quaresma, afinal de contas, não outro senão a identificação do cristão a Cristo.
BREVÍSSIMAS CONCLUSÕES
A Coleta do I Domingo da Quaresma se encontra em linha de continuidade temática com a Oração da Quarta-Feira de Cinzas e a ela se une também pelo valor da sua “romanicidade” e antiguidade, além de conteúdo teológico.
A “nossa Coleta” tem suas fontes compositivas nas melhores e mais celebres escolas espirituais e teológicas conhecidas na época em que foi composta e se encontra embebida de processos iniciáticos catecumenal e mistagógico. A Quaresma é um “sinal sacramental”, partícipe da sacramentalidade da Igreja, derivada, por sua vez, da sacramentalidade de Cristo, imagem do Pai.
O “conhecimento” do mistério Cristo, por parte do crente, deve ser lido à luz da conotação bíblica do termo, como um processo de intimidade e identificação, onde um e Outro se tornam “co-participantes” de uma mesma realidade.
O estudo se tornaria imensamente mais rico se fosse levado em conta o sistema de enquadramento da nossa coleta dentro do seu contexto próximo (os outros elementos que comportam o formulário desse domingo com o seu lecionário tripartido) e remoto (a Liturgia das Horas e os textos dos domingos sucessivos).
FONTES
Missale Romanum ex decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum auctoritate Pauli PP. VI promulgatum Ioannis Pauli PP. II cura recogitum, editio typica tertia emendata. Città del Vaticano: Typis Polyglottis Vaticanis 2008. Missal Romano, restaurado por decreto do sagrado Concilio Ecumênico Vaticano Segundo e promulgado pela autoridade do papa Paulo VI, tradução portuguesa da II edição típica para o Brasil, com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica, ed. Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. São Paulo: Paulus, 1992.
Liber sacramentorum Romanae Aeclessiae Ordinis Anni Circuli (Cod. Vat. Reg. lat. 316/Paris Bibl. Nat. 7193, 41/56), Sacramentarium Gelasianum, ed. L. C. Mohlberg, Herder, Roma 1981.
Missale Gothicum (Vat.Reg.lat.317), ed. L. C. Mohlberg. Roma: Herder, 1961.
Liber sacramentorum Gellonensis, ed. A. Dumas – J. Deshusses (CCL 159A), Brepols ,Turnhout 1981.
Missale Romanum, editio princeps (1570): edizione anastatica, introduzione e appendice, ed., M. Sodi – A. M. Triacca. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1998.
Missale Romanum anno 1962 promulgatum, ed., J. Cuthbert – A. Ward, CLV-Ed. Liturgiche, Roma 1994.
Sacramentarium Veronense, ed. L. C. Mohlberg. Roma: Herder, 1978.
Hadrianum, in Le sacramentaire Grégorien, I. ed. J. Deshusses. Suisse: Presses universitaires Fribourg, 1992.
*Dom Jerônimo Pereira,
Monge beneditino, Mosteiro de São Bento de Olinda
Doutor em Liturgia pelo Pontifício Instituto Litúrgico (Roma)
Presidente da ASLI