Um silêncio oferente
Pe. Rodrigo Arnoso
Alimentados pela Palavra de Deus, após meditá-la e rezá-la os membros da assembleia celebrante são chamados a apresentar ao Senhor, em procissão o pão e o vinho. Nestes dois sinais depositados no altar e apresentados a Deus, pelas mãos daquele que preside a ação litúrgica, a comunidade eclesial pode contemplar o fruto do seu trabalho. Juntamente com o pão e o vinho, podem se apresentar também, outras dádivas, que servirão para amenizar o sofrimento daqueles que sofrem com a falta de pão em suas mesas (IGMR 140).
O pão e o vinho apresentados pela Igreja em oração,logo após a prece eucarística e o rito da comunhão é partilhado com o corpo eclesial, que já alimentado pelo pão da Palavra agora é chamado a partilha do corpo do Senhor. Aqui contemplamos a unidade das duas mesas: a da Palavra e a da Eucaristia. Não é possível conceber uma celebração eucarística que falte uma destas mesas. Na “espiritualidade alimentada nestas duas mesas, a Igreja, em uma, instrui-se mais, e na outra santifica-se mais plenamente; pois na Palavra de Deus se anuncia a aliança divina, e na Eucaristia se renova esta mesma aliança nova e eterna (ILM 10).
Como fomos motivados a viver o gesto do silêncio litúrgico nos ritos anteriores, durante a Liturgia Eucarística também somos impelidos a experienciá-lo. A observar neste gesto, um caminho mistagógico que continua a nos guiar para o coração do mistério que estamos celebrando e atualizando, per ritus et preces. Por isso, pensamos que aqui seja oportuno recordar, que a ação de se silenciar, para acompanhar os gestos de acolher, dar graças, abençoar e distribuir o pão e o vinho consagrados, seja amaior expressão de nossa profissão de fé, isto é, estamos diante de um mistério que precisa ser contemplado, com o escopo de ser acolhido pela comunidade como alimento, que gera unidade, fraternidade, solidariedade e justiça.Uma vez mais, podemos constatar a unidade das duas mesas. “Numa, recorda-se a história da salvação com palavras; na outra, a mesma história se expressa por meio de sinais sacramentais da Liturgia” (ILM 10).
Durante a Liturgia Eucarística a assembleia reunida,acompanha atentamente e silenciosamente a voz do presidente da celebração seja ele o bispo ou presbítero, àqueles a que cabe à presidência da assembleia eucarística.Os gestos que estes realizam, como presidentes da oração comum e as palavras que pronunciam como representantes de Cristo, que é o verdadeiro presidente da celebração, motiva um frutuoso diálogo, entre presidência e assembleia celebrante. Aqui vemos intercalar a voz do presidente da ação litúrgica com a voz do povo de Deus congregado. O diálogo orante que aqui se constrói, é continuidade da oração que teve seu início, no convite de Deus, aos membros do seu povo, para se congregarem em assembleia, com o intuito de que participando do ministério sacerdotal de seu Filho, por Ele, no Espírito façam chegar ao seu coração um culto, que deve promover a santificação de toda à humanidade (SC 7).
A oração experimentada pela assembleia celebrante neste momento, se constrói na alternância da palavra pronunciada e do silêncio que conduz a contemplação do Mistério, que se revela por sinais, gestos, símbolos e palavras a comunidade reunida. Porém, na Liturgia Eucarística podemos ressaltar ao menos três momentos fundamentais de silêncio a saber: durante a prece eucarística, após a distribuição do pão e do vinho consagrados e no oremos da oração pós comunhão. Estes momentos são precedidos por uma valiosa sequência de orações, que continuam, no desdobrar ritual da celebração da eucaristia, a nos desvelar o sentido do Mistério Pascal,para toda a comunidade eclesial. Faz-se mister aqui asseverar que:
O rito da missa deixar-se á aos poucos remodelar em sua forma eucarística com dois eixos centrais: discipulado, nem duro, nem suave, mas de acordo com a radicalidade efetivamente possível às pessoas, e partilha, compreendida como um partir o pão que nasce de um ato de graça (gracioso e gratuito) do Senhor Jesus, e que convoca as liberdades das pessoas (racionalidade e afetos) a entrar nessa lógica (Florio, 2023, p. 271).
