Um caminho quaresmal “Por meio das preces” A oração Coleta do II Domingo da Quaresma

Um caminho quaresmal “Por meio das preces”

A oração Coleta do II Domingo da Quaresma

 

Por Dom Jeronimo Pereira, OSB.

 

Na liturgia “as primeiras” palavras, gestos, leituras, sequências são sempre muito determinantes. Assim, no suceder-se dos domingos da Quaresmas, temos uma forma catequética iniciática em vista dos catecúmenos, de tal modo que o tema da morte do Senhor se manifesta na sua ação kenótica de submeter-se à tentação (I Domingo) e o da glorificação/ressurreição, no evento da transfiguração (II Domingo). A organização do Ano Litúrgico nesses dois domingos resume para os catecúmenos, e recorda para toda a Igreja, a doutrina paulina fundamental do batismo: morrer com Cristo (I Domingo) e ressuscitar com Ele (II Domingo) (cf. Rm 6,3-7; Cl 2,9-15). 

Uma atenção à oração Coleta (Oração do dia) da Missa do II Domingo pode nos ajudar a entrar nessa dinâmica. Para a nossa análise apresentamos o texto latino da Coleta, a sua tradução oficial para o português e uma sugestão de tradução com fim de estudo. 

 

MR ed. typica III (2008)

Deus, qui nobis dilectum Filiuum tuum audire præcepisti, 

verbo tuo interius nos pascere, ut, 

spiritali purificato intuitu, 

gloriæ tuæ lætemur aspectu.

 

MR em Português

Ó Deus, que nos mandastes ouvir o vosso Filho amado, 

alimentai nosso espírito com a vossa palavra, para que, 

purificado o olhar de nossa fé, 

nos alegremos com a visão da vossa glória.

 

Sugestão de tradução

Ó Deus, que nos prescrevestes ouvir o vosso Filho amado, 

alimentai o mais íntimo de nós com a vossa palavra, para que, 

purificado espiritualmente o nosso modo de ver (todas as coisas), 

nos alegremos por meio da visão da vossa glória.

 

SOBRE A SUA PROCEDÊNCIA

 

Nos antigos Sacramentários para este domingo encontramos a indicação Dominica vacat(Domingo “livre”). De fato, na Igreja de Roma, neste domingo não havia missa, propriamente falando. Na noite do sábado anterior, o papa ordenava os presbíteros e diáconos durante uma longa vigília de oração composta por salmos, orações e 12 leituras em latim e grego (como na Vigília Pascal) na qual se mantinha o uso das duas línguas eclesiásticas – primeiro o grego e depois o latim – para demonstrar a função de unidade e comunhão do ministério ordenado. É interessante notar que o sacramento da Ordem era celebrado em preparação para a Páscoa e durante uma vigília semelhante à pascal, exatamente porque o mistério pascal se apresenta como a origem e a forma de todos os sacramentos que nos unem ao Senhor de Jesus. 

A fórmula eucológica em análise é, portanto, contemporânea, ou seja, aparece como tal pela primeira vez no Missal Romano “de Paulo VI” (1970-2008), porém tem suas raízes no Liber Mozarabicus Sacramentorum, testemunha da liturgia celebrada na Península Ibérica nos séculos VII-IX, antes da implantação do rito romano, a partir do séc. XI[1]. Trata-se de uma reelaboração da Inlatio da Missa de VI feria in seconda hebdomada de quadragesima[2]. Na liturgia hispânica o rito da paz sucedo o ofertório e precede o cânon, como parte do prefácio. A Inlatio é a oração prefacial de conexão ente o canto para a paz e o Sanctus da Oração Eucarística:

 

Dignum et iustum est, equum uere as salutare est, nos tibi gratias agere...

