Um véu para revelar o mysterium crucis

Um véu para revelar o mysterium crucis

Dom Jerônimo Pereira, osb

 

A Igreja no Brasil, depois de vinte anos de espera, entrou na fase da recepção da tradução da terceira edição típica do Missal Romano. Uma série de elementos linguísticos e paralinguísticos, verbais e não verbais, cinéticos e proxêmicos, indicados pelas rubricas e pela estrutura da natureza mesma dos ritos, tem exigido de todos os ministros, ordenados ou não, uma redobrada atenção à ars celebrandi.

Estando às portas da celebração do Tríduo Pascal, vimos nas redes sociais e ouvimos nos corredores das igrejas, das faculdades de teologia etc. uma série de observações com argumentações e acusações de todos os tipos sobre a determinação da cor do véu usado para o desvelamento do lenho da Cruz na sexta-feira santa.

            Este nosso estudo, de cunho histórico-teológico, visa investigar, a partir do acesso às fontes, a história da particular e dramática sequência ritual da adoração da Cruz na sexta-feira santa, com o fim de identificar quando se deu, efetivamente, a indicação da cor do véu usado para desvelar a Cruz.

 

A gênese do rito

 

O rito da adoração da cruz tem sua origem na Igreja de Jerusalém, no século IV, depois da descoberta das relíquias da cruz, operada por Constantino, e nos é descrito por São Cirilo, bispo de Jerusalém († 386)[1] e pela peregrina Egéria. O rito acontecia na manhã da sexta-feira, na igreja do Gólgota, e era muito simples, sem um caráter litúrgico. Era presidido pelo bispo sentado na sua cátedra e circundado por diáconos. Diante dele uma mesa coberta com uma toalha servia para apoiar a relíquia da cruz e o “Título” (a tábua com a inscrição da cruz). O clero e depois o povo venerava a cruz tocando com o lenho a fronte e os olhos e beijando-o[2]. Tudo se fazia no mais completo silêncio. Rapidamente esse rito se espalhou pelo Oriente e Ocidente, especialmente naquelas igrejas que tinham uma relíquia da cruz. Os historiadores sustentam que somente na primeira metade do séc. VII começou a ser celebrada em Roma.

 

Entrada do rito na Igreja de Roma

 

O primeiro testemunho desse rito em Roma vem da liturgia papal registrada no Ordo Romano XXIII, do séc. VIII. O rito acontecia na basílica da Santa Cruz de Jerusalém, à oitava hora, e reproduzia, basicamente, o rito hierolosimitano, exceto pela genuflexão antes do beijo e o canto da antífona Ecce lignum crucis (Eis o lenho da cruz), intercalada com os versículos do Sl 118/119, que acompanhavam a procissão do beijo. Essa celebração não tinha a distribuição da eucaristia[3]. Na hora nona (15h), nos Títulos (“paróquias”) da cidade, acontecia uma celebração presbiteral parecida com a papal. Colocava-se a cruz sobre o altar e, feitas as leituras e dado o ósculo da paz, trazia-se da sacristia as espécies eucarísticas consagradas no dia anterior. O sacerdote adorava a cruz, beijava-a e depois comungava. Da mesma forma faziam os fiéis[4].

 

O rito da ostensão da Cruz

 

Na Espanha e na Gália, nesse mesmo período, o rito começou a ser dramatizado com o cobrimento e a ostensão da Cruz, com a tríplice prostração e adoração, como atestado pelo Ordo Romano XXXI. Terminada a oração universal, dois sacerdotes se dirigiam à sacristia de onde traziam as hóstias consagradas no dia anterior, um cálice com vinho não consagrado (calice cum vino non consecratus) que se colocavam sobre o altar, do mesmo modo uma relíquia da cruz que o pontífice deveria adorar silenciosamente, podendo tudo ser coberto com o corporal do altar (tale modo ut philacteria crucis dominice, quam adorare debet tacite pontifex, super eodem altari corporale cooperta esse possint – n. 42). Depois do Pai-nosso e da comunhão, unicamente do pontífice, a cruz coberta era levada diante do altar, sustentada por dois acólitos (Post hoc autem stet crux altare tali loco posita et cooperta [...] et sustentetur hinc ind ab accolitis – n. 46). A cruz fazia praticamente três paradas até chegar ao altar. A cada parada, era saudada pelos cantores que depois de profunda inclinacão entoavam o Trisagion em grego, respondido pelo coro em latim. Terminado o canto, estando a cruz junto ao altar, o pontífice a desvelava e cantava Ecce lignum (subito discooperiat eam pontifex et incipiat excelsa voce: Ecce lignum – n. 47). Os cantores levavam a cruz para o lugar destinado à adoração e ao beijo por parte do clero e dos fiéis ao canto da antífona Crux fidelis, alternado com o hino Pange lingua. Quem adorava a cruz, aproximava-se na mesma ordem da comunhão[5]

Esse rito estrangeiro entrou em Roma não antes do século XI.

