UM TEMPO CRISTOLÓGICO-MARIANO

UM TEMPO CRISTOLÓGICO-MARIANO  

 

Frei Davi Maria Santos, O. Carm[1]

INTRODUÇÃO 

A razão de toda a Liturgia é a celebração dos Mistérios de Jesus Cristo, na qual o Senhor é presentificado no hoje da história, de modo sacramental, e nós, somos presentificados n’Ele. Assim, o ato de contemplar vem em auxílio de todos os batizados que, olhando para o Senhor, na Liturgia O encontram em toda a celebração, desde a arquitetura, passando pela música, pela escuta da Palavra e pela mesa eucarística para onde encaminhamos nossas mentes e corações. 

O Ano Litúrgico, é uma verdadeira pedagogia do Espírito Santo que nos ensina, a partir de cada Tempo que o compõe, a encontrar sempre o Senhor de uma maneira renovada. Assim sendo, o Ano Litúrgico, dom da Trindade, nunca é circular, mas sempre em “espiral”, ou seja, ele aponta continuamente para o alto, para Deus, e não se repete, mesmo que de três em três anos voltamos ao mesmo ciclo de leituras (A-B-C). Isso acontece porque a dinamicidade do Ano Litúrgico é animada pelo Espírito de Deus. 

Iniciando-se com o Advento, encontramos dois pedidos proféticos: o esperançar, de Isaías e o preparar o caminho, de João Batista, para acolher o Senhor que vem. Advento e Quaresma são dois momentos de preparação espiritual-humana para o encontro com Jesus Cristo. No primeiro, preparamo-nos para a memória do seu nascimento e esperamos sua vinda escatológica, e no segundo, celebramos o Mistério da fé cristã e de toda a Liturgia da Igreja: a Páscoa do Ressuscitado. Deste modo, o Advento e a Quaresma são tempos mistagógicos por excelência nos formam e educam no discipulado do Senhor. 

Entretanto, no Tempo do Advento, mais do que em qualquer outro Tempo, encontramos uma verdadeira abundância de eucologias marianas. O Papa Paulo VI afirma que o Advento é, liturgicamente falando, o Tempo mariano por excelência. Somos chamados a olhar a Virgem Maria, e com ela aprender a contemplar os Mistérios do Senhor que se revelam nos dias que antecedem o Natal. 

É a partir d’Ele que celebramos todos os outros Mistérios, de maneira especial aqueles que envolvem a Virgem Santíssima. Mormente, a presença de Maria na Ação Sagrada da Igreja e no Sacerdócio de Cristo (cf. SC, n 7), nos convida e educa a passarmos de uma liturgia ad extra, para uma Liturgia ad intra, ou seja, “redescobrir, custodiar e viver a verdade e a força da celebração cristã” (Desiderio desideravi, n. 16). De uma liturgia simplesmente exterior, para uma Liturgia interior, que nasce daquilo que diz e ensina a Igreja e da relação amorosa com o Pai. 

 

1    UM TEMPO DE PURIFICAÇÃO DO OLHAR 

            O Ano Litúrgico da Igreja, já conhecido também como “Ano Eclesiástico”, “Ano Santo”, dentre outras formas, se inicia com o tempo do Advento. Vale lembrar que, no ano litúrgico todos os tempos são sempre presença e ação de Jesus Cristo Ressuscitado em nosso meio, como relembra o Papa Pio XII, na Mediator Dei (1947). O tempo do Advento é o nono mês de espera da Virgem Maria, em um mês nascerá Aquele que lhe fora anunciado pelo próprio Deus, por meio de Gabriel. Desta forma, o Advento se reveste da candura e inocência de um menino que nos vêm ao encontro. Daí consideramos o Advento um tempo de purificação do olhar, para senti-lo por meio dos sentidos.   

            O tempo do Advento é o último mês de espera do divino Salvador que se faz homem. Este tempo é um momento propício e fecundo para renovar e purificar o olhar para contemplar a Deus que, em Jesus Cristo, se faz do nosso tamanho porque nos ama, como nos relembra a mística doutora de Ávila, Santa Teresa de Jesus. De uma boa e necessária atividade contemplativa, nascida no Advento, decorre toda uma participação espiritual e autêntica em todo o Ano Litúrgico. 

            Maria é modelo perfeito e acabado de contemplação. De alguém que não sabe perceber, sentir e encontrar outra coisa que não sejam as ações de seu divino Filho, Jesus Cristo. No Advento, Maria é mestra de contemplação e interiorização, como também nos relembra a mística carmelita, Santa Elisabete da Trindade, pois, se deixou ser formada pela doce espera do Filho e se preparou para sua chegada. 