Ipse est enim panis uiuus et uerus, qui est et substantia eternitatis et esca uirtutis. Verbum enim tuum est, per quod facta sunt omnia... / Huius panis alimento Moyses famulus tuus quadraginta diebus ac noctibus legem suscipiens ieiunauit, et carnalibus cibis ut tue suauitatis capacior esset abstinuit: de uerbo tuo uiuens et uolens... Inde nec famem sensit, et terrenarum est oblitus escarum: quia et illum glorie tue glorificabat adspectus, et influente Spiritu Sancto sermo pascebat interius[3].

 

Não fazendo parte do mesmo gênero eucológico, a oração sofreu mudanças, passando de uma eucologia maior (prefácio) para se transformar numa eucologia menor (coleta). A fonte não é “apenas uma fonte distante”, mas também forneceu citações explícitas para a composição da nova oração, como evidenciado.

DISCURSO SOBRE AS FONTES

Na base desta Coleta está a narração da transfiguração (Mt 17,1-13; Mc 9,2-13; Lc 9,28-36). Conservando as reminiscências do Sacramentário moçárabe, recorda algumas ideias dos Padres, como, por exemplo, a relação intuitus-aspectus que encontra-se nos Livros sobre Abraão[4] de Santo Ambrósio e o tema da Palavra que nos alimenta interiormente recorda o “Mestre interior” de Santo Agostinho, matéria amplamente desenvolvida no Comentário ao Evangelho de São João[5] e na Doutrina Cristã[6].

  Baseando-se na riquíssima tradição bíblica e patrística e, no seu contexto celebrativo, a Coleta não só encerra os Ritos de Introdução, mas também introduz de forma sábia e precisa a Liturgia da Palavra. O sujeito dessa oração, como de resto, de toda prece romana, é Deus Pai que convida a Igreja reunida a escutar a palavra do Verbo Encarnado (cf. Jo 1,14), reconhecida como seu diléctum Fílium. É desejo da Igreja nutrir-se desta Palavra na dimensão da escuta (auditiva) e da participação no mistério eucarístico (gustativa). A Palavra, Jesus Cristo, está de fato presente no anúncio da Escritura e “sobretudo sob as espécies eucarísticas” (SC 7).

ANÁLISE DA ESTRUTURA

A oração da liturgia romana clássica, na grandeza do seu estilo literário, se distingue por sua precisão, brevidade, praticidade, solene dignidade formal, clareza de expressão, profundidade teológica e sobriedade. Nos seus elementos teológicos, a oração é sempre dirigida ao Pai, por Cristo, no Espírito Santo. A Coleta, oração tipicamente romana, é o melhor exemplo.

A sua estrutura é composta por cinco elementos: Invocação, geralmente breve, com poucos atributos, anamnese, pedido, finalidade do pedido (às vezes se omite), conclusão, longa ou breve, que sublinha a mediação de Cristo e aclamação da assembleia. Quatro são as suas dimensões, a saber: bíblico/anamnética, epiclética, doxológica e comunitária. A essas dimensões correspondem quatro fundamentos: Cristológico-pneumatológico, teândrico, eclesiológico e simbólico.

A DIMENSÃO ANAMNÉTICA

A anamnese, “a primeira nota distintiva da oração cristã”[7], é um constante memorial das obras de Deus. É o conjunto de elementos teológicos presentes nas passagens escriturísticas do texto litúrgico. Uma análise minuciosa da nossa Coleta colocaria em evidência os inúmeros textos bíblicos que a constituem, quase como uma coxa de retalhos: o preceito da escuta, tipicamente deuteronômica e sapiencial (cf. Dt 6,4-25; Sl 77[78],1; 84[85],8, etc.); a meditação da palavra como alimento (cf. Dt 4,36; 8,3; Sl 106 (107),20; 118 (119),25.107; Jo 6,63.68); a purificação do olhar (cf. I Jo 3,2; Ap 22, 4-5) e a alegria da graça de ver a glória de Deus, manifestada, por exemplo, em Jó (cf. Jó 42,5) e no velho Simeão (Lc 2,29-32). 