 

As fontes romanas anteriores ao Missal

 

O Pontifical Romano do séc. XII descreve o rito, celebrado ao meio dia (hora sexta) da seguinte forma: depois das leituras e da oração, estendiam-se tapetes diante do altar. Ao pé do altar punha-se uma cruz coberta com um pano (crux panno aliquo cooperta). O pontífice, descalço, ajudado por ministros, fazia três paradas antes de chegar à cruz. Em todas elas prostrava-se com todo o corpo. Depois da terceira prostração, beijava, humilde e devotamente, a cruz ainda coberta (ita quod post trinam prostrationem vicinus cruci humiliter ac devote deosculetur eam – n. 7). Depois, levantava-se, tomava a cruz e por três vezes cantava a antífona Ecce lignum, repetidas pela schola. Quando, durante o canto da antífona, se dizia Venite adoremos todos deveriam ajoelhar-se. Sempre ao início da antífona se descobria um pouco da cruz, até que na terceira vez a cruz era completamente descoberta (Cum autem primum cantare, coeperit hanc antiphonam, debent crucem paululum dicooperire, secundo plus, tertio totam). Seguia-se a adoração do clero e do povo ao som do Trisagionem grego e latim, dos improperia, da antífona Crucem tuam adoramus e do hino Pange lingua, alternado com a antífona Crux fidelis[6].

No Pontifical Romano do séc. XIII, da Cúria Romano, o rito se apresenta mais sóbrio, reproduzindo, mutatis mutandis, o que estava descrito no Pontifical Romano-germânico do século X, sem nenhuma referência ao pano para cobrir a cruz: Pontifex, depositis palleo et planeta et assumpto manto ad scapulas, accedit ad altare et accipiens crucem presentat eam populo (recebe a cruz e a apresenta ao povo), cantant antiph. Ecce lignum crucis[7].

O Pontifical de Guilherme Durando descreve o rito de um modo muito próximo ao do Pontifical do século XII. Tudo acontece no altar, nessa época já anexado à parede. O bispo, depois que depunha a casula, recebia a cruz velada, à direita do altar (et ibi accipit crucem velatam), primeira statio, a segunda à esquerda do altar e a terceira ao centro do altar, desvelando a cada vez um pouco mais a cruz e cantando Ecce lignum. Depois disso, a cruz era levada para o lugar preparado para a adoração. O pontífice, em primeiro lugar, depois o clero e o povo, adoravam a cruz com três genuflexões e um beijo[8]. Nenhuma fonte faz referência ao crucifixo.

 

O nascimento do Missal

 

A partir do século IX, no ambiente franco-germânico, a evolução da eclesiologia vai concentrando lentamente a ação litúrgica nas mãos do “sacerdote”, daí, entre outras coisas, o crescimento das missas privadas, o que leva à necessidade de um único livro contendo todos os textos necessários a um único ministro, para que ele possa “dizer a sua missa”[9]. No século XI nasce, efetivamente, o Missal, chamado plenário. Os monges foram os primeiros a usarem esses livros e por seu intermédio, esse novo tipo de livro litúrgico entrou na Itália.

Em Roma, na capela privada do Papa, sob pontificado de Honório III (papa entre os anos de 1216 e 1227)[10], o Missal-herança franco-germânica, consolidou-se. A difusão de tal Missal por toda a Europa se deu graças à nascente Ordem Franciscana. Cerca de 300 missais foram impressos inspirados no Missal de Honório, o mais importante deles é o Missal Romano de 1474. O Missal de 1474 repete, literalmente, a rubrica do Pontifical de Durando[11].

 

O MR do Concílio de Trento

 

Às portas da Reforma Protestante a anarquia no campo da eucologia eucarística latina chegava ao seu ponto culminante e advento da imprensa, ao invés de favorecer o triunfo de um determinado tipo de missal, piorou a situação, fazendo com que cada diocese tivesse o seu próprio e, por vezes, usavam-se missais diferentes numa mesma igreja. Era preciso uma reforma, o que já se esperava havia muito tempo[12].

