UM CAMINHO QUARESMAL “POR MEIO DAS PRECES” A ORAÇÃO COLETA DO V DOMINGO DA QUARESMA

UM CAMINHO QUARESMAL “POR MEIO DAS PRECES”

A ORAÇÃO COLETA DO V DOMINGO DA QUARESMA

 

Chegamos ao V domingo da Quaresma, um domingo com as suas particularidades. Antigamente esse domingo era denominado o domingo Iudica me Deus, por causa do primeiro versículo do Introito da Missa, como acontece ainda hoje com o IV domingo. O Missal conserva essa antífona, mudando, todavia, alguns aspectos do conteúdo teológico, a partir do lecionário e do formulário, o depósito eucológico.

Dentro do percurso catecumenal, nesse domingo celebra-se o terceiro escrutínio em preparação ao batismo dos catecúmenos que na Vigília pascal serão admitidos aos sacramentos de iniciação cristã. Portanto, tem-se a possibilidade do uso do formulário próprio para quando se celebra esse escrutínio.

A rubrica que abre o formulário desse domingo, recorda a possibilidade de “conservar o costume de a partir deste domingo cobrir as cruzes e imagens da igreja”, obviamente, a juízo da Conferência Episcopal. Até onde sabemos, a CNBB nunca emitiu uma nota explicativa relativa a essa prática devocional. A rubrica prossegue recordando que a cruz permanece velada até o fim da celebração da Paixão do Senhor, na Sexta-feira Santa e as imagens, até o início da Vigília pascal. Tal costume vem do fato que no Ordo precedente, com esse domingo começava o chamado “Tempo da Paixão do Senhor”. 

A cobertura das imagens era para significar, segundo Arocena, uma espécie de “morte litúrgica” da Igreja, um subir para Jerusalém com o seu Senhor. Ao participar das celebrações, a Igreja é coparticipante do mistério de paixão, morte e ressurreição do Senhor. A oração depois da comunhão do 26º Domingo do Tempo comum, uma bricolagem entre um texto do Sacramentário Veronense (VI século) e outro do Missa Parisiense de 1738, apresenta a celebração litúrgica como o lugar do compadecimento, do “padecer com” Cristo da sua morte para tornar-se “co-herdeiro” da sua glória: 

 

Sit nobis, Dómine, reparátio mentis et córporis cæléste mystérium, ut simus eius in glória coherédes,cui, mortem ipsíus annuntiándo, compátimur.

 

Senhor, que o sacramento celeste seja para nós reparação da mente e do corpo, para que sejamos co-herdeiros na sua glória, daquele do qual somos compadecedores e cuja morte temos anunciado.

 

O verbo compatimur é uma composição do adverbio com + pati, que a Vulgata traduziu do grego sym-pathein, indica que a celebração é o lugar onde se dá o encontro e da mística contemporaneidade entre a morte regeneradora e gloriosa de Jesus Cristo com o hoje da Igreja celebrante.

Para significar a entrada no “Tempo da Paixão”, da segunda-feira em diante, durante toda a semana, usa-se o Prefácio da Paixão do Senhor I, e na segunda, terça e quarta-feira da semana Santa, Prefácio da Paixão do Senhor II.

A COLETA

Chegamos ao quinto domingo da Quaresma e contemplamos o Cristo que se prepara para a sua Páscoa e o evangelista João, nos últimos domingos, tem descrito o seu caminho com o fim de dispor toda a Igreja para enfrentar com Cristo esse momento dramático. A cruz e o túmulo vazio serão os lugares onde a glória de Deus se manifestará de maneira sublime. No entanto, para chegar a esses lugares, a Quaresma apresenta-nos uma série de lugares de manifestações da glória de Deus, como um caminho catequético: de lugar em lugar rumo aos Lugares por excelência. Então, no I domingo: a tentação (o deserto), no II Domingo: a transfiguração (a alta montanha), no III domingo: a sede (o poço), no IV Domingo: a cegueira (o cego de nascença) e nesse domingo, este lugar é a morte. Em todos esses lugares de ausência, a glória de Deus se manifestou como presença. A Coleta desse domingo pode ajudar a Igreja a entrar nesse grande mistério.