Tomemos em consideração o termo Verbo (Palavra). O vocábulo está associado à figura de Cristo, Filho e parte integrante do próprio Deus Pai, como testemunham as Sagradas Escrituras. Esta mesma Palavra tornou-se o coração do Kerygma, como atesta o evangelista João (cf. Jo 1,1-5.14). A Coleta pretende re-cor-dar aquela ordem/convite/preceito do Pai para ouvir o seu Filho, a Palavra através da qual ele mesmo alimentou o seu povo no êxodo da primeira e segunda alianças – “Este é o meu Filho amado: escutai-o!”, diz o Evangelho do dia.

A DIMENSÃO EPICLÉTICA

Na nossa oração não encontramos explicitamente uma invocação epiclética, isto é, uma invocação de intervenção direta do Espírito Santo. No entanto, sabemos pela mensagem do Evangelho que é precisamente o Espírito Santo que recorda à Igreja as palavras ditas por Jesus: “O Consolador, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo quanto vos disse” (Jo 14,26). É o mesmo Espírito que capacita a Igreja a escutar frutuosamente a Palavra de Deus “não como ouvinte que facilmente se esquece, mas como cumpridor fiel do preceito” (Tg 1,25) e ainda é Ele quem opera aquela transformação misteriosa em que a Palavra se torna alimento (simbólico) que sustenta a vida da Igreja, como atestam os Padres:

 

Este pão, que Deus Verbo reconhece como seu corpo, é o Verbo que alimenta as almas, o Verbo que procede de Deus Verbo, o pão que vem do pão celeste colocado sobre a mesa [...]. E a bebida é aquela que o Deus Verbo reconhece como seu sangue, a Palavra que magnificamente rega e inebria os corações de quem a bebe [...]. Esta bebida é produzida a partir da videira verdadeira que diz: eu sou a videira verdadeira [...]; como pão, é a Palavra de Cristo feita daquele grão que caído na terra dá muito fruto. Com efeito, não aquele pão visível que tinha nas mãos, o Deus Verbo chamou o seu corpo, mas o Verbo em cujo mistério esse pão devia ser partido. E não era aquela bebida visível que ele chamava de seu sangue, mas a Palavra em cujo mistério essa bebida deveria ser derramada. De fato, o que mais poderia ser o corpo ou o sangue do Deus Verbo, senão o Verbo que alimenta e o Verbo que alegra o coração?[8]

A DIMENSÃO DOXOLÓGICA

A palavra grega “doxologia” (δοξολογια – δοξα: louvor + λογία: palavra) significa glorificar com palavras. Glorificar ou dar glória, no mundo bíblico, geralmente indica uma narrativa. A ação de graças no mundo bíblico era expressa pela narração de algo sobre alguém. Assim, em nossa Coleta, a dimensão doxológica coincide claramente com a dimensão anamnética, isto é, o reconhecimento público e solene do apelo daquele Pai aos discípulos para que escutem seu Filho: nobis diléctum Fílium tuum audíre præcepísti.

A escuta do Filho é a ação de louvor que o Pai mais aprecia, e a Igreja eleva este sacrifício de louvor ao Pai quando em cada assembleia litúrgica “inclina o ouvido do coração” (Regra de São Bento, prol. 1) para escutar atentamente o anúncio litúrgico das Mirabilia Dei; no entanto, esta escuta/glorificação não se faz apenas com o ouvido, mas envolve todo o homem, levando-o a uma relação muito próxima com a Palavra de Deus proclamada e com Aquele que a anuncia no seio da assembleia, que é sempre Jesus Cristo. De fato, ele “está presente na sua palavra, porque é ele quem fala quando as Sagradas Escrituras são lidas na Igreja” (SC 7).

A DIMENSÃO COMUNITÁRIA

Nos textos litúrgicos sempre encontraremos a Igreja, os fiéis, o povo, o “nós”, porque na celebração litúrgica nunca há uma oração pessoal ou individual. Ao longo da eucologia, a Igreja sempre reza no plural. A análise da dimensão comunitária do texto em questão permite ver como a Igreja manifesta o seu rosto na oração. É a dimensão estética da Igreja que revela o elemento fundador: a Assembleia. 