A exemplaridade da Virgem Santa Maria, que emerge da celebração litúrgica, estimula os fiéis a conformarem-se com a Mãe para melhor conformarem com o Filho. Impele-nos também a celebrar os Mistérios de Cristo com os mesmos sentimentos de piedade com que a Virgem Maria participou no nascimento e na epifania, na morte e na ressurreição do seu Filho (Missa da Virgem Santa Maria, n. 17). 

            O tempo da feliz espera que constitui o Advento, se reveste, portanto, de uma dupla característica, que são as duas esperas do Senhor. Inicialmente, o Advento prepara o corpo místico do Senhor, que é a Igreja para o Natal e consequentemente para as festas Cristológicas do Tempo Natalino, como a Epifania, por exemplo. Ao passo que prepara e forma nossos corações, fazendo-nos voltar para a expectativa da segunda vinda de Cristo Jesus no fim dos tempos. Essa expectativa encaminha-nos para contemplar a tônica fundamental que se observa na Liturgia deste tempo, que, segundo o alemão Adolf Adam, “o Advento não é, em primeira linha, um tempo de penitência em vista do julgamento do Senhor em sua segunda vinda, mas, acima de tudo, uma celebração comemorativa da Encarnação, e somente a começar daí é piedosa e alegre a expectativa” (2019, p. 96). 

            Ao falar de contemplação no Ano Litúrgico sabemos que todo ele é contemplativo, do começo ao fim cronológico, no entanto, neste pequeno tempo de preparação para a chegada do Salvador, somos levados a fazer um encontro com uma realidade que de fato existe, isto é, Jesus se fez homem e sendo elevado ao Céu, elevou consigo nossa natureza, n’Ele, completamente perfeita e sem nenhum pecado. É a partir da Liturgia e na Liturgia, não como fim, antes, como um meio, que somos chamados a ser plasmados pela ação do Senhor, uma vez que a Liturgia, é a ação do sacerdócio de Cristo Jesus (cf. SC, n. 7), no corpo místico que é a Igreja. 

            Jesus Cristo se revela em especial na Liturgia e não apenas. Assim sendo, a Igreja realiza-se e efetua-se no desenvolver e atuar da ação Litúrgica, uma vez que a Liturgia é como a arquiteta da Igreja, o locus construcciones ecclesiae, ou seja, o lugar de construção da Igreja, pois, os Mistérios celebrados sempre são realidades que foram históricas, exemplificadas no próprio Natal e na Ressurreição do Senhor. Assim, sentimos pela fé, que de fato, o Senhor entrou em nossa realidade terrena para que pudéssemos entrar na realidade celeste. Por isso,  

Os acontecimentos salvíficos só podem ser objeto de uma celebração na medida em que se tornam realidades históricas. É por isso que podemos celebrar sua ação no seio da Igreja, ação que se manifesta poderosamente no Pentecostes e na vida de cada santo. Mas sua vinda para o julgamento e para a redenção definitiva de sua Igreja ainda não pode ser celebrada no sentido próprio do termo, pois ainda não se realizou, mas deve primeiramente ser aguardada (Croce, 1954, p. 471).  

            A contemplação a que devemos nos aplicar zelosamente no tempo do Advento, em preparação ao Natal de Jesus Cristo, deve ser uma contemplação inteiramente Pascal, que nasce sempre dá esperança e do encontro com o Mistério do Ressuscitado, sem o qual, não faria sentido algum as celebrações contidas no Ano Litúrgico. Isso significa que é Ele, o Ressuscitado, o elo de união de nossas preces e orações ao coração de Deus, que n’Ele nos assume como filhos e filhas.  

 

2      MARIA, PRIMEIRA IGREJA 

            Na história da Igreja e no desenvolvimento da Liturgia, no decorrer dos séculos, a Virgem Maria sempre esteve presente na vida eclesial. No início, esta presença se mostra tímida, tanto que, poucas são palavras da Virgem Maria nas Sagradas Escrituras, contudo, com o decorrer dos anos, inicialmente com a Era dos Padres e depois com o período Escolástico e assim por diante, este “pequeno córrego” – podemos inicialmente assim chamar a presença da Virgem Santíssima – foi crescendo e começando a fazer parte da vida da Igreja, até se tornar como que um “oceano” de graças que, transbordando do seio da Trindade, conduz à Trindade aqueles que dele se aproximam, de tal forma que se torna quase impossível falar de vida cristã, ou de discipulado sem que nos recordemos d’Aquela que, não apenas gerou o Filho de Deus e seu também, como foi a Sua mais perfeita e fiel discipula.