O texto latino da Coleta, presente no monumental Corpus orationum, n. 591[1], no Missl Romano editio typica tertia (MR3) 2008[2] se apresenta da seguinte forma:

 

Quǽsumus, Dómine Deus noster, ut in illa caritáte, qua Fílius tuus díligens mundum morti se trádidit,inveniámur ipsi, te opitulánte, alácriter ambulántes.

 

Não tendo passado por nenhuma espécie de reformulação, essa oração se apresenta da mesma forma como foi recebida do MR3 2000 (p. 255); que, por sua vez, tinha sido recebida pelo MR editio typica altera 1975 (p. 216) [3], de onde vem a atual tradução para o Brasil (1991); que a recebera do MR editio typica de 1970 (p. 216)[4]. No nosso Missal encontramos a da seguinte tradução:

 

Senhor nosso Deus, dai-nos, por vossa graça, caminhar com alegria na mesma caridade que levou o vosso Filho a entregar-se à morte no seu amor pelo mundo

 

Apresentamos, com o escopo de estudo uma tradução mais literal:

 

Vos pedimos, Senhor e nosso Deus, que, naquela mesma caridade que moveu o vosso Filho a entregar-se à morte, avancemos, com a vossa ajuda (socorro), animadamente (com entusiasmo e ardor: alegria).

SOBRE A SUA PROCEDÊNCIA 

Essa oração não figurava no Missal Romano na sua forma precedente ao Concilio Vaticano II, portanto é uma oração de nova composição. Os compiladores se inspiraram na liturgia hispânico-moçárabe, mais precisamente na Oração Ad Pacem do II domingo depois da VIII da Páscoa do Liber Mozarabicus Sacramentorum[5]:

Christe Deus, qui inter inimicos suspendi passus es, crucis sostinendo iniuriam, dato nobis perfecte vite tolerantiam, ut charitáte illa, qua Filius tuus ipse mundum díligens pro eodem mortem subiisti, inveniámur ipsi, te opitulánte, perfecti. Sicque passionais tue exemplum illata toleremus scandala, ut, sanguine crucis tue omnia pacifiante, capitis nostri mereamur effici membra. Per dominum.

Cristo Deus, que foste pendurado entre os malfeitores, suportando a infâmia da cruz, concede-nos a constância que conduz à vida perfeita, para que, graças à caridade com que amaste o mundo até abraçar por ele a própria morte, possamos ser achados perfeitos com a ajuda dessa mesma caridade. E assim, imitando os exemplos da tua paixão, suportemos os escândalos que surgem e, pelo sangue da tua cruz, que tudo pacifica, mereçamos ser teus membros, já que és a nossa cabeça. Por nosso...

            Liber Mozarabicus Sacramentorum se tornou fonte para outros dois elementos do depósito eucológico do Missal dito de Paulo VI, a saber: a oração Depois da Comunhão do I Domingo da Quaresma e a Coleta do II Domingo. A oração desse domingo, está extremamente ligada ao tema do mistério da cruz, por isso muito propícia para este domingo em vista do “Tempo da Paixão”.

