Um silêncio que nos envia a proclamar uma Boa Notícia

Um silêncio que nos envia a proclamar uma Boa Notícia

Pe. Rodrigo Arnoso.


            Convocados pelo Pai, com Cristo e no Espírito somos exortados a celebrar e a atualizar o Mistério Pascal. Como assembleia celebrante participamos da mesa da Palavra e da mesa Eucarística. Através de ritos e preces adentramos o mistério da nossa fé. Esta experiência celebrativa, quando vivida de um modo ativo, pleno, consciente e frutuosa (SC 48), é sinal que conseguimos compreender que a liturgia é sempre ponto de chegada e ponto de partida, fons et culmen de toda a vida cristã (SC 10). Partindo desta afirmação é possível asseverar que:  na liturgia a comunidade eclesial celebra e renova a sua identidade discipular. Boselli recordando Dom Hélder Câmara, afirma: “na celebração inteira da Eucaristia ouvimos dizer que nós somos irmãos e nos dirigimos a um único Pai” (Boselli, 2017, p. 183). Por isso, toda ação litúrgica tem o seu momento da convocação e congregação da assembleia, bem como do seu enviou ou dispersão em vista do anúncio do Evangelho. Dom Hélder continua nos ajudando a compreender este momento quando assevera: 

Nos inícios da Igreja, os pagãos ficavam chocados vendo como se amavam aqueles que recebiam o pão da vida, não de maneira teórica, mas de modo prático e através de ações. O mundo tem de novo necessidade de nosso testemunho: que se ouça, se veja, se descubra que a eucaristia nos leva a viver a justiça e o amor como as únicas vias de uma paz verdadeira (Boselli, 2017, p. 184). 

            Desse modo, após termos tratado do gesto litúrgico do silêncio nos ritos iniciais, durante a Liturgia da Palavra e no decorrer da Liturgia Eucarística, a tarefa que agora nos impomos é de trata-lo, nos ritos finais. Assim como fomos acolhidos pela Trindade ao início da celebração, agora por ela seremos enviados. A celebração eucarística está se encerrando, a comunidade que se encontra reunida, agora irá se dispersar. Todavia, está dispersão nos recorda claramente o mandando do Ressuscitado aos seus discípulos: “ide por todo o mundo e a todos pregai o Evangelho”. Aqueles que se reuniram para celebrar e que tiveram a oportunidade de entrarem, durante a ação litúrgica no coração do Mistério Pascal, agora são convocados a exemplo dos primeiros discípulos a proclamar que o Cristo está vivo no meio de nós. Com Midilli podemos corroborar: 

Participar da Eucaristia não pode reduzir-se a uma assistência, com uma atitude de espectador, ou de um ouvinte passivo e indiferente, contrariamente, a celebração deve suscitar a mesma experiência de ardor que caracterizou o encontro dos discípulos de Emaús, por meio de uma valorização dos registros simbólicos, e deve suscitar no coração o desejo de anunciar, por meio de uma valorização dos registros simbólicos, e deve suscitar no coração o desejo e de servir aos irmãos (Midili, 2023, p. 52).  

            Os ritos finais são marcados pela bênção sobre o povo de Deus, que está reunido em assembleia e do seu envio, como comunidade, que no partir do pão sentiu arder o seu coração, por isso, não é possível voltar atrás. É preciso colocar-se a caminho, a fim de que outros, pelo testemunho dos discípulos conheçam a Cristo e por Ele se deixem guiar, no Espírito. 

            A bênção final de uma celebração é acompanhada pelo gesto da imposição das mãos sobre o povo. O gesto neste momento, nos recorda a invocação do Espírito de Deus sobre a comunidade discipular. É o Espírito que anima e faz caminhar os discípulos do Senhor. Através dele recebemos o dom da ciência e da sabedoria, para comunicarmos uma Boa Notícia, que de fato seja capaz de transformar a existência humana, que caminha ao encontro do seu Senhor. 

            Neste momento da bênção final à comunidade é chamada a silenciar-se e acompanhar atentamente as palavras proferidas pelo presidente da celebração, que invoca de Deus a necessária proteção sobre aqueles, que cheios do Espírito são convocados a colocarem-se a caminho, com a finalidade de evangelizar. O Senhor está em meio a assembleia e ela reconhece está verdade, ao responder a exortação do presidente que afirma: “O Senhor esteja convosco”. A cada uma das invocações ou oração sobre o povo a resposta é “amém”. Esta palavra pronunciada pelos lábios daqueles que formam a assembleia celebrante é expressão viva de uma comunidade de fé, que se compreende como Corpo Místico do Senhor. Sentir-se parte do corpo de Cristo é ter consciência de que: “A eucaristia é o encontro vivo com Jesus, que se aproxima de todas as situações da vida, trazendo luz e força, cura e salvação” (Conferência Episcopal Italiana, 2024, p. 48). 