A Igreja/assembleia na Coleta se revela nos vários verbos. É ela quem é “convidada a ouvir” – audi filia et vide et inclina aurem tuam (Sl 44(45) 11) – aquele que tem as palavras de vida eterna (audíre præcepísti); é ela que se alimentou da Palavra de Deus (simbólica) (verbo tuo intérius nos páscere dignéris); é ela que foi purificada por Deus de todas as manchas; ela que se tornou “toda gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, santa e imaculada” (Ef 5,27 –  spiritáli purificáto intúitu); ela é, finalmente, aquela que foi destinada a desfrutar da glória futura (glóriæ tuæ lætémur aspéctu).

OS QUATRO FUNDAMENTOS

A Coleta é profundamente cristológica (fundamento Cristológico-pneumatológico). Nela é o próprio Pai, o agente primeiro e principal, a concentrar toda a sua atenção no Filho por meio do convite à Igreja de recordar que o Filho é a Sua Palavra que alimenta e, por isso, deve ser escutado. Assim, a imagem de Deus é a da manifestação de modo epifânico na história humana sob a forma de um Pai que nutre e purifica os seus (fundamento teândrico). 

O fundamento eclesiológico reside no fato de ser toda a Igreja chamada a escutar, como forma de re-cor-dação das maravilhas de Deus: “Hodie si vocem eius audieritis nolite obdurare corda vestra” (Sl 94,8). 

Finalmente, o fundamento simbólico reside no fato de que a Palavra (Verbo), da categoria da ação, se torna nutrição (“Alimento da vida eterna”). “Ele, pois, humilhou-te, deu-te fome, depois alimentou-te com o maná, que não conhecias e que os teus pais nunca conheceram, para te fazer compreender que o homem não vive somente de pão, mas do que vem boca de Deus” (Dt 8,3).

ELEMENTOS DE EXEGESE

 

Ao menos três elementos de teologia fundamental emergem da análise dessa Coleta: A filiação divina, a eficácia da Palavra de Deus e a redenção.

 

A filiação divina. A Coleta expressa a relação entre Deus e Jesus no nível de paternidade e filiação. A primeira leitura dos três anos apresenta a figura de Abraão (A: Gn 12, 1-4a; B: Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18; C: Gn 15,5-12.17-18), evidenciando-o como “pai” da fé, imagem tipológica de Deus, o Pai. A primeira leitura do ano B recorda a dimensão do “filho unigênito e amado, Isaac” (Gn 22,1-2) tipo de Jesus que, carregando a cruz sobre os ombros, realizava o sacrifício redentor. Jesus é o Filho amado, a alegria (o Isaque) do Pai. O Salmo responsorial dos três anos explica o nível de relação paterna/filial que se baseia no cumprimento da vontade (A: Sl 32; B: Sl 115; C: Sl 26). Na segunda leitura, o tema da paternidade/filiação se torna evidente na relação de São Paulo com Timóteo (A: 2Tm 1,8b-10), chamado, no incipit da leitura, pelo apelativo “meu filho”, na exortação paternal à comunidade de Roma (B: Rm 8,31b-34) e no convite à imitação dirigido à comunidade dos filipenses (C: Fl 3,17-4,1), assim como Jesus imita sempre o Pai (cf. Jo 5,19).

 

A eficácia da Palavra de Deus. No confronto com os homens – filhos no Filho (dimensão eclesial) – ao longo da história Deus mostrou-se Aquele que desde o início tomou a iniciativa do diálogo (“Adão, onde estás?” Gn 3,9), usando a mesma palavra com que fez todas as coisas (“A palavra do Senhor criou os céus, e o sopro dos seus lábios, as estrelas” Sl 33[34],6). Esta Palavra se encarnou “na plenitude dos tempos” (cf. Gl 4,4) trazendo a salvação para Adão. É suficiente uma única palavra Sua para que anjos, demônios, homens (“Senhor, não sou digno de que entres em minha casa, dize apenas uma palavra e meu servo ficará curado” – Mt 8,8) e toda a natureza se prostre em obediência ao Pai, porque “a Palavra de Deus é viva, eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes e atinge até a divisão da alma e do corpo, das juntas e medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração. Nenhuma criatura lhe é invisível. Tudo é nu e descoberto aos olhos daquele a quem havemos de prestar contas” (Hb 4,12-13). Com esta Palavra o Pai sustenta a Igreja.