ANÁLISE DA ESTRUTURA E DISCURSO SOBRE AS FONTES

Essa Coleta tem uma distribuição arquitetônica atípica. Tudo começa com a primeira epiclese (Quaesumus – Vos pedimos), seguida imediatamente da invocação, que contêm dois vocativos: Domine + Deus noster (Senhor e nosso Deus). Os dois vocativos aparecem em maiúsculo quase para sublinhar a grandeza de Deus diante da pequenez do verbo defectivo quaeso, um verbo “defeituoso”, que possui conjugação incompleta, ou seja, não se conjuga em todos os modos, tempos e pessoas. O verbo quaeso é usado no Missal Romano duas vezes no singular do presente do indicativo (Prec. Pascal; Preparação para a Missa: Oração de São Tomás de Aquino) e setecentos e oitenta e sete vezes ao plural. Das 787 vezes, encabeça essa Coleta e mais outras três (07.08: S. Sisto, Papa; Com. Mártires; Fiéis defuntos [2x]), Sobre as Oferendas, três vezes (19.02: S. José; Fiéis defuntos [2x]), Depois da Comunhão, onze vezes (fVI depois fIV de cinzas; fV HbI TQ; fIV HbII TQ; domV HbV TQ; HbXXXIV TC; 14.08: S. Maximiliano; 07.10: BVM do Rosário; Com. Santos e Santas [2x]; Vot. N. Sr. JC sumo e eterno sacerdote; Fiéis defuntos), uma vez como pré-sanctus da IV OE e uma vez na conclusão da Or. dos fiéis para o TN).

À invocação segue uma frase complementar (ut in illa caritáte – naquela mesma caridade) que abre a anamnese e conduz à segunda epiclese. Na parte anamnética encontramos pela primeira vez uma referência à morte de Cristo numa Coleta dominical quaresmal: qua Fílius tuus díligens mundum morti se trádidit (que moveu o vosso Filho a entregar-se à morte). Devemos esperar o Domingo de Ramos para escutarmos o quarteto cruz, paixão, morte e ressurreição:

 

Deus eterno e todo-poderoso, para dar ao gênero humano um exemplo de humildade, quisestes que o nosso Salvador assumisse a condição humana e morresse na cruz. Concedei-nos aprender os ensinamentos de sua paixão e participar de sua ressurreição.

 

O verbo está no presente do indicativo, indicando que a entrega de Cristo se realiza no nosso presente de modo sacramental sobre o altar, no rito eucarístico. A anamnese se apresenta profundamente joanina:

 

Nisto consiste o amor: não em termos nós amado a Deus, mas em ter-nos ele amado, e enviado o seu Filho para expiar os nossos pecados. Caríssimos, se Deus assim nos amou, também nós nos devemos amar uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus. Se nos amarmos mutuamente, Deus permanece em nós e o seu amor em nós é perfeito. Nisso é que conhecemos que estamos nele e ele em nós, por ele nos ter dado o seu Espírito. (I Jo 4,10-13)

 

A segunda epiclese invoca a graça de avançar, prosseguir a caminhada, com a ajuda do Senhor, vivendo a mesma dimensão de amor total: “amar como Jesus amou”, recordando que “ninguém tem maior prova de amor do que dar a vida por seus amigos” (Jo 15,13-15) e, como o Cristo o fez, amar até os inimigos, orando por eles nos momentos mais dramáticos da cruz (cf. Mt 5,37-47; Lc 23,34). Não se trata somente de imitar a caridade de Cristo, mas sim de viver e morrer do mesmo amor.

Essa teologia do divino comércio, onde ele assume o que é nosso para que assumamos o que é dele, é uma constante na prece da Igreja:

 

Senhor, seja do vosso agrado a oferenda da festa de hoje e, por este admirável intercâmbio, dai-nos participar da divindade do vosso Filho que elevou à comunhão convosco a nossa humanidade (Sobre as Oferendas, Natal, Missa da Noite). 

Deus eterno e todo-poderoso, pelo vosso Filho Unigênito nos fizestes nova criatura para vós. Dai-nos, pela vossa graça, participar da divindade daquele que uniu a vós a nossa humanidade (Coleta, sábado depois da Epifania).