            O amor à Mãe de Deus, bem ordenado e orientado, nunca constituiu obstáculo para se amar a Jesus Cristo, antes, é desse amor terno e afetuoso, reconhecendo n’Ela, Aquela que gera porque ouve a Palavra e faz a vontade de Deus de forma plena; Aquela que é porta e que aponta o caminho que leva a Jesus Cristo, que nada retém a si, mas tudo encaminha a seu Filho que, é para nós meio de seguimento ao Senhor. Por isso,  

A veneração de Maria é o caminho mais seguro e curto para nos levar à intimidade com Cristo. Na meditação de sua vida em todas as suas fases aprendemos o que significa viver para Cristo e com Cristo, no quotidiano, de uma forma concreta que não comporta qualquer exaltação, mas que introduz a uma intimidade perfeita. Contemplando a existência de Maria, nós pomo-nos à disposição, mesmo na obscuridade infligida à nossa fé, mas aprendemos como se deve estar a postos quando Jesus subitamente nos pede algo (Ratzinger; Von Balthasar, 1995, p .117).

 

            Na vida eclesial duas grandes vias acabam se encontrando e em muito podem fortalecer e ajudar na caminhada do corpo místico. Por um lado, encontramos a piedade popular que, olhando para a Virgem Maria, a ela se confiam e se colocam em doce escuta porque sabem que a Mãe sempre aponta o caminho do Filho, e por outro lado, temos na “árvore” teológica, a mariologia, que deve ser um estudo atento que procura unir fé e razão, caso contrário, permanecendo nos extremos, a ciência teológica não conseguirá avançar enquanto reflexão sadia, consciente e abundante. 

            Na Liturgia eclesial, estas duas vias se encontram e podem mutuamente se ajudarem. Encontramos na Ação Sagrada da Igreja – a Liturgia – várias festas dedicadas à Mãe de Deus e que, cada cultura com seu jeito e manifestação própria, louva e engradece a Deus pelo dom da Virgem Maria, assim como também encontramos estudiosos sensíveis da mariologia que, com um olhar litúrgico, a partir das festas marianas que celebramos, firmados na Sagrada Escritura e atentos a Tradição e ao magistério da Igreja, educam e formam o povo sacerdotal, régio e profético no verdadeiro amor à Maria que conduz sempre a Jesus Cristo. 

            Por isso é sempre necessário voltar aos Padres da Igreja, para compreendermos bem a união de Maria com a Igreja, e desta forma, compreender e celebrar melhor a Liturgia, não como um ato de arqueologia, antes, como fidelidade ao pensamento primeiro da Igreja que fundamentou toda a atividade teológica nos séculos e em nossos dias. Assim estaremos sendo fiéis ao desejo do Concílio Vaticano II, que nos convida a uma volta às fontes, pois, é durante os séculos patrísticos que será organizada e estruturada toda a mariologia da Igreja, enquanto dogma. 

            Compreendendo melhor o lugar de Maria na vida da Igreja e no projeto salvífico de Deus Pai, é possível assimilar seu “espaço” na vida da Liturgia e de como Ela, por meio de suas memórias, festas e solenidades, onde celebramos sempre, com uma maior e intensa exultação o Mistério Pascal de Seu Filho, corrobora educando-nos e formando-nos para que celebremos melhor e com júbilo a razão de nossa fé. 

            Por isso, a Virgem Maria é o mais perfeito ícone da Igreja, assim como é também a primeira Igreja, isto é, o santuário perfeito, onde verdadeiramente seu Filho é adorado e glorificado, por conseguinte, para o doctor mellifluus, São Bernardo de Claraval, a Virgem Santa é como um “aqueduto” (cf. São Bernardo, 1996), por meio do qual nos vem a água viva e que gera vida: Jesus Cristo. Deste modo podemos afirmar que, as memórias, festas e solenidades da Mãe de Deus, todas elas, são como que um “aqueduto” litúrgico-contemplativo que nos trazem o Filho de Deus, a água viva que nos descendenta para a eternidade. 

 

3      NA ESCOLA DAS COLETAS DOMINICAIS: DAS FONTES À ORAÇÃO. 

            A oração coleta em todo o Missal Romano, além custodiar um rico tesouro espiritual e secular, visto que muitas delas pertencem aos Sacramentários antigos dos séculos VII e VIII (cf. Antologia Litúrgica, 2015, p. 1669 a 1671). Guardam essas pequenas orações indicações do que celebramos no Mistério Pascal. Todavia, a história da coleta, que é uma forma oracional, isto é: eucológica, parece um tanto complexa, pois, num primeiro momento os fiéis que participavam da Eucaristia faziam suas preces. Um resquício disso é a pausa silenciosa que se faz entre o “oremos” e a prece propriamente dita. Num segundo momento, o presidente da celebração reunia numa só oração as preces da assembleia, contudo, a eucologia das coletas é de uma grande riqueza espiritual. Nas coletas encontramos um campo fértil para a formação do povo sacerdotal, régio e profético, deste modo, a “função específica da coleta da Missa é, pois, a de criar o ambiente espiritual em que a assembleia reunida se sinta estimulada a escutar a palavra de Deus e a celebrar a eucaristia” (Augé, 1992, p. 422).