Na sessão XXV, de 4 de dezembro de 1563, os Padres do Concílio de Trento (1545-1563)passaram à Santa Sé a autoridade para a publicação de todos os livros litúrgicos. O Papa São Pio V ( 1572), depois de ter publicado o Breviário em 1568, retocou o Missal de 1474 e o promulgou, por meio da constituição apostólica Quo primum tempore de 14 de julho de 1570, para uso de toda a igreja de rito latino.

O MR de 1570 retoma quase literalmente a rubrica do Pontifical de Durando, sem, todavia, falar de um véu:

 

Co[m]pletis or[ati]onib[us] sacerdos, deposita casula, procedit ad cornu epistole, et ibi in posteriori parte anguli altaris accipit cruce[m] a ministris sibi preparatam: qua[m], versa facie ad chorum, a summitate parum discooperit, incipiens solus Antiphonam Ecce lignum Crucis... [13]

 

O Pontifical do Concílio de Trento

 

Para evitar os abusos que se alastravam pelas dioceses, os Padres do Concilio de Trento expressaram o desejo de um cerimonial único, em vista da eliminação de tais abusos; de tal sorte que em 1600 foi publicado o Caerimoniale Episcoporum para toda a Igreja de rito latino[14].

A respeito do rito do qual estamos nos interessando o Pontifical assim o descreve:

 

a) Entre as coisas para preparar adverte:

 

Liber Secundus, cap. XXV: De officio feriae sextae

 

Nullae imagines, aut aulia ornamenta super altari collocentur, praeter crucem, & candelabra (n. 1080, p. 243).

Sobre o altar não se ponha imagens ou outras ornamentações, além da cruz e dos candelabros.

 

Praeparetur pannus, vel tape oblongum, seu pannus violaceus, extendẽdus suo tempore pro adoratione crucis; magnus item puluinus, ex serico villoso violaceo, auroq; factus, vbi cruz erit ponenda; & velum album serico violaceo intertextum, super eo explicandum (n. 1081, p. 243).

Prepare um pano, ou faixas oblongas, ou um tecido roxo, para ser estendido no momento apropriado para a adoração da Cruz; também uma grande almofada, de seda púrpura e dourada, onde será colocada a Cruz, e um véu branco, tecido com seda roxa, sobre o qual colocá-la.

 

b) O rito

 

Finitis orationibus, Episcopus deponit planetam apud faldistorium: & interim, dum dicuntur vltimae orationes, ministri extendunt tapete magnũ, vel pannum violaceum ante gradus altaris, & super primus eius gradus ponunt puluinar amplum, & super eo velum, seu mappam sericeam, vt supra, vbi ponenda erit crux (n. 1102, p. 246).

Terminadas as orações, o bispo coloca a casula no faldistório: contemporaneamente, enquanto se fazem as últimas orações, os ministros estendem um grande tapete, ou pano púrpura, diante do degrau do altar e no primeiro degrau deste colocam uma grande almofada, e em cima dela um véu, ou uma toalha de seda, como acima, onde será colocada a Cruz.

 

Episcopus, deposita planeta, redit ad angulum posteriorem cornu Epistolae, facie ad populum versa. Tunc Sacrista capiens crucem de medio altaris, illam porrigit Diacono, qui tamdem dat Episcopo, qui eam deuotè accipiens, manu destera detegit illius summitatem vsque ad transuersum Crucis… (n. 1102-1103, p. 246-247)

O bispo, deposta a planeta, dirige-se para o canto posterior do lado da Epístola, com o rosto voltado para o povo. Depois o sacristão, tomando a Cruz do centro do altar, entrega-a ao Diácono, que a entrega ao Bispo, que, recebendo-a com devoção, descobre o seu topo com a mão direita até à parte transversal da Cruz....

 

Surge a pergunta: Por que no tempo do rubricismo nenhuma rubrica – quer do Missal, quer do Pontifical – sente a necessidade de precisar a cor do véu que cobria a Cruz durante o rito? A resposta se encontra no capítulo XX do Pontifical (Liber Secunduscap. XX: De dominicis quadragesimae usque ad dominicam palmorum), onde se lê:

 

In quinto verò Dominica, quae de Passione dicitur, cooperiantur, antequàm officiũ inchoetur, omnes cruces, & imagines Saluatoris per Ecclesiam [...] (n. 987, p. 226)

 

No quinto domingo (da Quaresma), que se chama da Paixão, antes do início do ofício (vespertino do sábado) todas as cruzes e imagens do Salvador dever ser cobertas em toda a Igreja.