 

Redenção. A Coleta evidencia a obra de purificação dos “olhos do nosso espírito” como sinal daquela purificação que aconteceu com a morte redentora do Filho amado do Pai, “que é a irradiação de sua glória e a marca de sua substância e sustenta tudo pelo poder de sua palavra, depois de ter realizado a purificação dos pecados, ele sentou-se à direita da majestade nas alturas, e tornou-se tão superior aos anjos na medida em que o nome que herdou era mais excelente do que o deles” (Hb 1,3-4). Foi ele que com a sua morte e ressurreição “obteve para nós a redenção eterna” (Hb 9,12). Ele é Aquele “em quem temos a redenção pelo seu sangue” (Ef 1,7). De fato, os santos da nova aliança “são aqueles que passaram pela grande tribulação e lavaram as suas vestes e as alvejaram com o sangue do Cordeiro” (Ap 7, 14).

ALIMENTO PARA UM CAMINHO QUARESMAL

Do Sinai ao Tabor: encontrar Jesus - mediador da nova e eterna Aliança - nas dobras da Escritura. A liturgia diz que hoje Deus nos manda ouvir o seu Filho amado. Esta é a ordem que o Pai deu aos três discípulos “privilegiados” que viram com os próprios olhos o que aconteceu no Tabor, mas hoje o mandamento do Pai é dirigido a nós. Tudo isso só é possível se a celebração nos convencer de que nela participamos mistericamente, isto é, sacramentalmente, por meio dos ritos e das preces (cf. SC 48) do mesmo acontecimento. E de fato é assim! No Sinai, o Senhor escondeu-se na nuvem, escondeu-se nas palavras da Lei gravadas na pedra, falou ao seu povo, melhor, apareceu, tornou-se “visível” “velando-se”, “cobrindo-se”, visto que o esplendor da Sua glória era inacessível. Hoje, no Tabor, Jesus “desvela” esta glória, torna-a abertamente visível, descobre o véu da sua humanidade e transfigura o esplendor do Pai que nele habita plena e corporalmente: “Ele é a imagem visível do Deus invisível” (Col 1,15). 

A primeira opção de Antífona da Entrada (Sl 26,8-9) – Meu coração vos disse: “Busquei a vossa face”, é vossa face, Senhor, que eu procuro. Não desvieis de mim o vosso rosto! – cheia do afeto e da angústia grávida de esperança dos pais da Primeira Aliança, não somente abre toda a “ação eucarística” desse domingo específico, mas indica, dentro do contexto quaresmal, a majestade da misericórdia eterna do Pai que, finalmente, em Jesus, não desvia o rosto de quem o procura de coração sincero.  

A Antífona do Ofertório – Meditabor – apresentada pelo Gradual Romano, parafraseando o Sl 118(119), 47-48, diz: “Meditarei os teus preceitos que amo e levantarei as minhas mãos para acariciar os teus mandamentos. Os preceitos do Senhor são doces e suaves. A glória de Deus estava presente, escondida, na Lei (Moisés), a glória de Deus estava presente, escondida, nas dobras da Escritura que os profetas perscrutavam (Elias): hoje, em Jesus, essas dobras se estendem, são ‘explicadas’ e vemos a Sua glória face a face”.