O silêncio durante a prece eucarística nos convida a duas ações a da contemplação e a da adoração. Contemplar significa enxergar além daquilo que os nossos olhos podem ver. É entrar no coração do Mistério, permitindo que ele nos envolva por inteiro, a fim de que sejamos transformados nele. O gesto de contemplar o Senhor que se faz alimento no altar, deve revelar o desejo da comunidade que se deixa tocar por Ele e ao mesmo tempo se transformar pelo seu Espírito. A prece eucarística que o presidente e aqueles que concelebram recitam, em nome da assembleia é um caminho mistagógico, que contribui para a compreensão do que e viver a oração cristã e quem é o seu fundamento. Como nos assevera Ferrari: “A Oração Eucarística nos diz que Deus é cognoscível por meio da história, em uma experiência narrativa. De fato, na Oração Eucarística, nós descobrimos que Deus não é uma realidade para conhecer antes e somente racionalmente, mas para encontrar na oração e no diálogo” (Ferrari, 2022, p. 122).
Ao lado da contemplação somos chamados também ao silêncio de adoração. Este gesto deve ampliar no coração do orante o desejo de logo mais aproximar-se da mesa do banquete, a fim de receber o corpo e sangue do Senhor, que logo mais será dividido e se entregará em favor de toda a comunidade. Este silêncio sobretudo, o vivemos durante a narrativa do memorial
Contemplar e adorar o Senhor silenciosamente neste momento é fruto da oração de uma comunidade eclesial, que alimentada pela Palavra de Deus, agora espera ansiosamente para alimentar-se do seu corpo e sangue, que contribui, para a unidade de toda a Igreja. O Mistério que a assembleia contempla com os seus olhos é a manifestação mais concreta de um Deus, que continua em meio à sua comunidade. Chegar a este momento da celebração é ter a consciência de um caminho que foi sendo construído, desde o momento da primeira ação ritual da celebração que é o canto inicial. Infelizmente, o silencia que deveria nos ajudar a entender e a viver a unidade da prece eucarística é quebrado com o dobrar das sinetas. Isto demonstra que ainda não compreendemos os muitos propósitos da reforma e renovação da vida litúrgica da Igreja. No passado a sineta tocava, a fim de orientar aqueles que estavam rezando outras orações, durante a missa, a suspendê-las naquele momento e depois da narrativa poderiam retomá-las. A liturgia há muito vinha sendo compreendida como um serviço do clero. Todavia, arenovação e a reforma da liturgia, nos apontou um outro caminho de reflexão. Agora não seguimos mais um ritus servandus, mas a Igreja nos propõe um ritus celebrandi. Não somos chamados a viver apenas alguns momentos da celebração, mas no exercício de um ministério, devemos viver toda a ritualidade de uma celebração, como caminho mistagógico de encontro com o Senhor (DD 10). Rezar e participar da prece eucarística como assembleia é inteligir que: “Na Oração Eucarística, a narração das obras de Deus para a salvação da humanidade é relida e interpretada na epiclese e na narrativa institucional à luz da Páscoa de Jesus que transforma a vida do fiel, a fim de não mais vivermos para nós, mas para ele, que por nós morreu e ressuscitou” (Ferrari, 2022, p. 125). Para acolhermos tal verdade é preciso silenciar-se e deixar-se educar pelo Mistério que se dá a nós em cada ação litúrgica.
Ainda precisamos recordar o silêncio após a nossa participação na mesa do banquete. Este silêncio se une aquele que fazemos depois da homilia, que é um convite para ruminarmos a Palavra anunciada e meditada, por aquele que preside a assembleia. O silêncio após o rito da comunhão, nos recorda que a participação no banquete do Senhor, confirma o nosso desejo de sermos com Cristo um único corpo. Nos faz conscientes de que a concretude do reino de Deus está na partilha, que nos faz irmanados em um único ideal, isto é, viver por, com e em Cristo. Quando não permitimos o silêncio neste momento, perdemos a oportunidade de escutar a voz do Mistério, que deseja nos formar para uma vida segundo o Espírito de Deus. “Aceitar que Jesus viva em nós a sua vida, a sua oferta ao Pai, a sua oração – Abbá – significa aceitar arriscar a própria vida” (Monges Cartuxos, 2024, p. 65).