 

Na Alemanha, no século IX, apareceu a prática de velar o altar no início da Quaresma, escondendo-o completamente dos olhos dos fiéis. O véu era retirado somente durante a leitura da Paixão, na quarta-feira santa, às palavras “o véu do templo se rasgou em dois” (Mt 27,51). Os motivos são desconhecidos (apesar das teorias). Mais tarde, na Idade Média, também as cruzes e os santos passaram a ser velados, desde o início da Quaresma. A regra de limitar a velatio ao tempo da Paixão só veio mais tarde com a publicação do Pontifical de 1600.

As cores litúrgicas foram decodificadas no século XII por Inocêncio III (1160-1216), que lhes conferiu um sentido alegórico: branca, vermelha, roxo, preta e verde. São Pio V as acolheu sem alterações na edição do Missal de 1570. Como o roxo fixou-se como a cor penitencial, indicativo do Advento e da Quaresma, também as imagens passaram a ser cobertas com essa cor.

Como vimos, na celebração da sexta-feira santa, para a adoração da Cruz, o sacristão a retirava de cima do altar para entregar ao diácono que, por sua vez, a entregava ao bispo já velada de roxo desde o V domingo da Quaresma. Por isso o silêncio da rubrica com relação à cor do véu.

 

As edições sucessivas

 

Para a primeira impressão do MR de 1570 reinou uma certa confusão[15]. Foram publicados apressadamente, ao menos três edições diferentes. Por causa da pressa, verificou-se entre as edições, variações de diversos gêneros. Precisou-se, o mais rápido possível, operar modificações e correções nos textos eucológicos, nos cânticos, na terminologia e nas rubricas. Fez-se necessário uma nova edição no ano sucessivo (1571). Outras edições foram feitas por obra de Clemente VIII ( 1605) em 1604, de Urbano VIII ( 1644) em 1634, de Leão XIII ( 1903) em 1884, de São Pio X ( 1914) – Bento XV ( 1927) em julho de 1920[16], depois da promulgação do Código de Direito Canônico de 1917. Até então a rubrica permaneceu praticamente a mesma, sem apresentar nenhum detalhe sobre o véu para cobrir a cruz:

 

MR 1570

 

MR 1920

Co[m]pletis or[ati]onib[us] sacerdos, deposita casula, procedit ad cornu epistole, et ibi in posteriori parte anguli altaris accipit cruce[m] a ministris sibi preparatam: qua[m], versa facie ad chorum, a summitate parum discooperit, incipiens solus Antiphonam Ecce lignum Crucis...

Completis Orationibus, Sacerdos deposita Casula accedit ad cornu Epistolae, et ibi in posteriori parte anguli Altaris accipit a DiaconoCrucem jam in Altari praeparatam: quam, versa facie ad populum, a summitate parum discooperit, incipiens solus Anti- phonam Ecce lignum Crucis...

 

            O Pontifical teve cinco reedições. A segunda edição apareceu em 1650, sob o pontificado de Inocêncio X (1644-1655); a terceira em 1727, por vontade do Papa Bento XIII (1724-1730); a quarta em 1752, promovida pelo Papa Bento XIV (1740-1758) e a quinta veio à luz em 1886, sob o pontificado de Leão XIII (1878-1903). Esse último teve inúmeras reimpressões, até 1948. As rubricas da editio princeps, acima citadas, permaneceram praticamente sem mudanças substanciais.

 

A reforma “Piana”

 

Em maio de 1948, o Papa Pio XII nomeou uma comissão litúrgica dentro da Congregação dos Ritos que deveria tratar do rito romano e de quaisquer reformas a serem estudadas e, se necessário, aplicadas. Infelizmente a calma necessária para tal trabalho não foi possível devido aos contínuos pedidos do episcopado da França e da Alemanha que apelavam por mudanças bruscas. A Congregação dos Ritos e a Comissão trataram da questão dos horários da Semana Santa, para bloquear as fantasias de certas celebrações autónomas, especialmente em relação à Vigília Pascal.