A Igreja-Esposa percorre os últimos fragmentos de estradas do seu Esposo rumo ao calvário, apoiada à sua cruz, como a esposa do Cântico dos Cânticos se apoia nos seus braços (cf. Ct 8,5). O caminho do amor extremo de Jesus o levou a “morrer pelo povo”, mas sobretudo, morre “não somente pela nação, mas também para que fossem reconduzidos à unidade os filhos de Deus dispersos” (Jo 11,50.52). Jesus vive essa experiência em chave oracional quando a sua grande oração sacerdotal: “Pai justo, o mundo não te conheceu, mas eu te conheci, e estes sabem que tu me enviaste. Manifestei-lhes o teu nome, e ainda hei de lhes manifestar, para que o amor com que me amaste esteja neles, e eu neles.” (Jo 17,25-26).

Cristo viveu historicamente o lenho da cruz, a morte e a ressurreição, a igreja o vive sacramentalmente, liturgicamente. O caminhar histórico de Cristo é uma decisão corajosa e determinante: Aproximando-se o tempo em que Jesus devia ser arrebatado deste mundo, ele resolveu dirigir-se a Jerusalém” (Lc 9,51); o caminhar esponsal eclesiológico é igualmente decisivo: “cheio de alegria, entusiasmo e ardor, naquela mesma caridade/amor o moveu a entregar-se à morte”.

Aqui a Coleta se torna uma releitura orante da realidade esponsal que determina a relação entre Cristo e a Igreja, apresentada por S. Paulo em Ef 5,2:

 

et ambulate in dilectione, sicut et Christus dilexit nos et tradidit seipsum pro nobis oblationem et hostiam Deo in odorem suavitatis.

 

Progredi na caridade, segundo o exemplo de Cristo, que nos amou e por nós se entregou a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor." 

 

in illa caritáte, qua Fílius tuus díligens mundum morti se trádidit, inveniámur ipsi, te opitulánte, alácriter ambulántes.

 

naquela mesma caridade que moveu o vosso Filho a entregar-se à morte, avancemos, com a vossa ajuda, animadamente.

 

Quǽsumus, Dómine Deus noster, ut in illa caritáte, qua Fílius tuus díligens mundum morti se trádidit,inveniámur ipsi, te opitulánte, alácriter ambulántes.

 

            Os termos paulinos são fundamentais: ambulare (caminhar), dilígere (amar), trádere(entregar), caritate/dilectione (amor). Claro está que a lex orandi na Igreja não é outra coisa senão a palavra de Deus ruminada e contemplada à luz do Ano Litúrgico e expressa em chave oracional. 

 

Dom Jerônimo Pereira, osb

Monge Beneditino, Mosteiro de São Bento de Olinda

Presidente da ASLI

 

 

 

 

 

Para aprofundar

J. C. A. Ward«the Lenten Orations for the Fourth Week in the 2000 “Missale Romanum”», EL 122 (2008) 452-510.

F. M. ArocenaLas colectas del Misal romano. Domingos y solemnidades del Señor, CLV-Ed. Liturgiche, Roma 2021.

C. Urtasun, Las oraciones del Misal. Escuela de espiritualidad de la iglesia, Centre de Pastoral Litúrgica, Barcelona 1995.

 



[1] Corpus Orationum, ed., Bertrand Coppieters ‘t Wallant (CCL 160-). Turnhout: Brepols 1992.

[2] Missale Romanum ex decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum auctoritate Pauli PP. VI promulgatum Ioannis Pauli PP. II cura recogitum, editio typica tertia emendata. Città del Vaticano: Typis Polyglottis Vaticanis 2008.

[3] Missale Romanum ex decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum auctoritate Pauli PP. VI promulgatum Ioannis Pauli PP. II cura recogitum, editio typica altera. Città del Vaticano: Typis Polyglottis Vaticanis 1975.

[4] Missale Romanum ex decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum auctoritate Pauli PP. VI promulgatum Ioannis Pauli PP. II cura recogitum, editio typica. Città del Vaticano: Typis Polyglottis Vaticanis 1970.

[5] Liber Mozarabicus Sacramentorum et les manuscrits mozarabes: réimpression de l’édition de 1912, avec bibliographie Générale de la litugie hispanique, ed. M. Férotin. Roma: CLV-Ed. Liturgiche 1995.

 
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