Por isso, uma das grandes tarefas para as nossas assembleias litúrgicas e sobretudo, para aqueles que exercem o ministério do coro é de que ao término da distribuição do corpo e sangue do Senhor se cesse o canto, a fim de que a Igreja em oração, tenha a oportunidade de se recolher, buscando rezar o sentido de sua participação no banquete do Senhor. Tal oração não é uma fuga da assembleia celebrante, mas é uma tomada de consciência do papel que os seus membros devem exercer no mundo, alimentados pelo sacramento. “A comunhão eucarística é o ápice do contato espiritual, que se torna assimilação e deleite, para provar e ver como o Senhor é bom (Sl 34,9)” (Conferência Episcopal Italiana, 2024, p. 44). A assembleia que se congregou para alimentar-se do pão da Palavra e do pão Eucarístico, agora é chamada a ser alimento para um mundo, que busca cada vez mais cancelar a presença de Deus em meio à humanidade. “A intimidade e o imediatismo dos códigos de encontro (tato, olfato, paladar) fazem da Comunhão Eucarística a fonte e ápice de uma mística cristã que não tem medo de entregar o dom mais espiritual na experiência mais material” (Conferência Episcopal Italiana, 2024, p. 44).
É preciso ainda evidenciar o silêncio que somos motivados a viver, com o oremos antes da recitação da oração pós-comunhão. A comunidade, mesmo já tendo se recolhido em oração por alguns minutos, após este convite do presidente da celebração, para a última oração, ainda se recolhe no silêncio por mais um tempo. Nunca é desnecessário, pensarmos nos frutos que podemos recolher da nossa participação, em tão grande sacramento. Aliás, a oração que segue este momento, ressaltará a necessidade de nos deixar moldar, pelo sacramento que recebemos para uma vida discipular. “Ser aquilo que se recebe, este é o mandatum eucharisticum, o mandato eucarístico. Por isso, a expressão “comunhão” não indica apenas o ato do comer o pão eucarístico, mas também a razão, a finalidade para a qual os cristãos se alimentam: ser Igreja-comunhão, formar um só corpo em Cristo” (Boselli, 2017, p. 114).
Se quisermos sintetizar os diversos momentos de silêncio que somos chamados a viver durante a Liturgia Eucarística, podemos aqui denominá-los de silêncio oferente. Escolhemos esta denominação por perceber que neste momento, com Cristo somos chamados a apresentar e a ofertar ao Pai, as nossas vidas. Tal gesto nós não o realizamos sozinhos, mas Cristo o faz conosco. Isto para que se supere qualquer imobilismo, que nos impeça de viver a unidade com o corpo do Senhor. Buscar a unidade do corpo de Cristo, a partir da celebração, é um importante indicativo de que por meio dos diversos momentos de silêncio que fomos convidados a viver durante esta parte da celebração, começamos a compreender o que é ser Igreja discípula-missionária de Cristo. Ou seja, comunidade que oferece, agradece, parte e distribui o pãoe o sangue do Senhor.
BOSELLI, G. O sentido espiritual da liturgia. Brasília: Edições CNBB, 2017.
CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA. Um missal para as nossas assembleias: a Terceira Edição do Missal Romano. Brasília: Edições CNBB, 2024.
DOCUMENTOS DO CONCÍLIO VATICANO II. São Paulo: Paulus, 2007.
FRANCISCO. Carta Apostólica Desisderio Desideravisobre a formação do Povo de Deus. Brasília: Edições CNBB, 2022.
FERRARI, M. A Oração Eucarística. Uma “obra” reaberta pelo concílio. Brasília: Edições CNBB, 2022.
FLORIO, M. Teologia Sacramental. Temas e questões. São Paulo: Paulus, 2023.
Instrução Geral do Missal Romano e Introdução ao Lecionário. Brasília: Edições CNBB, 2023.
MONGES CARTUXOS. A Igreja em oração. Brasília: Edições CNBB, 2024.