Nesse contexto, foi necessário aprovar um documento ad experimentum que permitisse a celebração noturna do rito da Vigília Pascal, este foi o Ordo Sabbati Sancti de 9 de janeiro de 1951. Em 16 de novembro de 1955 foi publicado o decreto Maxima redentionis nostrae mysteria, com o qual foi restaurada toda a Semana Santa. Para a adoração da Cruz, restaurou-se a dinâmica processional de entrada triunfal da cruz na Igreja. É no número 14 do Ordo Hebdomadae Sanctae instauratus que se encontra a rubrica da sexta-feira na qual se determina, finalmente, a cor do véu que deveria cobrir a cruz:

 

Orationibus solemnibus completis, celebrans et ministri redeunt ad sedilia, ubi celebrans deponit pluviale, ministri dalmaticam vel tunicellam; et datur initium solemni adorationi sanctae Crucis.

Adibeatur Crux satis magna, cum Crucifixo, velo violáceo obtecto, quod facile removeri possit[17].

 

A última edição do Missal tridentino

 

São João XXIII ( 1963), em 1962, promoveu uma edição de transição do Missal Romano que se colocaria, como explicado pelo papa, entre as reformas de Pio XII e o futuro, ainda desconhecido, alguns meses antes da abertura do Concílio Vaticano II, como explica em Rubricarum instructum, de 1960[18]. O Missal de 1962 repetia quase ipsis litterisa rubrica do Ordo Hebdomadae Sanctae de Pio XII[19].

A rubrica que abre as semanas da Paixão sublinha que a cruz permanece coberta não mais até o fim da ação litúrgica, agora celebrada à tarde, mas até a adoração:

 

Expleta Missa, cooperiuntur cruces et imagines per ecclesiam; quae coopertae manent, cruces quidem usque ad expletam per celebrantem Crucis adorationem in feria VI in Passione et Morte Domini, imagines vero usque ad intonatum hymnum angelicum in Missa Vigiliae paschalis (n. 752, p. 117).

 

No formulário precisa-se que o altar está completamente nu, inclusive sem a presença da cruz: Altare omnino nudum sit: sine cruce, sine candelabris, sine tobaleis (p. 161). Usa-se uma Cruz de tamanho considerável, com o crucifixo, e coberta com um véu roxo, que é trazida solenemente da sacristia. A ostensão da Cruz e a sua adoração se desenvolvem mutatis mutandis como indicado no Missal de 1920.

 

editio typica do Missal Romano

 

O MR reformado por vontade do Concílio Vaticano II, promulgado no dia 26 de março de 1970, quinta-feira santa, com um decreto da Sagrada Congregação para o Culto Divino[20], há exatos 400 anos da publicação da editio princeps, recebeu a reforma Piana com poucas alterações. A versão “brasileira” do MR veio à luz em 1973. A rubrica em questão, todavia, encontra-se modificada: “Portata Crux velata ad altare, eam comitantibus duobos ministris cum candelis ascensis...”[21]. A rubrica passou inalterada à editio typica altera de 1975[22], cuja tradução apareceu no Brasil em 1993[23] e esteve em uso até o Advento passado, exclusivamente.

 

A terceira edição típica do MR e a tradução brasileira

 

Uma das razões determinantes para uma nova edição do MR foi a de reafirmar a vontade da Igreja de não deixar a liturgia à sorte de improvisadores e de criatividades selvagens e desautorizada, esclarecendo alguns pontos de caráter cerimonial que se faziam necessários; foi o caso da rubrica em estudo[24]. A terceira edição típica do MR, aprovada pelo Papa São João Paulo II, veio à luz em 2002, com uma reimpressão emedada em 2008.

Passando a cor litúrgica do preto para o vermelho, intuiu-se que tudo deveria cobrir-se de vermelho neste dia. Para corrigir tal equívoco a rubrica foi ligeiramente retocada. A edição brasileira do MR, em uso desde o dia 3 de dezembro de 2023, traduziu literalmente a rubrica:

 

Diaconus cum ministris vel alius minister ideoneus adit sacristiam, ex qua processionaliter affert Crucem, velo violáceo obtectam...[25]

O diácono com os ministros, ou outro ministro idôneo, dirige-se à sacristia, de onde traz a Cruz em procissão coberta com um véu roxo... [26]

 

Algumas breves conclusões

 

            Do processo histórico evidenciou-se que esse rito de “desvelamento” da Cruz é tardio e não romano, sendo acolhido muito mais tarde ainda na liturgia romana. Nasce num contesto em que, distanciado da teologia dos Padres e descentralizada a liturgia como teologia primeira, passa-se da Cruz ao crucifixo; da Cruz gemada, vitoriosa e gloriosa à Cruz ensanguentada; do Cristo Rei e vitorioso “sentado” na cruz como num trono de glória, ao Cristo vítima, ensanguentado e abatido[27].