Por isso, a oração coleta é também uma escola de educação espiritual, a partir da qual temos as indicações de que passos dar e como devemos viver os tempos que compõem o Ano Litúrgico, e como, por meio dessa oração, somos iluminados na vivência do Evangelho, em especial nos Domingos. Do mesmo modo, também acontece com as quatro coletas[2] dos Domingos do Advento (cf. Missal Romano, 2023, p. 96 a 116), e (cf. Lecionário Dominical A-B-C, 2016. Ano A, p, 53 a 65; Ano B, p. 369 a 382 e Ano C, p. 687 a 698).

·      Coleta do primeiro Domingo 

Ó Deus todo-poderoso, concedei aos vossos fiéis o ardente desejo de acorrer com boas obras ao encontro do vosso Cristo que vem, para que, colocados à sua direita, mereçam possuir o reino celeste. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus, e convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. 

Fragmentos em latim (Da quaesumus, omnipotens Deus, hanc tuis fidelibus voluntatem, ut, Christo... eius dexterae sociati, regnum mereantur possidere caeleste).

 

Fontes da coleta (Johnson, OSB, 1996, p. 17). 

* GeV - Sacramentário Gelasiano (século VII) página 1139, Liber Sacramentorum Romanae Aeclesiae ordinis anni circuli;                                                                                                                      * MR - Missal Romano (1970) página 129;                                                                                                            * MR - Missal Romano (1975) página 129;                                                                                    * MR - Missal Romano (1976) 2 ed. Página 133;                                                                                                                         * MR - Missal Romano (1992) página 129;                                                                                                                                                 * MR - Missal Romano (2023) página 96.

No primeiro Domingo do Advento, o evangelista nos fala da segunda vinda do Senhor e nos exorta a permanecer em atitude de vigilância. Evangelhos: Ano A: (Mateus 24, 37-44); Ano B: (Marcos 13, 33-37) e Ano C: (Lucas 21, 25-28.34-46). 

·      Coleta do segundo Domingo 

Ó Deus todo-poderoso e cheio de misericórdia, que nenhuma atividade terrena nos impeça de correr ao encontro do vosso Filho, mas, instruídos pela celeste sabedoria, participemos da vida daquele que é Deus, e convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amém. 

Fragmentos em latim (Omnipotens et misericors Deus, in tui occursum Filii festinantes... iam nunc eruditio nos faciat eius esses consortes). 

 

Fontes da Coleta (Johnson, OSB, 1996, p. 17).

* GeV - Sacramentarium Gelasiano (século VII) página 1153, Liber Sacramentorum Romanae Aeclesiae ordinis anni circuli;                                                                                                                     * MR - Missal Romano (1970) página 130;                                                                                                            * MR - Missal Romano (1975) página 130;                                                                                                 * MR - Missal Romano (1976) 2 ed. Página 134;                                                                                                                                                                                                                                                         * MR - Missal Romano (1992) página 130;                                                                                                                                                 * MR - Missal Romano (2023) página 103.

No segundo Domingo do Advento, no Evangelho, encontramos a pregação de João, chamando-nos a conversão. Evangelhos: Ano A: (Mateus 3, 1-12); Ano B: (Marcos 1,1-8) e Ano C: (Lucas 3,1-6). 

·      Coleta do terceiro Domingo 

Ó Deus, que vedes o vosso povo esperando fervoroso o Natal do Senhor, concedei-nos chegar às alegrias da salvação e celebrá-las sempre com intenso júbilo na solene Liturgia. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus, e convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. 

Fragmentos em latim (Deus, qui conspicis populum tuum nativites dominicae festivitatem ... et ea votis sollemnibus alacri semper laetitia celebrare). 

 

Fontes da Coleta (Johnson, OSB, 1996, p. 18).

* LMS - Liber Mozarabicus Sacramentorum (1912) página 28;                                                                       * Rotulos - Rotulus of Ravenna, página 25;                                                                                                                                                                                            * MR - Missal Romano (1970) página 131;                                                                                                                         * MR - Missal Romano (1975) página 131;                                                          

 
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