2) “Alimentai o mais íntimo (interius nos) de nós com a vossa palavra”. O advérbio interius (interior), no contexto dessa oração e de toda liturgia desse segundo domingo pode indicar duas dimensões de um mesmo pedido: guiar-nos ao mais íntimo do mistério que hoje nos foi revelado e guiar-nos ao mais íntimo de nós mesmos. Para Santo Agostinho a verdade habita no interior do homem. Quem entra nas profundezas de si mesmo para encontrar Deus também desce nas profundezas de Deus. É evidente que a Transfiguração é uma revelação e que a liturgia da Igreja a interpreta como um dom místico, mas o tempo quaresmal não é outra coisa senão um tempo místico de encontro entre o olhar de Deus e o olhar da Igreja. Hoje a porta do abismo está escancarada para nós, para o oceano infinito e doce do mistério de Deus e nós o encontramos em nós porque é aqui que mora o nosso Mestre interior. É óbvio que tudo isso só é possível na medida em que obedecemos ao seu Filho amado. Sem obediência à sua Palavra, se formos ao fundo de nós mesmos, encontraremos ali uma solidão mortal; se ouvirmos e amarmos a sua Palavra, descendo em nós, nós o encontraremos.

3) Finalmente, o que se deseja pedir é o dom da alegria, que a Igreja encontra somente “por meio da visão da (vossa) glória”. Eis o grande segredo do que foi batizado: ele já vive hoje na visão da glória! A linguagem mística e sacramental de Santo Ambrósio nas suas catequeses mistagógicas tornam-se aqui evidentes em todo o seu peso. A escuta do Verbo encarnado dá ao homem uma experiência antecipada da visão beatífica, quando veremos Deus como ele é e veremos tudo como é visto por Deus, experiência germinal que assume sobretudo os traços do desejo e que, de vez em quando, podemos tocar quando deixamos o Espírito de Deus agir livremente e sem os obstáculos do pecado em nós. Trata-se da purificação mística do olhar, da qual fala a Coleta.

Quem acolheu Jesus experimenta esta liberdade absoluta e esta alegria profunda. Esta experiência torna-se como um guia, quase um sexto sentido que ilustra e ilumina o caminho a seguir: tendo-o vivido, vive-se intuindo o que se deve fazer para não obscurecer a semente desta luz. Quanto mais se vive assim, mais a luz brilha; quanto mais se deixa Jesus, Mestre interior, sugerir ao coração a intuição do Espírito para obedecer sempre mais à sua palavra, mais a vida se transfigura, até que Ele mesmo se expanda dentro do ser e o transforme, a partir do mais íntimo, em si, na Sua forma. Então se é cristão. O que era intuitus passa a ser aspectus, ou seja, aquele esplendor que era de Jesus hoje brilhar em mim.

 

Dom Jerônimo Pereira, osb

Monge Beneditino, Mosteiro de São Bento de Olinda

Presidente da ASLI

 

 

Para aprofundar: 

E. Lodi, La liturgia della Chiesa, EBD, Bologna, 1981.

F. M. ArocenaLas colectas del Misal romano. Domingos y solemnidades del Señor, CLV-Ed. Liturgiche, Roma 2021.

M. Gerardo, Schedde di riflessioni sulle collette del tempo di Quaresima, Taranto 2008-2009.



[1] Cf. A. Dumas A, «Le sources du Missel Romain»Notitiae 7 (1971) 38-39.

[2] M. FérotinLe liber mozarabicus sacramentorum et les manuscrits mozarabes, CLV-Ed. Liturgiche, Roma, 1995, n. 385.

[3] M. Férotin MLe liber mozarabicus sacramentorum, coll. 176-177, n. 385.

[4] Santo AmbrósioAbramo, Biblioteca Ambrosiana – Città Nuova, Milano – Roma 1984.

[5] Santo AgostinhoCommento al vangelo di San Giovanni (26,7; 96,4; 97,1), Città Nuova, Roma 1968.

[6] Santo AgostinhoA doutrina cristã. Manual de exegese e formação cristã (4,16,33), Paulus, São Paulo 2002.

[7] E. Lodi, La liturgia della Chiesa, EBD, Bologna 1981, 140.

[8] OrígenesCommento a Matteo 85, Series 2, Città Nuova, Roma 2006, 91-92.

 
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