            Nenhum documento, até à reforma Piana da semana santa, tinha precisado a cor do véu que deveria velar a Cruz, embora há alguns séculos se usasse o roxo. A reforma litúrgica do MR achou desnecessária acentuar esse detalhe cerimonial, porque já estabelecido como uso oficialmente desde 1955.

            A incompreensão da função pedagógica do uso das cores na liturgia, fez com que o véu da cruz assumisse a cor dos paramentos do dia. Ou teria sido por influência da liturgia papal, visto que na liturgia papal também no funeral dos papas o roxo é substituído pelo vermelho?

            A terceira edição típica do Missal Romano não mudou nada, apenas precisou um elemento cerimonial que tinha injustamente passado por mutação.

            Uma lição que podemos tirar disso tudo é que as cores litúrgicas dizem respeito aos paramentos e não aos outros elementos que compõem o espaço celebrativo, tais como toalha do altar, vestes dos ministros não ordenados, possíveis elementos decorativos do ambão, dos altares dos santos etc. Nunca é demais recordar o que diz o Estudo 115 da CNBB (As vestes litúrgicas) a tal respeito[28].

            Para além da cor do véu, convém acentuar que o centro dessa sequência ritual é o lenho da Cruz e não o crucificado, prenunciado pela antífona da entrada da quinta-feira santa que abre todo o Tríduo Pascal: “Nós, porém, devemos gloriar-nos na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo”. Mistério central é o Mysterium crucis “Eis o lenho da Cruz, do qual pendeu a salvação do mundo”. A teologia é apresentada pelos textos e pelos ritos. A cruz entra “fulgurante” e triunfal: ela é o “estandarte do Rei” (Vexilla Regis prodeunt – hino das Vésperas). Sendo nela cravado, com ela o Rei fere mortalmente a morte.

Por isso ela é adorada (Crucem tuam adoramus, Domine – Adoramos, Senhor, vosso madeiro – Antífona para a adoração da Cruz) com os mesmos gestos com o qual se adoram as espécies eucarísticas: genuflexão e silêncio. Ela é presença “real”, no seu duplo significado. Porque a humanidade não suportaria contemplar o seu fulgor de imediato, ela vai paulatinamente sendo desvelada para revelar-nos o seu mistério de vitória e de nossa garantia de salvação.

            O hino de Venâncio Fortunato († 610), infelizmente amputado e parafraseado na nossa tradução, reflete a teologia patrística dessa celebração. A Cruz vem aclamada como a árvore original (das origens) prefigurada pela arvore do jardim plantado no Éden, lenho da fidelidade de Deus em Jesus Cristo – Sic Deus dilexit mundum (Jo 3,16).

            A sexta-feira santa, portanto, se apresenta como o dia da grande vitória do amor e do triunfo majestoso do Filho do Eterno Pai. O centro dessa terceira parte da Celebração litúrgica é a cruz gloriosa, como recorda Santo André de Creta († 740/750):

 

Celebramos a festa da Cruz: por ela as trevas são repelidas e volta a luz. Celebramos a festa da cruz e junto com o Crucificado somos levados para o alto para que, abandonando a terra com o pecado, obtenhamos os céus. A posse da Cruz é tão grande e de tão imenso valor que seu possuidor possui um tesouro. Chamo com razão tesouro aquilo que há de mais belo entre todos os bens pelo conteúdo e pela fama. Nele, por Ele e para Ele reside toda a nossa salvação, e é restituída ao seu estado original.

Se não houvesse a Cruz, Cristo não seria crucificado. Se não houvesse a Cruz, a Vida não seria pregada ao lenho com cravos. Se a Vida não tivesse sido cravada, não brotariam do Lado as fontes da imortalidade, o sangue e a água, que lavam o mundo. Não teria sido rasgado o documento do pecado, não teríamos sido declarados livres, não teríamos provado da árvore da Vida, não se teria aberto o Paraíso. Se não houvesse a Cruz, a morte não teria sido vencida e não teria sido derrotado o inferno.

 

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