            Abençoada pelo Senhor, com Cristo e no Espírito Santo à comunidade agora é enviada a sair, a colocar-se a caminho, a evangelizar um mundo marcado por grandes transformações, pois para a comunidade em oração a Eucaristia, é “dom que Jesus nos deixou para vivermos em relação com Ele todas as horas do nosso caminho, especialmente as mais delicadas e decisivas” (Conferência Episcopal Italiana, 2024, p. 48)

A assembleia se dispersa durante o canto de envio, porém, pouco a pouco o silêncio vai tomando conta dos corações daqueles que viveram a celebração como espaço de encontro com o Senhor. O silenciar-se aqui não está ligado a uma atitude de omissão, mas de um encontro profundo com o Senhor (DD 10). 

            Como nos ensina o documento de Aparecida é do encontro com o Cristo, que nascem os verdadeiros discípulos do Senhor. Os evangelhos nos testemunham isso, bem como as iniciativas eclesiais contemporâneas. A celebração eucarística, não termina, mas ela é continuada na vida dos iniciados na fé, que são exortados a tornar o Cristo, a Palavra viva e encarnada do Pai, presente no mundo de forma sacramental. “O vínculo eucarístico exige e alimenta a práxis do discipulado” (Florio, 2023, p. 270).   

O gesto do silêncio que acompanha cada um dos ritos da celebração eucarística, pode ser compreendido como um fio de ouro que vai unindo cada uma das partes de uma celebração. Por isso, se a liturgia nos proporciona um profícuo encontro com o Senhor, o gesto de silenciar-se contribui para que este encontro seja de fato, fonte de inspiração e decisão, para uma vivência autêntica da fé, que nos faz ser sal e luz no mundo. 

O silêncio vivido antes, durante e depois da celebração nos ajuda sempre a pensar no caráter comunitário da liturgia (Grillo, 2024, p. 407). Isto porque não celebramos sozinhos. De muitos cantos chegamos para juntos, como um único corpo, em Cristo, celebrar o mistério de nossa fé. Unidos em assembleia, somos chamados a viver a ação litúrgica como momento oportuno de atualização da historia salutis. Assim, como chegamos de muitas partes para celebrar, agora em comunidade somos enviados a ir a muitos lugares como missionários e discípulos do Senhor. 

Nenhum autêntico discipulado, se constrói sem uma autêntica vida litúrgica. Para um verdadeiro seguimento da pessoa de Cristo, encontramos na liturgia uma importante escola. E sobretudo, no gesto do silêncio um autêntico exercício para aprendermos a escutar e a meditar aquilo que é necessário, para sermos enviados em paz, a fim de semeá-la no mundo, na busca cotidiana de ampliarmos, cada vez mais, os laços de fraternidade, que geram novos céus e nova terra. 

Para vivermos o silêncio em cada parte de uma celebração litúrgica é preciso deixar-se guiar pelo Espírito de Deus. Dando espaço para que o Mistério se comunica a nós, sem nos vendermos a tentação do desejo de esgotá-lo. Na liturgia não chegamos de qualquer modo. Dela não podemos partir vazios, pois nela celebramos o amor de um Deus, que não se cansa de visitar a sua criação, de abençoa-la e enviá-la (Conferência Episcopal Italiana, 2024, p. 63). 

Estamos às portas da celebração do primeiro ano em que a Igreja, presente no Brasil recebeu a tradução da Terceira Edição do Missal Romano para a nossa língua. Ainda são muitos os elementos, que nos ajudam a rezar que precisamos conhecer deste livro.  Muitos são os esforços que devemos empreender, para viver a sua ars celebrandi (Conferência Episcopal Italiana, 2024, p. 34). Todavia, um gesto que ele indica e que não podemos deixar passar é o do silêncio, que nos faz sair de nós mesmos, para estarmos em comunidade com Cristo, no Espírito elevando um culto ao Pai, em vista da santificação do ser humano, obra prima de Deus.  

 

BOSELLI, G. O sentido espiritual da liturgia. Brasília: Edições CNBB, 2017. 

CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA. Um missal para as nossas assembleias: a Terceira Edição do Missal Romano.  Brasília: Edições CNBB, 2024. 

DOCUMENTOS DO CONCÍLIO VATICANO II. São Paulo: Paulus, 2007. 

FLORIO, M. Teologia Sacramental. Temas e questões. São Paulo: Paulus, 2023. 

FRANCISCO. Carta Apostólica Desisderio Desideravi sobre a formação do Povo de Deus. Brasília: Edições CNBB, 2022. 

GRILLO, A. Eucaristia. Ação ritual, formas históricas, essência sistemática. São Paulo: Loyola, 2024. 

MIDILI, G. O Domingo. Brasília: Edições CNBB, 2023. 

 
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